Para Elza Soares, “se Deus fosse homem, o mundo já tinha acabado” – GQ

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Elza Soares é uma dessas mulheres fortes, que carrega na luta na aura. Seu discurso empoderado e sua vontade de viver são invejáveis. A canceriana de 81 anos lançou recentemente seu 33º disco, intitulado Deus É Mulher. “Esse trabalho ele me deixou quase que muito doente (…) eu fiz em 10 dias. A gente escolheu repertório com o produtor musical Guilherme Kastrup (o mesmo de A Mulher do Fim do Mundo), e em pouco mais de uma semana eu botei voz”, disse à GQ Brasil em entrevista exclusiva durante o festival de música brasileira MECA.

Ao lado de Elza sempre estão: Juliano Almeida, Pedro Loureiro e Wesley Pachú. Na frente deles, brinca que é uma ‘coitadinha’, mas ela confessa: “Os três a mantêm de pé.”

Eu não planejo nada, eu deixo acontecer”

Elza Soares

No final de junho deste ano, Elza se apresentou no Meca Inhotim, em Brumadinho, com a turnê A Voz e a Máquina. No fim do cover de Não Recomendado, disparou: “Não há cura para aquilo que não é doença. Não ao preconceito racial! Não à violência doméstica! Não à homofobia! Não à transfobia! Gritem, façam barulho, vamos reagir, Brasil.” Em breve, a nova turnê será registrada em DVD (ainda sem previsão de lançamento). Nossa conversa com Elza foi longe e você pode conferir abaixo:

GQ – Você acredita que este é uma continuação do “A Mulher do Fim do Mundo”?
Elza – A gente queria a mesma filosofia, lógico que eu não queria fugir do que eu tracei, da minha ideia de falar, de proteger o mundo gay, de proteger as mulheres, de proteger minha negritude, isso eu queria, não tinha jeito de fugir dessa lua. Não dava pra fugir, eu jamais fugiria também, né? Mas é um trabalho que a gente vem fazendo com muita garra.

GQ – No disco anterior você foi criticada por ter colocado menos mulheres no processo, que era um disco feito por homens. Gostaria que você falasse um pouquinho sobre essa preocupação…
Elza  – Gente, eu não tenho muita preocupação de escolher, se tiver bom compositor eu gravo, se tiver um bom compositor, lógico que eu vou gravar. Eu não fico naquela “quero gravar com uma mulher!”. Não é isso, quero gravar bons compositores, eu quero aqueles que escrevam aquilo que eu quero falar, entendeu? Aí independe de ser homem, ser mulher. Agora, calhou de boas mulheres compondo.

GQ – Que faziam sentido pra ti….
Elza – Lógico! Compondo e a gente gravou, então eu busco o bom.

GQ – O disco é norteado por religiões de matriz africana, aí tem essa dualidade com o nome de Deus… Como que é pra você colocar isso dentro dessa ideia?
Elza – Eu sempre digo que eu venho buscando Deus desde criança, né, cara? Eu era uma criança muito pobre. E me machucava: “Cadê Deus?”; quando não tinha muita comida: “Cadê Deus?”; quando eu via minha mãe sofrendo tanto: “Cadê Deus?”. Então “Deus” é o nome que mais a gente cita nessa busca de socorro. Então Deus foi sempre a minha prioridade na vida. Deus é Mãe. Porque se Deus fosse homem, o mundo já tinha acabado, porque homem não tem tanta paciência, precisa de um colo de mãe.

GQ – Queria, novamente, que você falasse um pouquinho dessa reflexão sobre as religiões africanas, de negritude… Você é uma pessoa que crê bastante?
Elza – Bastante, lógico. Eu acho que a gente perdeu muito isso, entendeu? Porque eu acho que a nossa religião, digo africana, eu pelo menos, criança, eu nunca tive médico na minha vida, né? O médico ia lá, mas eram minhas ervas, a gente se curava com ervas, como até hoje acredito que a erva cure muito. Então, meus pais de santo que davam banho pra gente, que davam um cházinho pra gente, e a gente ficava boa. Hoje acabou isso. Tá triste… hoje você paga muito pra ter uma religião, hoje custa caro pra ter uma religião.

