“Ninguém deve baixar a cabeça para preconceito”, diz Jennifer Dias – GQ

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A personagem de Jennifer Dias em Malhação foi apresentada ao público há três meses e já mexeu com as estruturas da trama. Entrou em rota de colisão com o próprio pai, o diretor Marcelo (Bukassa Kabengele), brigou com colegas de classe e ainda se envolveu em affair com Hugo (Leonardo Bittencourt). A atriz concorda com o posicionamento da personagem.

“Eu acho que ninguém deve baixar a cabeça para nenhum tipo de preconceito. É preciso se posicionar e cada vez mais debater sobre o assunto, para que a mudança aconteça de alguma forma”, disse ela em entrevista à GQ. “Tem um monte de gente morrendo por aí. Ficar em cima do muro não é a melhor opção”, complementa.

A semelhança no posicionamento entre atriz e personagem é grande. Descoberta por Regina Casé em uma roda de samba em Bento Ribeiro, Dias tem usado a sua visibilidade para defender a cultura negra e periféria com o projeto 111, um evento de resistência cultural no Rio de Janeiro.

Jennifer Dias (Foto: Karina Friedrich)

“Eu super me posiciono. Acho que faz parte do papel do artista falar sobre o que te atravessa e sobre o que atravessa seus pares. Eu, como mulher preta e periférica, tenho muito a dizer”, fala ela. Abaixo, você confere tudo o que tem a falar a atriz de 27 anos, uma das mentes mais esclarecidas da nova geração de atores da Globo.

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GQ: Jeniffer, é verdade que você foi descoberta pela Regina Casé? Como aconteceu esse encontro? Você já a conhecia?

Eu estava em uma roda de samba em Bento Ribeiro com minha prima Dandara, que na época era rainha de bateria da Viradouro, e a Regina estava lá também. Eu estava sambando com minha prima “loucamente”, muito feliz, perto da roda, e a Regina veio falar com a gente. Nos convidou para fazermos um teste para o “Esquenta”, da TV Globo. Lembro que fiquei super feliz com o convite! Eu não a conhecia, mas já admirava muito o seu trabalho.

GQ: Antes de estudar atuação, você cursava Engenharia. Na época da faculdade, você sonhava em ser atriz? Pensa em terminar o curso de Engenharia um dia ou ficou no passado?

Nunca pensei em ser atriz. Além de não me ver na TV, de não me sentir presentada, era uma realidade muito distante da minha. Eu nasci em Niterói, em uma favela chamada Coronel Leôncio e minha família tem origem humilde. Tinham poucos cursos de teatro na cidade e os que tinham eram caros. Não existe mais a possibilidade de eu voltar  ao curso de engenharia (risos). Fazia por uma questão de grana. Pensava em ter estabilidade financeira. Depois que comecei a estudar teatro, artes cênicas, me encontrei. Entendi o meu lugar e o que realmente me faz feliz.

Jennifer Dias (Foto: Karina Friedrich)

GQ: Dandara é uma personagem que chegou marcando espaço nesta temporada de “Malhação”.  Você vê a sua personagem como um exemplo a ser seguido pelas minorias na sociedade? Em sua opinião, negros, mulheres e outros grupos devem ir para o “confronto” com os privilegiados?

Eu acho que ninguém deve baixar a cabeça para nenhum tipo de preconceito. É preciso se posicionar e cada vez mais debater sobre o assunto, para que a mudança aconteça de alguma forma. Porque vivemos em um país que tem os negros como 54% da população, e ainda assim nos trata como minoria. Num país que mais mata travestis e trans no mundo. Não dá mais para assistir tanta barbaridade e ficar quieto. Estamos vivendo um momento político muito triste e difícil. Tem um monte de gente morrendo por aí. Ficar em cima do muro não é a melhor opção.

GQ: O ativismo é algo que você tem em comum com a Dandara?

Sim. Eu super me posiciono. Acho que faz parte do papel do artista falar sobre o que te atravessa e sobre o que atravessa seus pares. Eu, como mulher preta e periférica, tenho muito a dizer. E foi a partir dessa vontade de falar que nasceu o projeto 111 (evento de resistência cultural numa laje de um co-work, na praça 11, no Rio de Janeiro. Completa um ano de vida no dia 11/11), uma vontade de movimentar os circuitos artísticos com pluralidade de culturas e experiências de troca. Entendemos a arte como agente transformador, sendo indispensável numa construção social que pretende ser inclusiva.

GQ: E, para finalizar, neste tempo de empoderamento feminino, como os homens podem ajudar na causa das mulheres?

Podem ajudar não sendo machistas. Não só na teoria. Porque muitos dizem que apoiam a causa, mas na prática fazem tudo errado.

Fonte oficial: GQ

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