“O Brasil poderia ser potência ambiental” – Poder – Glamurama

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Tasso Azevedo || Créditos: João Leoci

Engenheiro florestal que estruturou o bilionário Fundo Amazônia – parte dele composto pelo dinheiro com que a Alemanha “compra em prestações” a região, nas palavras de Jair Bolsonaro –, o exdiretor do Serviço Florestal Brasileiro hoje coordena a MapBiomas, ONG que mapeia, a partir de imagens de satélites, todo o solo do país. Especialista das mudanças climáticas, ele sugere, a quem quiser ajudar a Terra tornando-se vegetariano, fazer um “churrascão” antes

Por Dado Abre e Paulo Vieira / Fotos: João Leoci

No hit oitentista “Inútil”, do Ultraje a Rigor, um verso diz: “A gente faz carro / E não sabe guiar / A gente faz trilho / E não tem trem pra botar / A gente faz filho / E não consegue criar / A gente pede grana / E não consegue pagar”.

Bastante coisa mudou desde então: a inflação praticamente acabou, a taxa Selic amainou e o Brasil se tornou, inclusive, bom pagador. Mas permaneceu uma certa vocação para jogar oportunidades fora. Avançando uma casa e retrocedendo duas, o país conseguiu o estranho prodígio de fazer uma letra de música banal ser capaz de captar o zeitgeist futuro – o espírito do tempo de exatos 35 anos depois. Shame on us.

Para o engenheiro florestal Tasso Azevedo, da ONG MapBiomas, um dos brasileiros mais atuantes no estudo da floresta – ele ajudou a viabilizar Fundo Amazônia, em 2008 –, o Brasil poderia assumir neste exato momento uma posição de liderança mundial. O problema é que o país, talvez para cumprir seu destino de tragédia grega, opte nessas horas por fazer cara de paisagem.

“O Brasil não vai ser potência militar, nem cultural, não é potência econômica nem tecnológica, mas poderia ser potência ambiental. Essa é a agenda do mundo agora, e a gente a está jogando no lixo”, disse, numa semana de “business as usual” no país – a Amazônia ardia, o presidente perseguia inimigos do tempo da Cortina de Ferro, o Parlamento dava chilique com a enésima barbeiragem da Lava Jato. Para Tasso, convidado do Almoço de PODER, “ninguém tem o potencial de energias renováveis como o Brasil. Nem eólica, nem solar, nem hidroelétrica, nem de biomassa”. Mais: “Na agricultura fomos o primeiro país a realizar em escala a substituição do nitrogênio [que deixa grande pegada ambiental]. Na siderurgia, um pepino, usamos carvão vegetal; na produção do cimento temos a menor emissão de carbono.”

Se o Brasil aspirou um dia a ser essa potência ambiental, certamente não foi em 2019, em que o desmatamento deu um salto e a política para o setor, se há alguma, parece ser a do desmonte. “Enquanto [cientistas e pesquisadores] falamos em desenvolver a conservação, em investir em pesquisa e ciência, [os governantes] cortam recursos da ciência e estrangulam mecanismos de controle e conservação da floresta”, diz. A Amazônia, que se tornou metonímia do Brasil do século 21 aos olhos de todos, e que ensejou discussões sobre soberania nacional, não é, como já ficou claro, o “pulmão do mundo”, nas palavras do presidente francês Emmanuel Macron, que se mostrou alarmado com os incêndios que viraram assunto global. Mas ela é vital para manter o regime hídrico de todo o Brasil e países vizinhos. “Você precisa ter o influxo de umidade da Amazônia para poder alimentar os Andes.

O que a gente faz com a Amazônia tem impacto, os países têm de se preocupar. Aí, quando oferecem ajuda, você pega o maior instrumento de financiamento, o Fundo Amazônia, e o destrói”, diz. O engenheiro florestal explica que, caso a Amazônia desaparecesse, uma das primeiras consequências seria a diminuição em 20% a 25% do regime de chuvas no Brasil. Isso provocaria um colapso de energia, já que 80% da nossa matriz energética é hidroelétrica. Ademais, o crescente uso da irrigação na agricultura criaria um conflito ainda mais acentuado pela busca da água. Não há consenso sobre o quanto é possível ainda desmatar a região sem transformá-la em algo parecido a uma savana, na hipótese formulada pelo cientista Carlos Nobre nos anos 1990. Naquela época, a área desmatada era metade do que é hoje. Tasso diz que fogo espontâneo na Amazônia é evento raríssimo, acontece uma vez a cada 500 anos, mas que, com a savanização, eles seriam frequentes. Resta constatar então que as queimadas atuais são produzidas pelo homem, desmentindo em parte o que disse Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU: “Nesta época do ano, o clima seco e os ventos favorecem queimadas espontâneas e criminosas”, falou o presidente.