Na minha época era só a erva que ia lá buscar, não tinha dinheiro pra gastar. E chamava o pai de santo pra fazer uma benzeção aqui, nossas mães de santo que benziam uma criança. (…) Hoje você tem que ter dinheiro pra pagar, pra entrar numa religião. Senão você é rejeitado, meu amor. E nós não tivemos nem igreja, tá vendo? A gente seguiu a vida de Cristo, que andava descalço, não tinha sapato, vivia na poeira, subia os montes. Era nossa religião, aquele andar descalço, o paninho na cabeça…

GQ – E como é colocar você nessa perspectiva de “Deus é mulher”, como falou agora há pouco, se Ele não fosse mulher já tinha acabado há muito tempo?
Elza – Completamente, porque Deus é Mãe. É aquele colo que a gente precisa. Aquele mamar que a gente precisa, aquele ninar que a gente precisa. Deus é Mãe.

GQ – O disco tem uma das letras muito poderosas, como “O Que Se Cala”. Para você, existe algo que ainda é um tabu, que não consegue falar abertamente?
Elza – Não, eu hoje sou meio abusada, eu falo daquilo que tem que se falar. Eu não tenho medo de falar da negritude, eu não tenho medo de falar da mulher, eu não tenho medo de defender meu mundo gay, tá entendendo? Um mundo que precisa de proteção, eu grito, entendeu? Eu grito. Eu acho que alguém tá ouvindo bem e diz: “ai, ela tá gritando”, e é verdade. E eu não tô gritando mentira, né? Não tô inventando.

GQ – E pegando essa onda aqui do “gemer, só de prazer”, como você já falou em outras entrevistas… você tem outra letra forte, que é “Quero comer você”. Como é falar sobre assuntos tão atuais?
Elza – É pra comer mesmo. Eu acho que a liberdade da mulher, dela dizer “eu quero comer você”… até onde a mulher podia dizer isso? Meu deus, coitada! Era prostituta, apanhava na cara. Ela não podia sentar, eu tô tentando cruzar a perna, que eu tô tão acostumada a abrir a perna, entendeu? A mulher tinha que ter toda aquela… Olhar para o homem, o homem já faz uma cara afetadinha, ela ficava rosada, vermelha, ou então, mais preta do que nunca. Hoje a mulher tá com liberdade. Se ela diz “quero comer você”, tudo bem, vamos lá.

GQ – O que que falta na sua carreira?
Elza – Tudo, tô viva!

GQ – Tem alguma coisa que você sonha em fazer ainda?
Elza – Muito, muito, muito! Cara, eu não planejo nada, eu deixo acontecer. Que é muito bom. Eu não quero me deitar sem poder dormir por causa disso (expectativas). Eu acho que deixa a coisa acontecer, e tem acontecido coisas tão boas na minha vida.

GQ – Como falamos… o sucessor de “Deus e Mulher” pode fazer parte de uma trilogia. Você fica pensando nisso ou não?
Elza – Não. É o que eu disse pra você: não penso. Se tiver que acontecer, vai acontecer! Mas sem eu ficar: “ai, eu quero!”; não.

GQ – Você ouve música ainda hoje em dia, o que ouve em casa?
Elza – Eu continuo com a minha antigüidade, ouvindo meu Chet Baker, meu Deus, que eu não consigo parar de ouvir. Quando eu quero escutar alguma coisa diferente, vou na Nina Simone, vou na Ella Fitzgerald, vou na Sarah Vaughn, vou buscar minha negritude maravilhosa. (…) Escuto João Gilberto.

GQ – Tem alguma coisa que ficou de fora?
Elza – A gente vai pro palco!

GQ – É um momento de alegria?
Elza – Momento de alegria. Sempre um momento de alegria!

GQ – Beleza, então, muito obrigado.
Elza – Cantar ainda é remédio bom, viu?

Fonte oficial: GQ

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