“Não queria ser uma cópia”, diz Renato Góes sobre viver Marcelo D2 – GQ

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Para viver Marcelo D2 nos cinemas, Renato Góes passou pelo chama de “período de imersão” na vida do artista. Montou uma banda, conheceu amigos e familiares do músico e até trabalhou como camelô no centro do Rio de Janeiro, simulando a vida do rapper antes da fama. Durante o processo de filmagem de “Legalize Já”, uma das principais estreias dos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (17), no entanto, ele tinha um grande receio em mente.

“Durante toda a jornada, eu tinha uma intenção bem clara: eu não queria ser uma cópia”, contou o ator, eleito Men of The Year na categoria Revelação em 2017, em entrevista à GQ. Mesmo contando com os conselhos do próprio D2, o ator diz que procurou fugir da imitação e trazer novos elementos para o enredo do longa. “Os meus amigos até me falavam como seria interpretá-lo, já que não somos parecidos fisicamente. Bem, é cinema”, falou.

Mostrando como a amizade entre Marcelo D2 e Skunk (Ícaro Silva) – um músico à frente do seu tempo e responsável por descobrir o talento do parceiro – gerou o Planet Hemp, uma das bandas mais importantes do cenário musical dos anos 90, o longa dirigido por Johnny Araújo e Gustavo Bonafé foge do óbvio, evitando a panfletagem sobre as drogas e abordando outros assuntos, como aborto e racismo.

“É engraçado. Em nenhum momento, o filme fala em legalização de maconha. Tá mais para uma legalização dos corpos”, filosofa Góes, que acredita que o longa chega às telas grandes em um momento delicado do país, como um grito de resistência. “Eu espero que as pessoas consigam entender esse nosso grito de liberdade, de amor, e de força”, afirma. Confira o papo na íntegra.

Renato Góes como Marcelo D2 em 'Legalize Já' (Foto: reprodução)

GQ: Renato, como foi criar um personagem em cima de um artista vivo e conhecido pelo público? As comparações entre vocês são inevitáveis.

Cara, foi um grande processo de imersão. Antes de tudo, eu pedi ajuda a um amigo meu e nós montamos uma banda. Passamos uns oito meses, cantando duas vezes por semana somente Planet Hemp, dentro do estúdio. Isso aconteceu antes mesmo da entrada do Ícaro (Silva, o Skunk no filme). Nesse processo de criação, eu encontrei um caminho para usar o corpo e a minha voz. Achei o flow do rap, que é tão difícil. Quando eu me senti seguro,  fiz uma gravação e mandei para o Johnny (Araújo, diretor do longa). Ele, por sua vez, enviou o áudio para o Marcelo D2, que ficou sem entender: “que porra é essa? Isso é Planet antigo?” (risos). Ele chegou a achar que era ele mais novo no vocal, numa gravação antiga.

GQ: Então você chegou a conversar com o próprio D2 para chegar no ponto certo?

Aquilo, para mim, foi um norte. A partir deste ponto, eu percebi que poderia me aprofundar mais na vida do personagem. Eu procurei saber onde o Marcelo tinha morado na maior parte da juventude. Quando eu fui atrás disso, respondendo a sua pergunta, foi que ele entrou na jogada. Eu queria ir para São Cristovão, Madureira, os lugares que eu ouvia nas músicas dele. O Marcelo, então, me explicou: “Renato, vai para o Catete. Foi lá que eu cresci com o rap”. E ainda me apresentou vários amigos, como o Akira Presidente, além da família dele. Eu também viajei com o Planet Hemp, em turnê. Mas, na minha cabeça, voltando à primeira pergunta, durante todo esse processo, tinha uma intenção bem clara: eu não queria ser uma cópia.

GQ: Até porque o Marcelo dos anos 90 era bem diferente.

Pois é. Ele andava de cabeça baixa, tinha menos atitude, menos voz, menos coragem… Foi muito difícil olhar para o cara que é uma puta referência, sugar tudo dele e ainda me diferenciar e apresentar um homem que ninguém conhece. Eu passei, também, mais de um mês trabalhando de graça como camelô no centro do Rio, no mesmo lugar onde ele trabalhou. Mas o processo de imersão, digamos assim, durou apenas oito meses. Depois disso, eu virei para mim mesmo e disse: “daqui para a frente, eu tenho uma verdade para contar”. Com um personagem mais construído, eu consegui colocar umas coisas novas.

Renato Góes como Marcelo D2 em 'Legalize Já' (Foto: divulgação)

GQ: O D2 visitou o set?

Umas quatro ou cinco vezes. Na começo, foi mais difícil, mas depois a gente foi se soltando. Em uma brincadeira, o diretor disse “ação!”, e foi o Marcelo que entrou no meu lugar em cena, com o figurino do personagem. Isso deu uma suavizada. Eu perguntava só uma coisa ou outra para o Marcelo. É um puta cara sensível. Lembro que logo no primeiro dia ele se emocionou. E sempre, sempre mesmo, me deixou à vontade para trabalhar.

