PODER analisa o FOMO, o mal da hora, em que a vontade de vivenciar tudo e a angústia de não dar conta andam juntas – Poder – Glamurama

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Fomo || Créditos: Reprodução

A vontade de vivenciar a maior quantidade de experiências possíveis e a angústia de não poder fazê-lo, o FOMO, é o mal da hora. Saiba como não cair nele

Por Victor Santos

Após um longo dia de trabalho, nada como o sofá de casa. