Não só jogo de corrida, Forza Horizon 4 também é um espaço de expressão – GQ

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Para um fã do gênero em 1997, Gran Turismo foi o mictório do Duchamp, os maiôs da Coco Chanel, aquilo que fãs e criadores simplesmente já não poderiam ignorar. E não apenas por traduzir os simuladores de computador, então meio inacessíveis, para o formato dos videogames. Gran Turismo também abraçou elementos que remetem às mesas de Dungeons & Dragons: você se aventurava por um mapa, mas ao invés de contratar aventureiros em tavernas você montava uma garagem variada visitando concessionárias, e no lugar de evoluir as capacidades do seu herói para se equiparar a algum mitológico dragão, você lutava por licenças cada vez mais exigentes para ter acesso a torneiros maiores. E nisso, surigia um elemento e tanto: expressão pessoal. Minhas memórias mais antigas de games envolviam trocar cartões de memória do PlayStation no intervalo com os amigos para poder conferir suas garagens, ver suas ideias de tunagem e trocar carros.

Forza Horizon 4, lançado nesta terça-feira (02) para Xbox One, em muitos sentidos extrapola essa filosofia. Claro, ele não é conceito novo. Vide o número 4 no título e o legado que toma emprestado de games igualmente ambiciosos como Test Drive e Need for Speed Underground: jogos de corrida que se divorciam dos circuitos fechados de Gran Turismo a favor de hectares e mais hectares para se explorar sobre quatro rodas, geralmente em diversas disciplinas de corrida. Mas é preciso admirar o que o estúdio Playground Games fez desta vez.

“Você vai viver lá”, crava Mike Brown, diretor de game design do estúdio Playground Games, sobre as colinas e casebres do interior britânico que são palco do novo Forza Horizon e do festival homômino, que é a desculpa pata todos os carrões e a galera festiva reunida no local. A ideia de ‘habitar’ surgiu de uma das novidades mais notáveis do game: a introdução das quatro estações, cada uma repleta de desafios e charme próprios – o verão é colorido e vibrante, a primavera e outono transformam o off-road em uma guerra na lama e o inverno traz disputas sobre lagos congelados até então inacessíveis.

Forza Horizon 4 Jump (Foto: Divulgação)

Para as estações, a equipe da Playground Games teve que desenvolver quatro versões distintas do mundo, que são chamadas quando necessário – não há uma transição gradual entre cada estação. Cada parte do jogo traz uma experiência própria: a frenética introdução te coloca no volante de uma McLaren Senna e alterna em questão de minutos entre climas e disciplinas (por telefone, Mike me oferece um riso cansado só de lembrar o desafio técnico envolvido em criar estes 40 minutos iniciais de jogo); depois um prólogo extenso alterna entre as estações a cada uma hora e meia em média e daí o game se abre, oferecendo uma nova temporada por semana. “As temporadas foram o item mais trabalhoso com que já nos envolvemos, e todos nossos times trabalharam de alguma forma nela”, conta o designer para a GQ Brasil. Cada estação envolve um ambiente de som, um conjunto de atividades e um stress próprio para pneus e suspensões dos carros, explica.

“Quando começamos a conversar sobre estações e o que elas significariam para nosso game, o Festival Horizon sempre foi sobre carros e música, e sempre imaginamos a coisa toda como esse destino de férias ideal”, conta Mike. “Mas porque temos as estações, bem, não é mais só umas férias, mas sim um evento permanente, uma espécie de Disneyworld”, completa.

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Neste panorama, o jogador não é bem um piloto, nem um turista, mas um empreendedor: além de participar de desafios únicos a cada uma das quatro temporadas, dá para adquirir negócios e propriedades (que servem como central para algo em torno de 6 mil peças de roupa, acessórios e afins que o jogador pode usar para personalizar seu personagem, além de fonte de créditos extras). É essa variedade, somada a constantes vinhetas com o piloto como protagonista, que pode motivar um jogador a largar o volante e pensar em sua pequena vida virtual, garante Mike. O jogo até fala seu nome com frequência – ou ao menos o que está salvo em seu perfil Xbox. “Você pode fazer um piloto que te represente, não apenas um personagem qualquer”, diz o artista.

