“Ninguém parou para pensar por que existem tantos negros na favela?”, questiona Cris Vianna – GQ

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Em “O Tempo Não Para”, Cris Vianna vive Cairu, uma ex-escrava que passou 132 anos “congelada”, após um naufrágio de um transatlântico na costa da Patagônia. Apesar do tom absurdo e bem-humorado da trama, a personagem não deixa de escancarar as marcas ainda visíveis de anos de escravidão na sociedade brasileira.

“Muitas favelas surgiram, em parte, de ex-escravos que migravam pra cidade grande em busca de trabalho. Hoje, depois de 132 anos, ninguém parou pra pensar porque ainda existem tantos negros nas periferias e favelas? Acho que a novela tem um papel importantíssimo na reflexão”, diz a atriz em entrevista à GQ.

Referência de talento entre as mulheres negras na televisão brasileira, Cris ainda falou sobre o estudo para criar a personagem – que incluiu visitas ao Quilombo de São José, em Valença, no interior do Rio de Janeiro – e sobre o seus maiores sonhos na profissão. “Ver mais reprensatividade de negros no meio”, disse ela, citando um deles. Confira abaixo:

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GQ: Cris, a sua personagem resgata as memórias da escravidão no Brasil. Inegavelmente, a população negra ainda sofre com resquícios sociais dessa época. Em sua opinião, o quão importante é o país refletir sobre essa mancha negativa do passado? Como isso pode ajudar a enfrentar os problemas dos dias de hoje?
Cris Vianna: A escravidão deixou muitas marcas na sociedade, na população negra, que sofreu total abandono social depois da escravidão. A liberdade foi dada, mas muitos não tinham o que comer, calçar, vestir e nem onde morar. Famílias foram separadas e não tinham nem um sobrenome. Muitas favelas surgiram, em parte, de ex-escravos que migravam pra cidade grande em busca de trabalho. Hoje, depois de 132 anos, ninguém parou pra pensar porque ainda existem tantos negros nas periferias e favelas? Acho que a novela tem um papel importantíssimo na reflexão do quanto ainda precisamos avançar nesse sentido. A luta por um futuro com menos desigualdade precisa ser diária! Só a educação é capaz de minimizar tanto preconceito e mostrar, de forma genuína, que o negro tem um papel fundamental na história e na sociedade desse país.

GQ: Para a novela, parte do elenco visitou quilombos. Como foi a experiência?
Cris Vianna: Foi fortalecedor pra mim e meus colegas conhecer o quilombo. Muitos de nossos antepassados viveram ali! Podemos ver de perto várias crenças que ainda existem e casas com mais de 200 anos. Sem contar as histórias que ouvimos dos mais velhos. Muitos falaram da luta de seus pais e avós para sobreviver. Apesar de tudo isso fazer parte de um período tão dolorido da nossa história, saí de lá ainda mais orgulhosa de pertencer a uma raça tão forte.

Cris Vianna (Foto: Sérgio Baia)

GQ: Em suas publicações no Instagram, é visível o imenso carinho que as seguidoras têm contigo. Muitas delas dizem que se inspiram em você. Você se sente uma referência, principalmente para as mulheres negras? É algo que te enche de orgulho?
Cris Vianna: Tenho um enorme carinho pelos fãs que conquistei ao longo da minha carreira. É muito lindo poder receber esse afeto! Trilhei esse caminho aos poucos e hoje fico feliz de saber que, entre tantas outras mulheres incríveis, alguns seguidores se inspiram em mim ou me veem como referência. É uma responsabilidade e tanto, mas fico muito feliz e grata por isso, sem dúvida!

Cris Vianna (Foto: Sergio Baia)

GQ: Essa é a sua 11ª novela. No teatro, você tem soltado a voz em musicais. Onde você se sente mais à vontade, nos palcos ou no set?
Cris Vianna: Sou atriz. No palco ou no set, o que me encanta é atuar, estar em cena.

GQ: Para finalizar, qual é o seu maior sonho na profissão? E qual a maior dificuldade em ser artista no Brasil?
Cris Vianna: Sonho em trabalhar muito ainda. Na TV, cinema ou no teatro, quero ter mais oportunidades de representar várias mulheres. E, claro, ver mais representatividade (de negros e mulheres) no meio.

Fonte oficial: GQ

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