Embora esteja à frente de uma ONG – financiada principalmente por fundos noruegueses –, o especialista não se sentiu particularmente atingido quando Bolsonaro insinuou que organizações não governamentais poderiam estar por trás das queimadas. Para ele, é muito mais preocupante a violência no campo, incitada pelo próprio governo, como quando ataca fiscais do Ibama que destroem tratores de desmatadores, ato previsto em regulamentação específica. “Esse embate é ruim, as pessoas do campo acham que precisam reagir”, diz. “Com a mudança da regra da posse de armas no meio rural, pode-se até interpretar que trator é patrimônio, e o fiscal corre o risco de levar uma bala por fazer seu serviço.”

O grande desmatador brasileiro, conta Tasso, é o sujeito que ocupa uma terra devoluta [sem dono, ou pública] para tentar ganhar com a área. E 75% da Amazônia é composta por áreas públicas. Depois, grande parte dessa terra é abandonada, virando, quando muito, pastagem de baixíssima produtividade. Sim, desmata-se para nada. Tasso informou recentemente em seu blog que o Brasil tem 40 milhões de hectares de vegetação natural em regeneração. Mas, como diz, “o que parece ser uma excelente notícia é, na verdade, uma constatação desoladora”, já que “mais de 95% disso são áreas degradadas que foram abandonadas”. Para visualizar, a área em questão corresponde à de dois estados do Paraná. “Uma análise dos últimos 30 anos mostra que a cada 10 hectares de florestas primárias desmatadas, 6 se tornaram pastagens de baixa produtividade, 3 são abandonadas e apenas 1 hectare se tornou terra agrícola produtiva ou de infraestrutura urbana.” Para o especialista, engana-se quem acredita que a conservação pode levar a uma perda potencial de recursos. E dá o exemplo do estado de São Paulo, que viu sua agricultura aumentar de produtividade a partir da destinação de terras à conservação da Mata Atlântica. A cana-de-açúcar, por exemplo, se desenvolveu em áreas antes ocupadas por pasto. O mesmo se deu, segundo Tasso, em Paragominas, no Pará, “exemplo de uma das agropecuárias mais evoluídas do Brasil”, e cuja produtividade cresceu a partir do controle do desmatamento.

Apesar de o governo Bolsonaro ter uma base de apoio no agronegócio, e o senador Flávio Bolsonaro (PSL), o 01, ter este ano subscrito um projeto de lei que elimina a obrigatoriedade de o proprietário rural manter uma reserva florestal, Tasso não põe o setor do lado dos, digamos, “bad cops”. Para ele, “99% das propriedades rurais não estão envolvidas com desmatamento”. O problema é que o “agro” pode se tornar vítima de boicotes mundiais – e aí vai ser difícil dizer o que o agricultor fez ou deixou de fazer no verão passado. Mas criar sistemas de rastreabilidade não é difícil. Na pecuária, por conta do controle de vacinação, ele já existe. O que pode jogar contra, na opinião de Tasso, é um certo esforço para normalizar o discurso antiglobalista de Bolsonaro, como fez João Martins, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA, no caso da já famosa fala na ONU. “Ele deu um tom ruim, não reconheceu que temos problemas.” Na nota que emitiu, a CNA afirmou que “Bolsonaro esclareceu equívocos sobre a Amazônia e também afastou a tese de que o governo está colocando o mundo contra o agro brasileiro”.

No restaurante La Tambouille, cenário desta entrevista, Tasso optou pelo risoto ao funghi e deu uma sugestão aos repórteres, um deles carnívoro. Em escala planetária, essa ideia teria o condão de ajudar a deter o aquecimento global. “Faz um churrascão no domingo e vira vegetariano na segunda”, brincou. A digestão do boi produz gás metano, por isso, em 2018, quando o brasileiro comeu menos carne, houve crescimento da emissão de metano – havia mais boi no pasto. Difícil vai ser sensibilizar os indianos a comerem seu gigantesco rebanho de vacas sagradas.

Tasso Azevedo || Créditos: João Leoci

 

Tasso acompanha as discussões do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, e, como outros especialistas, achava que o Brasil iria dar conta mais rápido do problema do desmatamento, contribuindo assim para deter a elevação de temperatura que pode complicar bastante as condições de vida na Terra. Soluções como a eletrificação dos automóveis, que na década passada pareciam uma quimera, hoje são bem mais palpáveis. O tempo correu, e já há perdas que, ao que tudo indica, são irreversíveis. Caso da destruição de 25% dos corais da Grande Barreira de Corais da Austrália em apenas um ano. Ele teme também o degelo de glaciares, como os do Himalaia, que fornecem água para milhões de pessoas. “O ponto de ruptura dos ciclos de preservação da vida no planeta pode estar muito próximo e não podemos nos dar ao luxo de atravessá-lo”, escreveu em sua coluna no jornal O Globo. Com tudo isso, é difícil inserir aqui a definição que Tasso ofereceu de si próprio à reportagem, mas vai assim mesmo: “Sou um teimoso otimista”.

Fonte oficial: Glamurama

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