GQ: No filme, o Skunk (Ícaro Silva) brinca constantemente que o Marcelo é o sex symbol da banda. De fato, por ser um cara bonito, você acrescenta esse lado à história. Este parece ser um diferencial do seu personagem.

O engraçado é que o Skunk falou isso para o Marcelo na época. É um diálogo real. No início da banda, essa frase era colocada como incentivo para o Marcelo. Como o filme mostra, toda a força que o Marcelo D2 como artista foi impulsionada pelo Skunk. Era algo como “mermão, vamo nessa. Você é o band leader!”. Só que ganha outra conotação no filme, realmente. Os meus amigos até me falavam como seria interpretá-lo, já que não somos parecidos fisicamente. Bem, é cinema. Acho que o público vai conhecer um Marcelo diferente.

GQ: Qual era a sua relação com o Planet Hemp antes do filme? Como você descobriu a banda?

Eu descobri Planet Hemp quando era novinho, com uns 13, 14 anos. Lembro a banda como “algo proibido”. Lembro que um grande amigo meu, que era carioca e estudava comigo, levou um dia o CD Os Cães Ladram mas a Caravana Não Pára para o Recife. Eu só pensava: “caralho, ele tem um disco do Planet e a mãe dele deixa (ouvir)”. A gente gostava principalmente por ser uma coisa proibida. Só que rolou um “gap” (espaço) enorme entre essa fase e o filme. Eu só voltei a ouvir Planet Hemp há uns cinco anos, quando eu entendi toda a importância da banda.

GQ: O filme se chama Legalize Já e mostra diferentes tipos de “liberdades privadas pelo estado”. Há a discussão sobre aborto, mostra a maconha como algo natural e há,  também, a questão do racismo, que limitava o direito de ir e vir do Skunk pelas ruas do Rio….

É, isso é engraçado. O filme é sobre tudo isso. E em nenhum momento o filme fala em legalização de maconha. Tá mais para uma legalização de corpos.

GQ: Você chegou a refletir sobre esses assuntos durante o trabalho?

Eu já penso em todos esses assuntos há muito tempo. Em todos os países de primeiro mundo, essas questões estão bem resolvidas. O Brasil está numa situação retrógrada demais. E eu não acho que a gente tem que chegar para o povo e dizer “está legalizado ou não”. As coisas precisam parar, antes de tudo, de ser tabu. Não adianta colocar temas polêmicos como plebiscito. Você precisa de informação. As pessoas precisam entender do que a gente está falando. Por que a maconha é proibida? Quais são os malefícios e benefícios? Nada disso é explicado. A maconha pode ser usada na medicina e na indústria têxtil! O mesmo sobre o aborto. As pessoas acham que proibir o aborto vai fazer com que ninguém aborte. Não, proibir o aborto faz que a mulher rica arrume uma boa clínica e não faça o aborto seguramente, enquanto a mulher que não tem condições pode morrer, em clínicas clandestinas muito piores. A gente precisa falar mais sobre tudo isso.

Renato Góes como Marcelo D2 em 'Legalize Já' (Foto: divulgação)

GQ: Ao menos por enquanto, ainda podemos nos posicionar sobre esses temas. Você teme viver num país com mais restrições no futuro? A democracia e a liberdade de opinião, para você, estão em risco?

(Risos) Cara, toda a classe informada do Brasil está com muito medo. Qualquer pessoa que se preocupou em estudar e saber a história do Brasil está com receio. E eu não temo nem tanto as ameaças, tortura ou algo assim. O meu medo é da gente ser privado de dizer o que acha no dia a dia, ter medo de fazer teatro na rua, no meu caso. Bem, vamos ver no que dá… Mas o perigo é iminente.

GQ: Por falar em liberdade de expressão, o filme mostra o D2 fazendo alguns comentários preconceituosos contra gays e negros. A intenção era mostrar como os personagens pensavam na época?

Sim. O próprio Marcelo disse que não era para a gente ter medo de retratar os diálogos assim. Ele fala que a banda era “quadradona” para essas coisas, machista mesmo. O Marcelo, por exemplo, não queria saber na época como o Skunk pegou Aids. Hoje, ele é um cara extremamente evoluído e bem posicionado sobre qualquer tema. Há 30 anos, o Brasil inteiro era machista. É importante que a gente mostre isso no filme.

GQ: Você acha que Legalize Já chega em um bom momento ao cinema, politicamente falando?

Acho. Demais. O momento do filme é agora. É essencial que as pessoas vejam o filme neste momento. A gente concluiu o longa há dois anos e, por acaso, ele só sai agora. Bem, nada é por acaso (risos). Eu espero que as pessoas consigam entender esse nosso grito de liberdade, de amor, de resistência, e de força.

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Fonte oficial: GQ

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