O fim das peles exóticas na Chanel levanta a questão: como ser ético? – GQ

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Crocodilos, aligátores, pitóns e afins estão fora de passarelas e coleções da Chanel. A marca de luxo francesa anunciou nesta segunda-feira (03) que deixará de produzir peças de peles exóticas, entre bolsas, sapatos, botas e acessórios. Modelos que foram sinônimo de elegância nos anos 90 e na virada do milênio, e que, bem, não são lá um mau negócio hoje em dia: uma bolsa de crocodilo da marca chega a custar quase 10 mil dólares, mais que o dobro que o mesmo artigo feito de couro ou tweed.

Segundo comunicado para a imprensa, a Chanel, maior marca europeia a tomar essa decisão, interrompeu o uso desse material devido à dificuldade de providenciá-los de maneira íntegra e sustentável através de seus parceiros. O problema reflete o que fez a Diane von Furstenberg abandonar peles no geral em outubro: pode ser desafiador terceirizar o tratamento humano desses animais.

Se você está caindo de paraquedas no assunto, sim, peles ainda estão em debate no mercado da moda: GucciRalph Lauren, Giorgio Armani, Versace e Jimmy Choo abandonaram o material entre 2006 e o ano passado. Mas isso ainda significa dar adeus a um mercado lucrativo, que em 2017 (leia-se: o ano passado) moveu algo na casa de US$ 30 milhões.

 (Foto: Reprodução/Instagram)

Agora quando o assunto são peles exóticas, a história é um pouco diferente: houve um boom de marcas apostando as fichas no material – e de maneira vocal. Há motivos para tal, além do status dessas peças: criar crocodilos, avestruzes e arraias é tarefa bem menos poluente que bovinos, sugere a startup americana Yara Bashoor, especialista na produção de bolsas feitas de aligátor americano e avestruzes da África do Sul. “Pode parecer contraintuitivo, mas considerando o alto padrão em fazendas de peles exóticas, a maior parte do couro bovino é na verdade bem menos sustentável”, diz a designer Yara Bashoor para a Fast Company. Bashoor opera um negócio bem menor que a Chanel, e garante ser capaz de receber peles apenas de criadores certificados pela Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites).

Além disso, a Kering, um dos maiores conglomerados da moda do mundo e detentora de fazendas de píton na China e Tailândia, levanta outro ponto: “A Gucci é uma das maiores marcas usando pele de píton. Ela não é uma espécie em risco de extinção, mas se não mudarmos nada, este é seu destino, porque não há transparência no comércio dessas peles”, diz o CEO François-Henri Pinault para a Bloomberg. Assim como o grupo, players como a Hermès e LVMH controlam seus próprios fornecedores de peles exóticas na tentativa de atrair consumidores millennials e da geração Z, mais ligados em temas como sustentabilidade e transparência – e mesmo assim não conseguem fugir de críticas.

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Mas soluções sustentáveis e o controle de mercados tradicionalmente informais à parte, tentar humanizar esta cadeia de fornecimento pode ser particularmente desafiador para empresas como a Chanel, que não exercem influência direta no processo da fazenda à loja. Christina Sewell, gerente de campanhas da moda da agência em prol dos direitos animais PETA, diz ao BoF: “Não há maneira de dizer aos seus consumidores que você tem o ‘fornecimento ético’ de materiais derivados de animais. Se as companhias fossem honestas, elas teriam que considerar que esta é uma cadeia confusa demais.”

Nas palavras do próprio comunicado da Chanel nesta segunda: “Estamos analisando frequentemente nossa cadeia de fornecimento para garantir que alcancemos nossas expectativas de integridade e transparência. Neste contexto, vimos que está se tornando mais e mais difícil conseguir peles em acordo com nossos padrões éticos”. 

Fonte oficial: GQ

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