“Os filmes vão ser feitos com ou sem dinheiro, com ou sem leis”, arrisca Lufe Steffen – GQ

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Lufe Steffen: “A verdade é que a gente ainda tem uma predominância de criadores que são homens cisgêneros heterossexuais. Frequentemente a gente ainda sente um machismo no audiovisual brasileiro” (Foto: Divulgação)

GQ Brasil: O cinema queer brasileiro passou por algumas etapas – desde personagens estereotipados a criações mais complexas. Como vê esta cinematografia hoje?
Bruno Carmelo: O aumento na produção de conteúdo audiovisual de temática LGBTQI+ ocorreu por diversos fatores: o crescimento geral do número de filmes e séries, a democratização do acesso aos meios de produção – que se tornam mais diversificados, leves e baratos – e também o estímulo à cultura através de leis de incentivo nos governos Lula e Dilma. Editais favorecendo a representação da sexualidade e de gênero foram importantes para dar oportunidades a talentos que já existiam, porém não tinham recebido a oportunidade de se expressarem.
Lufe Steffen: De fato houve uma transformação quando a gente fala do cinema queer brasileiro, desde o cinema mudo até chegar nos dias de hoje (nos últimos 100 anos). É claro que, nas primeiras décadas, as representações eram um pouco estereotipadas, puxando para a comédia, para o deboche ou para a coisa problemática (de personagens perturbados). Então, sempre era de qualquer forma uma representação pejorativa, vamos chamar assim. Aos poucos isso foi mudando, principalmente na década de 1960. Nas décadas de 1970 e 1980 isso se mantém. Na de 90, época da retomada do cinema brasileiro, a gente tem pouca representatividade porque o cinema está se reinventando. Daí, nos anos 2000, nos últimos 20 anos do século 21, já vemos uma evolução, começa cada vez mais uma busca de representatividade, de apresentar personagens queer de uma forma mais humana em primeiro lugar, menos estereotipada, menos chapada, menos rasa. Ficou tudo mais amplo, mais profundo e isso sentimos nos filmes, o que não impede, mesmo neste período, que tenhamos tido também uma espécie de retrocesso. A gente tem, principalmente nas comédias mais televisivas, os filmes de cinema que parecem coisa de televisão, parece programa de humor da TV, aí, às vezes, aparece um personagem queer ainda fazendo aquela tradição antiga do programa de humor, de teatro de revista, uma representatividade um pouco antiga, buscando o riso fácil. O personagem é engraçado porque está travestido, é engraçado porque é uma bicha desmunhecada. Isso é um conceito muito antigo, mas a gente ainda tem isso. Não foi completamente recuperado mas acho que evoluiu muito, com certeza.


Bruno Carmelo: “Por mais que seja motivo de orgulho ter mais mulheres e mais indivíduos trans por trás das câmeras, estes projetos não necessariamente precisam ser produzidos por artistas LGBTQI+” (Foto: Divulgação)

