“O feminismo fez muito bem ao homem”, diz Maria de Médicis – GQ

6

Em conversa com a GQ Brasil, Maria de Médicis, que divide com Dennis Carvalho a direção geral da novela das 21h, Segundo Sol, e o roteirista e diretor de TV Rafael Dragaud discutem os novos galãs da TV, agora ídolos mais próximos do público. “Os atores da nova geração são homens comuns que se encaixam, às vezes mais e às vezes menos, nesses modelos e nessas expectativas”, entrega Dragaud. Leia o bate-papo com a dupla:

Rafael Dragaud (Foto: Divulgação)

Existe um novo ator protagonista nestes tempos – artistas mais abertos para personagens em que os rótulos são menos importantes?
Rafael Dragaud – Acho que hoje o “novo homem” convive com o “velho homem” em atrito constante. E esse atrito se dá tanto de forma macro, na sociedade, onde existem muitos formatos diferentes de entendimento do que é masculinidade, como também dentro de um mesmo homem. As vezes o cara é progressista em um aspecto e conservador em outro. As vezes o cara é libertário no convívio com a parceira, mas é mega opressor em relação à definição da orientação do filho. E os atores da nova geração são homens comuns que se encaixam, às vezes mais e às vezes menos, nesses modelos e nessas expectativas. Quanto a rótulo, não sou muito otimista. Não acho que existe uma libertação absoluta. O que existe é que cada época tem seu rótulo predileto. Existe uma troca de rótulos por vencimento de validade mesmo. Normal.
Maria de Médicis – Os atores protagonistas, atualmente, procuram personagens interessantes e não óbvios. Que não são “o” mocinho ou “o” vilão. Os personagens do Fabrício, do Chay e do Emilio, por exemplo, têm isso, nenhum é todo bom ou todo mal. Este trio constrói o Roberval, o Ícaro e o Beto com esta dubiedade. Você defende eles em um dia e ataca no outro.

+ Pablo Morais, de Segundo Sol: “Sou tímido com as mulheres”‘

+ Fabrício Boliveira vive Wilson Simonal no cinema

+ ‘Caco Ciocler, de Segundo Sol, já é avô

A nova postura do homem também influencia na criação dos personagens?
Rafael Dragaud
– Claro! A vida imita a arte e vice-versa. Quem escreve TV investe pesado, no bom sentido, nas estratégias de identificação e também na captura de desejos que estão no ar. Se a sociedade deseja um novo homem, a ficção deve, sim, colocar esse homem na tela antes mesmo de ele ser uma realidade absoluta na realidade – como a realização de uma fantasia do inconsciente coletivo. A TV, principalmente a aberta, tem como pilar estrutural essa sintonia com a sociedade em valores e comportamentos. Mas isso não é simples porque a sociedade não é uma coisa só, é multifacetada, cheia de diversidade e desigualdade. Sem falar nas polarizações. Não está fácil de entender o Brasil de hoje. O que dirá o homem que vive nele.
Maria de Médicis – O novo feminismo fez muito bem ao homem, que se viu livre de pressões. E isso se reflete nas personalidades destes novos homens.

+ Julia Konrad: “Precisamos falar sobre o feminicídio”

+ Thalles Cabral após filme: “Vejo o mundo com mais carinho”

+ “O papel do homem agora é escutar”, ensinam atrizes

Como uma novela consegue, hoje, retratar a complexa realidade brasileira?
Rafael Dragaud
–  As pessoas confundem muito essa ideia de realismo no Brasil. Nas novelas, às vezes a fotografia é realista, mas a história não. Mas isso não significa alienação, pelo contrário, só que o papo é mais complexo. Mas vejo que os autores são ótimos intérpretes do Brasil. Eles não precisam e nem devem ser documentaristas – isso seria uma tragédia, uma limitação. Porque a realidade do Brasil inclui a fantasia do brasileiro, o sonho. Isso é fundamental.
Maria de Médicis – A novela não é um espelho da realidade, ela é um sublinhador da realidade. Também não é um documentário, é um olhar, uma escrita sobre a realidade. Mas ela traz questões muito importantes que passam a ser discutidas pelos brasileiros a partir da TV.

Fonte oficial: GQ

​Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Sixth Sense.

Comentários