Para Oscar Schmidt, candidatura da Rio 2016 foi comprada – GQ

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Em 23 de agosto, a impressionante vitória do Brasil sobre os Estados Unidos na final de basquete dos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis em 1987 completou 30 anos. Principal jogador daquela geração e maior da história do basquete brasileiro, Oscar Schmidt viu-se em meio a celebrações e a lamentos. Três décadas depois, o Brasil não está classificado para um Pan pela primeira vez.

E poucos dias após a data, Carlos Arthur Nuzman, então presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), foi preso por suspeita de corrupção e de compra de votos para a escolha da sede dos Jogos Olímpicos de 2016. “Não foi surpresa nenhuma. Você sabe quanto o Nuzman ganhava como presidente do COB? Nada. E tem 16 barras de ouro”, diz o atleta.

Oscar acredita que o esporte brasileiro pode voltar aos trilhos. O exemplo, diz, é a Confederação Brasileira de Basquete (CBB). Após sete meses suspensa da Federação Internacional de Basquete (Fiba) por má gestão e não cumprimento de responsabilidades financeiras, a CBB tenta se reerguer com o novo presidente, Guy Peixoto, que iniciou um processo de democratização, abrindo mais espaço para atletas, ex-atletas e técnicos. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como foi ver Carlos Arthur Nuzman preso um ano depois da Rio 2016? Oscar Schmidt Não foi surpresa. Acompanho o Nuzman há muito tempo… Quem tem 16 barras de ouro? Você sabe quanto ele ganhava como presidente do COB? Nada. E tem 16 barras de ouro [a Operação Lava Jato informou que o ex-dirigente mantinha 16kg de ouro guardados na Suíça]!

Você já tinha ouvido boatos sobre Nuzman? Sempre comentários, desconfianças. Por que você acha que ele foi presidente do COB por tanto tempo [de 1995 a 2017], sem oposição de nenhuma confederação? Não tem como não saber que tem algo aí.

Que perspectivas o esporte olímpico brasileiro tem a partir de agora? Não posso falar dos outros esportes. No basquete, um cara está tentando fazer a coisa certa. O Guy [Peixoto, novo presidente da CBB, ex-ala-armador da seleção nos anos 1980] é milionário, não precisa enriquecer com o basquete. Merece um voto de confiança. E já chegou promovendo mudanças no estatuto. Antes, só os presidentes das federações estaduais votavam para presidente da CBB. Agora clubes, treinadores e jogadores também terão direito a voto. O presidente da CBB fez isso. Dá para mudar.

Dá para tirar algo positivo do episódio com o Nuzman? Lógico que dá. Nenhuma investigação hoje para porque o cara é importante. Nunca tinha visto governador ser preso, senador. E agora vi o Nuzman. Puta que pariu!

O que você acha dele como dirigente? Não quero analisar quem não foi correto. Só quero que ele me conte como se arruma uma barra de ouro.

A candidatura do Brasil aos Jogos de 2016 foi comprada? Acredito nisso. Só não acho que o Brasil foi o primeiro não, hein… Mas pegaram aqui.

Sua geração conquistou uma das maiores vitórias do basquete brasileiro, o Pan-Americano em 1987. Agora o Brasil está fora do Pan de Lima, em 2019. Por que não evoluímos? O Brasil patina há muitos anos. Comemoramos 30 anos daquela vitória, que mudou a regra do basquete. Em 1992, o Dream Team estava em Barcelona. Antes, jogador da NBA não jogava Olimpíada. Hoje, o Golden State Warriors joga igualzinho a gente. Nós revolucionamos o basquete.

Faltam bons jogadores? Carecemos de grandes jogadores. Se botar todos os brasileiros da NBA num saquinho e for tirando os nomes, não sai um ótimo. Eles não são o cara que bota a bola debaixo do braço e resolve. Olimpíada no Brasil era meu sonho, e a gente fez aquele papelão. Não é falta de vontade. É falta desse alguém.

Você fundou a Nossa Liga de Basquetebol em 2005, mas ela durou só dois anos. Voltaria a ser dirigente? Acho que meu tumor [Oscar operou dois tumores no cérebro, em 2011 e 2013] nasceu ali. Você não sabe o que passei. O primeiro tinha 8cm; foram oito horas de cirurgia. O segundo era pequeno, mas maligno; seis horas e meia de cirurgia. A NBL foi a semente que lançamos, e a Novo Basquete Brasil hoje é a melhor coisa do basquete brasileiro.

Fonte Oficial: GQ.

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