Amarrando tudo isso está uma outra adição que pode ou não funcionar: Forza Horizon 4 é o primeiro jogo da série a se passar em um mundo compartilhado, povoado o tempo todo por outros jogadores online. Bom porque com 72 pessoas dividindo o mundo há motivo para exibir seu gosto fashionista e seu carro modificado com cores neon. Ruim porque nada destói um bom local de veraneio quanto um grupo de crianças malcriadas que acabou de aprender seus primeiros palavrões. 

“Investimos muito tempo e esforço para garantir que Forza Horizon seja um espaço positivo”, revela Mike. Para tanto, surgiram ideias que adoraríamos ver trazidas ao trânsito cotidiano, surreais que sejam: todo jogador que não é seu amigo ou conhecido na rede do Xbox é incapaz de bater no seu carro, impedir sua corrida ou te jogar para fora da rua. – os carros deles aparecem incorpóreos no jogo. Mesmo que você entre em um grupo com essas pessoas, não vai ter ninguém encrencando no microfone. “Eles têm que se comunicar por um grupo de frases pré-selecionadas acessíveis pelos botões do direcional”, explica o game designer.

O foco do time foi se concentrar no que chamam de “interações rápidas”, aquelas que você vai ter na estrada com estranhos passando na contra-mão. O que você faz entre seus amigos importa pouco. Esse foco pode ser essencial no objetivo do time de melhorar a vida no mundo compartilhado, e te fazer aproveitar a jogabilidade mais libertadora que simuladores tradicionais, sem tirar o pé do chão.

Forza Horizon 4 Welcome to the Horizon Festival (Foto: Divulgação)

‘Habitar’ um jogo hoje em dia não é filosofia livre de problemas. Afinal ela remete ao conceito do ‘jogo como serviço’: produtos afinados para consumir centenas de horas de seu tempo e fazê-lo gastar uma grana extra no processo. Não raro eles incluem elementos aleatórios que já foram acusados – em corte, por sinal – como próximos demais do ‘jogo de azar’ (Forza Horizon 4 evita essas práticas, e a equipe planeja apenas algumas expansões pagas entre este ano e a primeira metade de 2019 para reforçar a receita com o game). 

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E o papo de casas e negócios e estações e 6 mil camisetas e calças de sarja, bem, pode parecer meio efêmero em um game no qual você pode correr contra um jato.  

Forza Horizon 4 Early Access Release (Foto: Divulgação)

 

Mas a aposta no lifestyle, na sociabilidade e em grandes mudanças de ares pode ser a chave para variar um estilo de jogo que não conta com o charme virtuoso dos simuladores nem com os traçados icônicos destes – desafiamos vocês a lembrarem de alguma rua de Forza Horizon 4 com o mesmo carinho que pistas como Brands Hatch ou o circuito de Monza.

O quarto game da série é mais um passo na jornada do estúdio inglês de aprimorar seu ofício – um objetivo artsy que é caro para eles mesmo com a aquisição pela Microsoft em junho. “A gente se sente o mesmo estúdio independente de sempre”, diz Mike Brown. Para a Playground Games, a compra não alterou a dinâmica interna do trabalho. “Temos acesso a ativos da Microsoft, mas em termos de como fazemos esses jogos, isso continuou na mesma”, completa o artista. Inclua aí uma preocupação com estruturas de liderança e trabalho que evitam um bicho papão comum em estúdios de games: horas extras obrigatórias para alcançar metas absurdas, normalizadas na cultura de boa porção das empresas do ramo.

Em outras palavras, é uma abordagem plácida, que aparece quando Mike conversa sobre a descartabilidade de todas as lindas paisagens inglesas do game, que substituíram as planícies australianas de Forza Horizon 3 e logo serão esquecidas em função da próxima parada na turnê motorfreak da série. O cara não liga de criar raízes nesses enormes dioramas digitais: “Acho que nos voltamos ao assunto de como nossa tecnologia evolui com cada novo projeto”, explica o game designer. “Toda vez que há um desafio, por maior que seja, nós o encaramos e procuramos maneiras de resolvê-lo. No próximo projeto, aquele desafio específico já não é mais tão difícil. Isso nos permite sermos mais ambiciosos da próxima vez.”

Fonte oficial: GQ

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