A trajetória do cinema queer no Brasil acompanhou também o desenvolvimento de criadores queers – diretores, roteiristas, atores?
Bruno: É sempre importante separar os filmes sobre sexualidade ou gênero de seus criadores. Por mais que seja motivo de orgulho ter mais mulheres e mais indivíduos trans por trás das câmeras, por exemplo, estes projetos não necessariamente precisam ser produzidos por artistas LGBTQI+. Se estes criadores desejarem expressar abertamente sua sexualidade ou reafirmar sua identidade de gênero por via da arte, isso será ótimo, mas não podemos condicionar a leitura de que todo filme sobre gays precisa vir de um diretor gay ou diretora lésbica. Por mais que o lugar de fala permita caracterizações LGBTQI+ mais complexas por quem a viveu, a intenção é que estes retratos não fiquem restritos ao gueto, podendo se naturalizar em quaisquer filmes. Em outras palavras, um indivíduo LGBTQI+ possui uma sexualidade e um gênero, mas ele não se reduz a esta sexualidade, nem a este gênero.
Lufe: Houve também um desenvolvimento nesta parte, mas não é tão amplo, porque a gente vê que agora estão surgindo diretores e diretoras trans, roteiristas trans, atores e atrizes trans e mesmo os criadores que são mulheres lésbicas ou homens gays, que também foram responsáveis por estas criações. Mas ainda é muito esparso. A verdade é que a gente ainda tem uma predominância de criadores que são homens héteros, digamos assim, homens cisgêneros heterossexuais, então isso ainda predomina muito. Frequentemente a gente ainda sente um machismo no audiovisual brasileiro. Está diminuindo, claro, mas ainda tem todo um trabalho. Acho que este acompanhamento não foi proporcional, os filmes talvez tiveram uma representatividade maior de personagens queer, mas não necessariamente os criadores por trás disso também estavam avançando. Na verdade, teve durante muito tempo diretores homens heterossexuais dirigindo filmes sobre isso, alguns diretores homens gays e muito poucas diretoras mulheres, menos ainda mulheres lésbicas, trans então nem pensar, porque antes não existiam pessoas trans que conseguiam ter uma voz de criação no cinema. Agora a gente tá tendo, esta virada de década de 2020 está bem fértil, começando a ter mais pessoas identificadas como queer tomando a frente da criação mesmo, do roteiro, da direção, da atuação. Então acho que este movimento ainda vai crescer nos próximos anos, ele ainda está em formação, na verdade. Acho que é mais ou menos por aí e justamente o nosso curso [sobre o cinema queer no Brasil e no mundo] é uma alavanca para estimular cada vez mais isso.

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GQ Brasil: Hoje com a discussão da Ancine acredita que a temática ganhe um retrocesso na representação cinematográfica?
Bruno: O problema não é apenas a crise na Ancine, mas a perseguição ideológica do governo Bolsonaro como um todo. O edital anulado pelo governo (e depois reinstaurado) punia dezenas de filmes, com as mais diversas temáticas, apenas por conterem alguns de temática LGBTQI+. Propaga-se a ignorância de que discutir sexualidade e gênero transformará jovens em gays e lésbicas. Isso é falacioso por vários motivos: primeiro, porque indivíduos LGBTQI+ cresceram cercados de referências heteronormativas e cisgêneras, sem se tornarem héteros por isso, o que significa que não se trata de aprendizado. Segundo, propaga-se o estigma de que ser LGBTQI+ é algo errado, nocivo ou contagioso, o que contradiz qualquer compreensão mínima de psicologia, além de demonstrar grosseira falta de empatia. Este pensamento se estende à arte, é claro, na forma de censura e desinformação. O perigo é a contaminação desse pensamento arcaico dentro de uma produção cultural e artística que deveria ser livre.
Lufe: Eu não acho que isso vai impactar esta questão não. Talvez fique mais difícil fazer filmes de temática LGBT com dinheiro da Ancine ou com patrocínios governamentais porque talvez estas instituições não queiram. Mas não acho que vai ter um retrocesso por causa disto, as pessoas falarem não vou mais fazer filmes LGBT, queer, porque não tem dinheiro para isso. Talvez a gente tenha uma volta a uma coisa undergroud de as pessoas fazerem filme sem grana, de fazerem na raça, no peito, fazer com os amigos, com a câmera do celular, jogar na internet. Mas que a representação vá retroceder, acho que isso não volta, acho que a gente não vai voltar pra onde já esteve, a gente vai evoluir. Então, os filmes vão ser feitos com ou sem dinheiro, com ou sem apoio, com ou sem leis, mas serão feitos. A representação vai continuar crescendo sim, acredito que isso não muda, pelo contrário, vai ter uma força grande neste sentido para continuar. Acho que as pessoas não vão abandonar esta temática por causa disto, só quem realmente não tiver muito envolvido com isso que vai abandonar.

