No dia da visibilidade trans, é a invisibilidade que segue em voga – GQ

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No calor das eleições de 2018, foi mesmo difícil esquecer alguns detalhes interessantes. Um exemplo? O pleito ano passado foi marcado por um recorde na quantidade de candidaturas trans. Foram 53 delas, contra apenas 5 em 2014. Ao menos parte deste movimento se relaciona com uma mudança na Lei das Eleições em março do mesmo ano: o TSE optou por reconsiderar o termo ‘sexo’ usado no código de 1997 como ‘gênero’. O lado puramente biológico da questão, portanto, deixou de ter peso no processo: o gênero ao qual qualquer cadidato responde passou a ganhar maior importância.

Palavras são importantes para essas comunidades. Números também. A partir deles é que ficam mais claros as questões ao redor do tema e abre-se espaço para a criação de políticas públicas mais efetivas – se a violência ocorre de maneira diferente quando as vítimas são transsexuais, por exemplo, talvez medidas mais gerais possam não funcionar.

E quando se fala de dados e trans, desenha-se aí um dilema: 53 transsexuais concorreram a cadeiras em 2018 para representar uma comunidade de… vai saber quantas pessoas. Até o momento o IBGE não contabiliza trans e travestis entre seus indicadores populacionais. Fica-se então sem saber ao certo o tamanho dessa população, seu nível médio de escolaridade, faixa salarial e situação familiar. Réguas que outros grupos sociais já são capazes de acessar, mas que jogam a comunidade trans em um certo limbo estatístico.

Numericamente, eles não são invisíveis, claro. A Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra) divulga desde 2017 em parceria com o Instituto Trans de Educação (IBTE) um dossiê anual da violência. É ele que reúne os tipos de dados que você precisa saber hoje: algo em torno de 41% dos assassinatos de trans ao redor do mundo ocorrem no Brasil. É o país que mais mata transsexuais no mundo. Só em 2018, foram 163 assassinatos de pessoas trans, sendo 158 travestis e mulheres transexuais, 4 homens trans e 1 pessoa não-binária. A expectativa de vida média, segundo a União Nacional LGBT, é de 35 anos, menos da metade da média nacional, de 75 anos.

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É um conjunto de números importante, mas que sofre com a falta de um banco de dados centralizado e unificado. Na falta de fontes oficiais do governo e com recursos limitados, a Antra coleta informações da mídia, de suas redes pelo país e de parceiros locais. É um corpo de dados que sofre com a questão da subnotificação e mesmo com problemas simples: é impossível saber a porcentagem de trans vítimas da violência no Brasil, por exemplo, sem saber quantos existem no país.

E dado só é realmente valioso quando tempo entra na equação. A Antra conta com dois únicos pontos de análise, 2017 e 2018, uma linha do tempo que é distorcida por alterações na cobertura midiática – o grupo calcula que casos de violência contra trans não noticiados por jornais e revistas aumentaram em 30% entre os dois anos. O levantamento de 2018 representa uma queda no número de assassinatos – eram 179 em 2017 – mas é impossível saber se a diminuição é real, e não parte da distorção, sem ter em mãos mais informações. Da mesma maneira, é difícil traçar tendências ou como ela se relaciona com o panorama geral da escalada de violência no país sem uma série histórica mais detalhada. O que fica é a impressão, e pura impressão encontra dificuldades para mover mudanças.

No Dia da Visibilidade Trans, então, vale manter em mente não apenas os desafios que essas pessoas enfrentam na inserção no mercado de trabalho, no acesso aos serviços de saúde e na mira da violência. Em um país onde não há regras definidas para mudança de nome e gênero, o problema também é técnico, está nos números.

Fonte oficial: GQ

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