Para fotógrafa que registra o sertão do país há quase 70 anos, o brasileiro precisa se voltar para suas raízes – GQ

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Maureen Bisilliat (Foto: Juan Esteves / Acervo do Instituo Moreira Salles)

“Hoje o dia começou com batuque de maracatu, você ouviu?”, pergunta a fotógrafa Maureen Bisilliat, uma das presenças mais celebradas na Festa Literária Internacional de Paraty em 2019. “Ele tem uma força que, de certa maneira, nos influencia, cria diálogos, faz as pessoas ficarem sabendo das outras, saindo um pouco desse pequeno universo de cada um.”

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Aos 88 anos, a inglesa naturalizada brasileira – “Na realidade, é uma nacionalidade adotada”, adverte – relança seu livro de fotografias Sertões, Luz e Sombras, publicado agora pelo Instituto Moreira Salles, e usa o ritmo musical nordestino para fazer uma reflexão sobre a sua própria trajetória em busca de outros universos. “O que eu sempre busquei – e talvez ainda esteja buscando – é esse negócio da raiz”, reflete.

(Foto: Maureen Bisilliat)

Maureen viajou o interior do Brasil inspirada pelos grandes nomes da literatura nacional e, cinquenta anos depois de A João Guimarães Rosa, seu primeiro mergulho no sertão brasileiro, conversa com a GQ sobre suas conexões com o Brasil profundo, a literatura e a palavra.

GQ – A senhora está na Flip como “a mais literária das fotógrafas”. Gosta da alcunha?

Maureen Bisilliat – Algumas coisas eu não gosto de ser chamada, mas dessa eu gosto [risos]. Para mim, a palavra sempre foi muito importante, desde a mais tenra infância. Como eu viajava muito e compreendia pouco, foi uma conquista pertencer através das palavras, quase sempre de idiomas que eu não sabia.

GQ – E por que não virou escritora, em vez de fotógrafa?

Maureen Bisilliat – Acho que a questão é por que eu virei fotógrafa em vez de artista plástica, porque eu comecei no desenho e na pintura. Mas na frente de uma tela branca eu não sabia o que dizer. Eu precisava mesmo era ir pelo mundo. E tive uma série de sortes que me levou ao fotojornalismo numa época, nos anos 60, em que isso estava no auge.

GQ – Se encontrou?

Maureen Bisilliat – A entrada no fotojornalismo foi por causa do livro do Guimarães [Rosa, citado acima] que eu já tinha feito, foi natural. Mas fotografar, literalmente com uma máquina na mão, foram só nos anos 60 e 70. A partir dos 80, fora uns e outros trabalhos, eu entrei cada vez mais no cinema. E hoje trabalho quase essencialmente com isso. Ainda neste ano mesmo vamos lançar um filme chamado Equivalências: aprender vivendo. Não é uma autobiografia, mas é sobre o que eu faço e o que sou. Ou seja, sobre as minhas viagens. Tem muita coisa filmada no passado e voltas a certos lugares cinquenta anos depois. Onde pudemos ter a sorte de rever certas pessoas de novo. É uma delícia poder mostrar isso e eu gosto de cinema justamente pela palavra. É a forma material da vida somada à palavra, ao gesto.

(Foto: Divulgação)

GQ – A inspiração continua sendo os sertões descritos por Guimarães Rosa, Euclides da Cunha e Ariano Suassuna?

Maureen Bisilliat – As pessoas me perguntam por que eu escolhi esses autores e eu fui percebendo nitidamente que todos eles são estreitamente ligados com realidades. Você tem Guimarães, Suassuna, Euclides, Jorge Amado, Adélia Prado, João Cabral de Melo Neto, Mário de Andrade. Eles não são autores regionais, ultrapassam isso. Todos têm raízes e o que eu sempre busquei – e talvez ainda esteja buscando – é esse negócio da raiz. Dá um enorme prazer poder conhecer um pouco dessa diversidade profunda. O Brasil, pela sua enorme extensão, tem diferenças muito grandes, mas há uma essência que une tudo. Acho que esses autores captaram ela em suas raízes.

GQ – E como foi voltar a lugares há muito visitados?

Maureen Bisilliat – Em um desses lugares, Andrequicé, que foi por onde eu comecei a procurar depois de sugestão do próprio Guimarães, reencontrei a dona Lila e a filmamos olhando a própria fotografia e falando de sua juventude. Às vezes é perigoso voltar, você se pergunta o que está fazendo ali, fica decepcionado. Mas esse retorno a esse lugar beirando as [Minas] Gerais foi bom. Senti digerenças, mas o essencial estava ali. Percebo muito as pessoas se queixando do país, mas eu acho que se olhassem mais para a essência do Brasil, estariam menos descontentes. Apesar de todas as dificuldades, a essência continua lá.

(Foto: Maureen Bisilliat)

GQ – É uma essência da qual a senhora aprendeu a compartilhar?

Maureen Bisilliat – Apesar de ter nascido na Inglaterra, com sete anos eu aprendi o espanhol, que era a língua do meu pai. Ele era filho de calabrês nascido na Argentina. E não eu tinha uma certa latinidade, não entrei em um mundo totalmente diferente. Não me assustei quando conheci os sertões. Acho que porque o Guimarães me falou uma coisa certeira antes de viajar: “Você vai compreender essas populações do sertão por causa do seu sangue irlandês. São pessoas que lidam muito criativamente com o cotidiano da palavra, eles falam em verso”. E ele estava certo.

GQ – O que move esse brasileiro das entranhas do país?

Maureen Bisilliat – Bota o maracatu para tocar [risos]. Senão eu tenho que fazer uma enorme dissertação. São momentos, às vezes específicos, que não podem ser traduzidos em poucas palavras. Coloque o maracatu e você entenderá o que quero dizer por essência. O importante é beber dessas fontes.

(Foto: Maureen Bisilliat)

GQ – E como você bebeu delas para o relançamento de Sertões, Luz e Trevas, que agora vem acompanhado de trechos de Euclides da Cunha?

Maureen Bisilliat – Eu sou pedaço de uma equipe. E o que mais gosto é o processo, sobretudo o pós. É o que liga de um momento mais íntimo a algo técnico e sensível. Esse livro teve certas mudanças e atualizações, refinamentos e tratamentos de imagem, e mais introduções de textos que o enriqueceram muito. Houve mais participação para a criação dele do que o primeiro. É algo que me dá alegria. É o resultado de diálogos, como os incentivados pelo maracatu, que são sempre importantes.

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Fonte oficial: GQ

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