O que os dados dizem sobre o desmatamento da Amazônia – GQ

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(Foto: Universal Images Group via Getty)

Você certamente tem uma opinião formada sobre o noticiário ambiental da semana – e ela muito provavelmente é forte. A fumaça preta que tomou algumas cidades brasileiras nesta segunda-feira (19) serviu de alerta para uma situação que vem se desenhando desde julho, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) anunciou um aumento na taxa de desmatamento na Amazônia legal – que compreende os nove estados onde se encontram a bacia amazônica e sua vegetação.

Foi um aumento de 88% entre junho deste ano e o mesmo mês do ano passado, dado que criou uma cisma entre governo, instituto e opinião pública – e uma pressão que resultou este mês na exoneração do físico Ricardo Galvão, então diretor do Inpe.

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Em suma, fumaça e desmate não são tema de fácil digestão. Mas no meio de toda a discussão sobre a validade de informações do Inpe e as acusações – geralmente sem qualquer fato novo – do Planalto, vale uma pausa para conhecer exatamente qual é a dos dados no centro do debate.

A começar por um detalhe: o número em questão, aqueles 88% de aumento? Ele não tem base em informações precisas. O próprio Inpe reconhece, e não de hoje, limitações como esta. Isso porque o dado vem da varredura de um sistema específico – o Deter-B – que se baseia em imagens colhidas por dois satélites, o IRS e o CBERS-4, que operam em baixas resoluções, mas são capazes de cobrir áreas com agilidade. É dele que o Inpe colhe o seu levantamento mensal. O problema? Os ‘quadriculados’ das fotos menos precisas criam distorções na leitura da imagem – feita por um sistema automatizado. E como o tempo de coleta de dados é pequeno, a cobertura das nuvens pode dificultar ainda mais – é difícil medir o que você não vê.


Imagem de satélite do estado do Mato Grosso em junho de 2000 (Foto: Universal Images Group via Getty)

Em casos como este, se focar em um único dado é tarefa infrutífera. Você pode por exemplo, encontrar respostas mais precisas olhando para tendências, para onde conjuntos de informações nos levam com o passar do tempo. Desde o estopim do assunto, o Inpe divulgou um novo número: uma potencial alta de 278% ano a ano no desmatamento na Amazônia em julho. E antes dos 88% de junho, havia uma alta de 26% em maio. Desenha-se aí uma escalada do problema.

Considere também os alertas: eles acontecem sempre que um satélite identifica uma mudança na cobertura da floresta – portanto, potenciais desflorestamentos e incêndios. O período entre junho e agora representa mais da metade dos números de alertas computados pelo Inpe nos últimos 12 meses (são 17.250 deles, em um total de 32.032 – considerando apenas desmate). É o maior pico do período.

Olhar para alertas, no entanto, não completa a charada. Lembre-se das nuvens: um céu coberto significa que os satélites não captam alterações na mata. É por isso que alertas costumam ser mais raros entre novembro e março, que é época de cheia na região. E já que nuvens vêm e vão, olhar apenas para três meses não é a melhor prática: quanto menos tempo você tem para coletar informação, mais difícil é eliminar distorções, que tendem a sumir no longo prazo.

Você pode perguntar outra coisa, então. Que tal o que então aconteceu em outros anos? O comparativo com outros cenários pode ajudar a diminuir o ruído e notar ‘pontos fora da curva’. Por exemplo: este foi o único período, com exceção de 2015/16, em que a área desmatada aumentou notavelmente entre maio e julho – e se manteve firme na tendência

Desmatamento, claro, não é uma história que surgiu ontem. E vamos ser francos: 2019 (ainda) não é o pior ano para a Amazônia, ao menos no assunto de mata perdida. Pare para olhar o gráfico abaixo, baseado em informações do Prodes, um satélite preciso cujo trabalho informa o levantamento anual do desmatamento na Amazônia (base mais firme para estudos e o trabalho de instituições e governos):


(Foto: TerraBrasilis)

Você pode encontrá-lo em versão maior aqui

Altas e curvas contam histórias. Note os picos: em 1995, quando a pressão veio do avanço econômico do Plano Real e a ampla distribuição de crédito agrícola (29 mil quilômetros quadrados de Amazônia sumiram em um ano, um recorde até hoje). Em 2004, por sua vez, o aumento foi motivado pela efervescente produção de soja em estados como o Mato Grosso e pela política da época, que priorizava investimentos em atividades danosas ao ambiente (como a pecuária e o plantio da oleoginosa) em detrimento do manejo florestal responsável – cenário problemático mesmo com a homologação de 77 mil quilômetros quadrados de áreas protegidas durante os dois primeiros anos do governo Lula.

De lá para cá a queda foi notável – muito devido ao próprio Deter-B, do qual falamos lá em cima. Inexato que seja, seu surgimento em 2004 deu a órgãos como o Ibama, assim como ao exército, ONGs e legisladores, um olhar mais próximo e constante da selva – e melhores maneiras de protegê-la.

Desde 2014, no entanto, a tendência é de aumento no desmatamento. Em uma visão mais granular, o mesmo se observa nos meses deste ano – e bem para além do Deter-B. Ele e o Prodes são dois de quatro sistemas usadas pelo Inpe, e todos apresentam altas similares nos parâmetros de desflorestamento durante os últimos meses.

Que histórias esses números vão contar no futuro é algo que vai ser escrito nos próximos dias e semanas. No meio do caminho, olhar para os dados, assim como para o noticiário, é ver sinais de um problema que acelera ao invés de frear.

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Fonte oficial: GQ

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