Marco Pigossi sobre novos desafios: “O glamour para mim é a parte chata, é o ônus” – GQ

9

Esqueça aquele modelo de ator global que nos acostumamos a consumir e dar ibope. O galã dos tempos futuros nem vive de ibope. E Marco Pigossi entendeu isso antes dos 30 – que ele faz em fevereiro do ano que vem. O ator paulistano até já reproduziu, de alguma forma, esse modelo antigo. Ficou onze anos como funcionário da TV Globo, onde realizou uma novela por ano e chegou a interpretar cinco mocinhos seguidos. Inicialmente, até teve a sensação de que a fama era algo palpável, mas antes de qualquer deslumbre fincou rápido os pés no chão – com a ajuda de seu ascendente em capricórnio, oposto de seu sol em aquário. Simples.

O alcance da superexposição somado a uma repetição de personagens na TV foram definitivos para Pigossi repensar sua trajetória. O ápice foi com Zeca, de sua última novela, A Força do Querer. O protagonista, machista e meio jeca, para seu espanto caiu nas graças do público, o feminino inclusive. “Vivemos em uma sociedade machista estruturalmente. Achei que essa novela traria esse questionamento, até porque já estávamos vivendo essa onda feminista. Mas nada disso aconteceu. O Zeca me fez repensar minha função social e artística como ator”, reconhece.

+Chay Suede, Fabricio Boliveira e Emilio Dantas ensinam como ser um galã em qualquer circunstância

+Rodrigo Santoro sobre ser vilão: “Você não vê um super-herói latino”

Marco Pigossi  (Foto: Henrique Gendre )
Marco Pigossi  (Foto: Henrique Gendre )

Antes de Zeca, o ator já vinha dando sinais de esgotamento. Pediu um ano de licença para poder investir em algo que a batida de uma novela atrás da outra não permitia: o cinema. Protagonizou seus primeiros dois longas, ambos baseados em histórias reais – A Última Chance, em que vive um carioca da favela, campeão de muay thai, que vai parar no tráfico, e O Nome da Morte, em que encarna com potência um matador de aluguel cristão. “Nunca ia fazer um cara da favela ou um pistoleiro em uma novela”, conta.

Os doze meses que pediu de licença viraram oito, com a chegada do novo mocinho, o Zeca. “Senti que tinha chegado no meu limite artístico”. O que aconteceu a partir daí, diz, foi uma sucessão de sorte do destino. Logo depois de gravar Onde Nascem os Fortes, Pigossi anunciou à emissora que não renovaria o contrato, um feito raro. Explica-se: é uma tendência na Globo fazer contratos por obra, mas isso, até então, era sempre por escolha da casa, não do artista. O vazamento da notícia do rompimento de contrato foi parar nos corredores da Netflix. Resultado: um telefonema e um teste depois, em menos de uma semana Pigossi já estava rumo à Austrália para rodar a série Tidelands, que estreia em dezembro em 190 países.  

No momento em que o mercado e a própria sociedade se habitua a essas novas formas de consumir dramaturgia, quem ficou mais ansiosa foi a sua mãe. “A primeira pergunta que ela fez foi: ‘Como você vai largar um emprego com carteira assinada e com dia certo para receber? Você se preparou para isso.’ Minha família só se tranquilizou com a minha opção de ser ator quando fui para a Globo.” 

Largar o conforto de seu ótimo salário mensal foi “artisticamente um tiro no escuro”. Mas financeiramente, não. “Estamos falando de uma produção que usa uma moeda que vale três, quatro vezes mais que a nossa. Foi um degrau acima.” Pigossi prefere, porém, focar na questão artística, sua real motivação para ir pisar em terrenos desconhecidos, como gravar pela primeira vez em inglês. “Passei onze anos sendo reconhecido aqui em todo lugar que eu vou e sendo bem tratado pela caixa do mercado, mesmo ela estando em um dia ruim. Queria essa possibilidade de me entender pelos olhos de quem não me conhece.” 

Marco Pigossi  (Foto: Henrique Gendre )
Marco Pigossi  (Foto: Henrique Gendre )

O novo formato de série, com gravações mais curtas, deixa o ator com agenda livre para ampliar as possibilidades: o mercado de cinema internacional também está na mira – na semana desta entrevista, Pigossi já tinha feito três testes para produções estrangeiras. Mas não pense que ele está totalmente sem planos para o futuro – Pigossi já tem outra série em desenvolvimento com o animador brasileiro Carlos Saldanha.

Todos esses movimentos do ator nada tem a ver com um foco em carreira internacional, como já vimos com outras estrelas brasileiras. “Jamais viraria as costas para um bom personagem aqui, na Globo inclusive, para fazer algo que não fosse tão bom só porque é lá fora. Não estou buscando uma carreira internacional, estou buscando novos desafios. Essa coisa do glamour fica atrás do personagem. O glamour para mim é a parte chata, é o ônus.”
Pigossi sempre preferiu essa vida low-profile, um dos motivos pelo qual, acredita, faz pouquíssima publicidade e, ao mesmo tempo, ajudou a se manter no ar anualmente, pois não desgasta sua imagem. Discrição que se reflete, aliás, no seu guarda-roupa – uma porta de armário de um closet e pouquíssimas gavetas (e isso foi conferido pela reportagem).

Mas, para Pigossi, questões humanas e do cotidiano lhe são mais caras hoje. Nada disso importa se não colocar em prática as reivindicações que se faz sobre os políticos quando o tema é corrupção. “Todo mundo aponta o dedo pra isso, mas está exercendo, está dando um jeitinho, furando fila. Isso é feio.” É imprescindível também para Pigossi dissociar a liberdade e a cultura do medo. “Ainda tem gente que acha que uma exposição como o QueerMuseu é para influenciar as crianças a serem gays, quando na verdade é para que crianças e adultos se permitam ser quem eles são e para ensinar o outro a ter tolerância e respeito. Mas a gente precisa fazer as pessoas perderem o medo das diferenças, pois ele gera coisas horríveis. O medo fez a Alemanha eleger o Hitler.”

Fonte oficial: GQ

​Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Sixth Sense.

Comentários