Marco Pigossi vive matador em estreia no cinema: “Todo mundo é meio vítima e meio carrasco” – GQ

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Marco Pigossi estreia nesta quinta-feira nos cinemas na pele de Júlio Santana, matador de aluguel a quem são creditadas 492 mortes. O filme O Nome da Morte, com direção de Henrique Goldman, é baseado em uma história real relatada no livro de mesmo nome de Klester Cavalcanti e é o primeiro do ator, com a atriz Fabíula Nascimento no papel de sua mulher. Na entrevista exclusiva para a GQ, Pigossi fala da mudança na carreira depois de 10 novelas na TV Globo e sobre a questão que o filme levanta: “Quem é esse cara e por que ele fez o que ele fez?”

Marcos Pigossi em O Nome da Morte (Foto: Divulgação)

GQ: Essa é a sua estreia no cinema depois de tantos anos fazendo novela. Como foi?
Marco Pigossi: Isso na verdade foi um processo meu, um ano que pedi para a Globo para ficar fora de novela, ficar fora do ar para buscar o cinema. As coisas iam acontecendo e eu tinha convites interessantes, mas sempre estava em uma novela. Tinha esse roteiro na mão e achei o maior desafio como ator, acho que jamais conseguiria fazer numa novela um personagem como esse, que precisa dessa imersão, com essa dualidade. É um personagem complexo para uma estreia no cinema, mas eu estava com a Fabíula [Nascimento], que tem uma super base no cinema, tem vários filmes incríveis, está na história do cinema brasileiro e conhecia grande parte da equipe. Aí a coisa já ficou mais fácil. O cinema é muito generoso com o ator, muito mais do que qualquer veículo, eu arrisco dizer que é porque ele tem um tempo, tudo é pra contar história: a luz, o tempo do ator, o tempo do ensaio, da preparação, de mergulhar no personagem, então foi uma surpresa muito gostosa, uma descoberta adorável que eu tive.

Marcos Pigossi em O Nome da Morte (Foto: Divulgação)

GQ: Você fez algum tipo de laboratório, de pesquisa?
Marco Pigossi: Teve um processo de pesquisa, sempre falo que um personagem é um mosaico, um pano cheio de retalhos, a gente vai pegando as referências e vai construindo essa pessoa. É claro que estamos falando de um filme que é uma história real, baseado no livro do Klester [Cavalcanti], que é sobre o Júlio Santana, sobre a vida dele, mas o roteiro tem suas pequenas mudanças que transformam o filme. Eu não conheci o Júlio, não falei com ele e nem quis, porque a ideia era trazer o meu Júlio Santana. Quem é esse cara e por que que ele fez o que ele fez? No meio do meu processo de laboratório um cara falou pra mim: ‘o ser humano é um produto do meio onde ele vive. Ele é igual a um cachorro, se é treinado para matar ele mata e se é treinado para não matar ele não mata’. Aquilo foi muito interessante porque foi ali que eu entendi que o que eu tinha que fazer por esse personagem era me desconstruir dos meus conceitos morais, éticos, humanos, políticos, sociais e me limpar disso. Entender que esse cara veio do nada, sem acesso à educação, cultura; nada. A única forma de afeto que ele tinha era esse tio, que leva ele para esse caminho. Aí você começa a entender o personagem e a pensar: ‘cara, é real, poderia acontecer sim, como acontece’. Esse filme traz essa denúncia e questiona até que ponto a sociedade é responsável politicamente falando. Não adianta eu virar e falar: ‘ah, mas ele nunca teve acesso à cultura e educação e não é por isso que ele vai sair matando porque eu também não tive’. Não, claro, não justifica o que ele faz, mas até que ponto ele não consegue perceber isso e cruza essa linha? Enfim, acho que esse filme levanta esse questionamento e traz esse diálogo, essa questão que está presente, que existe no nosso Brasil até hoje. Eu não estou falando do Brasil esquecido [o filme se passa no interior de Tocantins], onde a gente foi buscar o Júlio, a gente tá falando de grandes cidades, a gente tá vendo casos acontecendo e virando o rosto, fingindo que não está vendo. Mas acho que toda manifestação artística é uma denúncia, um questionamento. Espero que as pessoas venham assistir ao filme com essa cabeça, de tentar entender e abrir diálogo pra isso.

Marcos Pigossi em O Nome da Morte (Foto: Divulgação)

GQ: Depois que você entrou no personagem e assistiu ao filme: vítima ou carrasco?
Marco Pigossi: Pois é, essa é a questão, não posso falar que esse cara é vítima. Ele é vítima sim, de um sistema, de uma falta de acesso a tudo, mas eu não posso defender as atitudes dele, aí ele é carrasco. Todo mundo é meio vítima e meio carrasco, todo mundo é resultado da experiência e da forma que você conduz isso. Então eu digo que ele é os dois: vítima e carrasco. E o que me encanta nisso é como você consegue se acostumar, não sei se felizmente ou infelizmente, mas a gente se adapta a tudo, ele se acostumou a puxar o gatilho. Depois de 40, 50, 100, é só um gatilho, não tem mais a relação do afeto. E o cara do frigorífico responsável pelo abatimento? E o cara que estava na Segunda Guerra trancando os judeus numa câmara de gás? Todos eles são pais, têm família. Como é louca a diferença entre o comum e o normal. É comum, mas não pode ser normal. Se for normal estamos ferrados.

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GQ: O seu personagem era atormentado, tinha pesadelos. Você também ficou atormentado fazendo o papel? Pesou para você?
Marco Pigossi: Pesa. O grande barato também de fazer cinema é que é um mergulho em que a sua vida fica em suspenso. O Marco deixou de existir por 40 dias. A gente foi para o meio do nada, isolados. É claro que é pesado, acho superimportante o ator que sabe dar esse distanciamento, eu não acredito muito nessa atuação de se perder no personagem, quebrar tudo, perder o controle. Eu acho que o ator sempre tem que estar no controle, mas é claro que você se deixa impregnar por isso, esse ambiente pesado, sem lei; foi pesado. Quando acabou eu só queria sair dali, mudar meu rosto, cortar a barba, o cabelo, viajar, me reencontrar, voltar a ser o Marco.

Marcos Pigossi em O Nome da Morte (Foto: Divulgação)

GQ: Você vai fazer 30 anos em fevereiro. Como se vê com 40?
Marco Pigossi: Eu espero manter esse movimento, nunca fui um cara de parar e ficar no lugar, na zona de conforto, eu estou sempre arriscando, brincando, procurando, explorando. Mas isso tudo porque eu ainda tenho 30 anos e nada que dependa de mim, estou solto nesse sentido. Mas eu espero nunca perder essa liberdade, do artista curioso, espero manter isso com 40 anos, mas talvez um pouco mais calmo [risos]?

GQ: Seus personagens nunca são muito calmos. Têm uma energia, uma certa violência, são enérgicos. Você também é assim?
Marco Pigossi: Eu sou, sou um cara enérgico, inquieto, não paro quieto, era super DDA quando era pequeno, não prestava atenção em nada. Fazia uma coisa, largava e começava outra. Acho que sou ator por isso, eu queria ser tudo ao mesmo tempo, então sendo ator eu posso ser o matador, o piloto de avião, o caminhoneiro, aí eu vou brincando com isso, essa energia de querer fazer tudo ao mesmo tempo. Espero que com 40 eu esteja mais sossegado, sabendo mais as coisas, aceitando melhor.

Será? Assista ao trailer de O Nome da Morte.

Fonte oficial: GQ

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