GQ Brasil: O que acha da existência e séries como Pose – que tem Jennie Livingston, de Paris is Burning, como uma consultora associada?
Bruno: É excelente que novas séries e filmes sejam feitas e estreladas por indivíduos LGBTQI+, para que eles possam representar, primeiro, a si próprios, e segundo, qualquer outra necessidade que a arte tiver para eles. Durante muito tempo, aceitava-se popularmente qualquer forma de representação como sinal de progresso, mas chegamos em um estágio em que podemos exigir que filmes e séries que dizem valorizar indivíduos LGBTQI+ o façam de fato, empregando-os em frente às câmeras e atrás delas. O conceito de “transfake” é importantíssimo nesse sentido: não se pode mais aceitar com tanta facilidade que um ator cisgênero, que a princípio possui muito mais oportunidades de representação dentro das normas vigentes, ocupe o espaço que deveria permitir a visibilidade de indivíduos trans.
Percebe-se hoje que o transfake é tão nocivo em termos de imagem quanto o blackface, por exemplo.
Lufe: Eu acho que a existência de séries como Pose, que gosto muito e acho muito digna, com boa representatividade, apesar de muita gente também criticar, acusar de glamurizar a cena, de ser uma visão um pouco higienizada da realidade queer. Mas, de qualquer  forma, tem uma importância inclusive por levar esta temática, estes personagens, ao mainstream. A partir do momento que você tem a série Pose nos lugares, nos canais privilegiados, nos Netflix da vida, as pessoas estão vendo aquiloe isto é muito positivo. A Jennie Livingston de Paris is Burning, que é uma clara referência para Pose, é bom que ela esteja lá, apesar de que também tem gente que não gosta dela – pessoas da cena mais radical que acham que ela, de repente, não é válida. Eu não sei, não sei o que dizer. Gosto muito de Paris is Burning e Pose. Claro que têm defeitos, mas acho que trazem como positivo o fato de terem colocado luz numa coisa que ninguém estava querendo fazer, ninguém estava querendo falar. São projetos importantes. Agora, é aquilo mesmo, às vezes estes projetos são feitos por pessoas que não são tão ligadas nessa cena para justamente destravar a porta e, de repente, vamos ter cada vez mais pessoas que vêm dessa cena undergroud fazendo estas criações. Este vai ser um bom momento, quando a gente chegar lá.

GQ Brasil: Cite 5 filmes queer brasileiros essenciais para o nosso cinema…
Bruno: Entre os filmes queer essenciais para o cinema brasileiro, pode-se citar o marco histórico de Amor Maldito, lembrando de produções recentes como Madame Satã, Doce Amianto, Lembro Mais dos Corvos, Tatuagem e Pinta. Embora pensemos geralmente em longas-metragens, nossa produção de curtas-metragens é riquíssima em representações de gênero e sexualidade. Nestes, destacam-se os recentes Plano Controle, Ilhas de Calor, Negrum3, Reforma, O Porteiro do Dia, Guaxuma, Aqueles Dois e Afronte.
Lufe: Difícil citar só 5, mas eu vou tentar. Vou tentar ser imparcial e colocar um por década, assim a gente dá um panorama geral. Então eu diria que na década de 70 a gente tem o filme A Rainha Diaba, de 1974, do diretor Antônio Carlos da Fontoura, que considero essencial para esta questão da estética e da narrativa queer no cinema brasileiro. Na década de 80 Anjos da Noite, de 1987, do diretor Wilson Barros. Na década de 90, Bocage, o Triunfo do Amor, do Djalma Limongi Batista que, não por acaso, é o único longa LGBT queer desta década. Em termos de longa, na década de 2000 eu citaria Dzicroquetes, um documentário da Tatiana Issa e de Rafael Alvarez de 2009. E, na década que a gente está agora, 2010, é difícil precisar porque a gente ainda vivendo, então a gente ainda não tem o distanciamento da importância daquilo. Talvez daria para citar o Bixa Travesty, um documentário novíssimo que está saindo agora, da Cláudia Priscila e Kiko Goifman sobre a Lynn da Quebrada, que é de 2018/2019.

CINEMA QUEER: NO BRASIL E NO MUNDO
Instituto de Cinema
Próximas turmas: 18/11/2019
Segundas e Quartas, das 190 às 22H.
duração: 8 encontros
+ info: matricula@institutodecinema.com.br / (11) 3062-2794

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Fonte oficial: GQ

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