O que aprendi quando perdi 13 quilos? – GQ

16

Os dilemas da perda de peso (Foto: Jennifer Burk / Unsplash)

Aqui estão alguns dos humildes objetivos que tive para a vida adulta: beijar uma garota, escrever uma matéria de capa para a Sports Illustrated e ficar em forma. Esta última foi sempre inexata de propósito: ficar no shape significa que poderia voltar a vestir minha camisa de vôlei do colégio? Ou parecer com Rohan, o cheinho transformado em saradão do drama indiano Kabhi Khushi Kabhie Gham?

+ O Reduxx elimina células de gordura do corpo em apenas 1 hora
+ Mark Allen fala sobre momentos da carreira e dá dicas de bem estar
+ Como a respiração pode equilibrar as suas emoções

Estava ponderando essas coisas no começo de agosto de 2018, enquanto assistia Nawazuddin Siddiqui mandando ver no seriado Jogos Sagrados do Netflix (a primeira vez que vi um homem indiano fazer isso em um programa de TV). Eu estava devorando uma pizza da Domino’s e uma Fanta laranja. Pensei: “Amanhã, talvez, eu pare de fazer tudo isso”. No dia seguinte, resolvi tomar o pequeno passo de comer refeições mais saudáveis e fazer exercícios físicos.

Eu não tive nenhum grande momento de claridade. Não me sentia no fundo do poço – comer pizza e beber refrigerante é algo objetivamente divertido, afinal. Tudo o que sabia é que estava cercado por gente que praticava ioga, levantava peso e corria maratonas (credo). Só fiquei subitamente curioso para ver o que aconteceria se começasse a viver um pouco mais saudável.

O natal de 2018 foi a primeira vez que senti feliz com meu corpo. Eu postei uma foto minha no Instagram – de corpo inteiro em um rooftop em Brooklyn, feito para engajamento máximo – e a caixa de comentários foi tomada de opiniões positivas. Romances do passado estavam testemunhando minha glória. As estrelas estavam se alinhando. Deste agosto até então, havia perdido peso rapidamente – chegando ao marco de 13 quilos.

Mas quando subi na balança na manhã daquele Natal e vi no mostrador o número arbitrário que eu decidi alcançar há uns meses atrás, eu me senti ao mesmo tempo realizado e perturbado: o que raios vou fazer agora?!

Muito do que homens leem e ouvem sobre bem estar envolve o processo. Aqui está a dieta de um sujeito que consegue arrastar um avião usando apenas os músculos peitorais! E o exercício para trabalhar um músculo que você não fazia ideia que existia – mas agora não consegue esquecer! Vedemos esta ideia que se fizer algumas flexões e se transformar no Capitão América, todas suas outras inseguranças vão embora. Mas o que acontece depois de alcançadas estas metas? Perder peso foi sempre esta enorme montanha para mim: achei que era chegar ao pico para ser capaz de conquistar qualquer coisa. Mas não foi tão simples.

Tive sorte de ter um emprego falso (e flexível) de ‘escritor’, uma renda constante e acesso a coisas como supermercados e academias – é fácil toma-las como algo certo. Não posso escrever um guia de perda de peso para todos, porque é algo diferente para cada um, e para quem não vive com algum grau de privilégio, é ainda mais difícil. Mas posso dizer que segui um regime de ‘comer menos comida ruim, mais comida boa e colocar em uso a energia do meu corpo’.Fiz as escolhas mais saudáveis quando pude, fui à academia/à aula de spin/caminhar longamente sempre que possível. A fórmula foi realmente simples nesse sentido: escolher água no lugar do refrigerante ou a salada no lugar do arroz são coisas que geram um efeito bola de neve com o tempo. Assim que você faz tudo isso por um tempo, começa a ver resultados. Eu não consegui os músculos brilhantes de um Justin Theroux, mas certamente consegui entrar em mais roupas feitas por estilistas europeus.

Mas com os novos suéteres surgiram outros problemas. Pelos primeiros 25 anos e 10 meses da minha vida, eu era alegremente ignorante do que colocava em meu corpo. Mas desde aquele mês de Agosto em que decidi mudar meu estilo de vida eu me tornei super consciente do problema. Depois de perder todo aquele peso, foi embora também uma relação normal com a comida. Eu não como nada com açúcar há semanas: é ok comer este brownie? Eu deveria calcular e registrar quantas calorias estou prestes a consumir, ou posso encher a mão de castanhas de caju já que a esta altura do campeonato já estou mais para lá do que para cá?

Os comentários feitos pelas pessoas próximas de mim também trouxeram novos desafios. Não que eu seja contra feedback positivo. Um simples ‘você está ótimo!’ faz uma baita diferença. Mas a coisa fica complicada quando você começa a ouvir coisas como: ‘suas pernas nunca estiveram tão magras!’, ‘qual seu número?’ ou ‘você está tentando emagrecer de propósito?’ Um efeito colateral bizarro de viver uma vida saudável é que as pessoas se sentem mais confortáveis do que nunca para comentarem sobre seu corpo. É algo que pode ser positivo, mas os holofotes podem trazer certo desconforto. Você começa a se questionar sobre novas coisas: se eu pedir uma pizza, as pessoas vão começar a pensar que sou guloso ou algo assim? Flutuações de peso também se tornam muito mais dramáticas. Toda vez que recupero alguns quilos, imagino se dá para perceber. E quando a pessoa com quem estou saindo me convida para jantar, fico pensando se vai perceber que tentei limar um pouco de peso desde o último encontro.

Acho que muitas das ansiedades que descrevi são dez vezes piores para mulheres, para quem a definição do ‘corpo ideal’ – até onde eu possa dizer – foi historicamente muito mais restrita que no caso dos homens. Mas tenho a impressão que, no geral, mulheres são mais conscientes dos dilemas a respeito da imagem. Não acho que homens costumem falar sobre o assunto. Eu falo porque tenho amigos que passaram por situações parecidas com as minhas (e porque eu geralmente forço as pessoas a serem 25% mais vulneráveis do que elas gostariam de ser em qualquer conversa). Mas ainda não estava preparado para o abismo entre minhas expectativas com a perda de peso e a realidade. Mesmo meus amigos que passaram por algo similar nem sempre se abriram sobre o que acontece depois. Homens, pelo que parece, em geral seguem atrás de um certo ideal, sem se perguntarem, um com os outros, porque fazem isso, ou se aquela sessão extra na academia realmente resolve as raízes de suas inseguranças.

Eu imaginava que a equação era simples: perder peso = estou vivendo todas as minhas esperanças e sonhos. Mas emagrecer não resolveu meus problemas do dia para a noite. Não é que optar por coisas saudáveis não tenha me feito sentir melhor, mas também não fez meu perfil dormente no Hinge de repente pegar fogo. Nem seu se meu corpo está mais atraente! Há, claro, menos dele. É tudo que posso dizer com certeza. Ainda sou comicamente incapaz de fazer coisas que eu já era comicamente incapaz de realizar, como levantar meus braços sobre a cabeça (tenho algo estranho no ombro que preciso checar) ou parar de fazer piada nos momentos mais inoportunos. Minha confiança certamente melhorou, e agora fico ansioso por atividades como trilhas, mas não sou nenhum James Bond.

Tantos conselhos de saúde, fitness e bem estar são feitos para promover uma certa maneira de se encaixar em um conjunto limitante e tenso de padrões de beleza. Muitas poucas pessoas te falam o que fazer depois de missão cumprida. Eu persegui um ideal religiosamente por meses, só para descobrir que do outro lado minha vida seguia complicada.

O que gostaria de ter ouvido naquele agosto de 2018 é: seja saudável, mas também amplie seus conceitos do que significa ‘saúde’. Nem toda decisão que você faz sobre sua dieta precisa servir ao objetivo de ser magro. Você deve valorizar também seu conforto e bem estar mental. Seja fisicamente mais saudável, claro, mas não em troca de sua sanidade. Hoje em dia, meu foco é viver a minha maneira, ao invés de buscar um objetivo estético.

Muito provavelmente nunca vou ter um tanquinho como o de Hrithik Roshan, mas estou muito mais confortável com esta realidade do que jamais estive. Me importo menos com comentários no Instagram (embora você seja sempre bem vindo para me achar bonitão) e muito mais em experimentar todos os bubble tea do sul da Califórnia. Quero poder brincar com meus filhos um dia, ou fazer caminhadas longas, sem precisar me preocupar com diagnósticos médicos. Estes são ótimos benefícios tangíveis de realizar uma mudança no estilo de vida. É um arrependimento meu ter trabalhado tanto para ter uma certa aparência sem nunca considerar se estava cuidando de mim mesmo no processo.

Todos aqueles meus objetivos da vida adulta forma trocados por apenas um: viver pelos meus próprios padrões, e de ninguém mais.

*Leia a matéria original na GQ US

Acompanha tudo de GQ? Agora você pode ler as edições e matérias exclusivas no Globo Mais,o app com conteúdo para todos os momentos do seu dia. Baixe agora!

Gostou da nossa matéria? Clique aqui para assinar a nossa newsletter e receba mais conteúdos.

Fonte oficial: GQ

​Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Sixth Sense.

Comentários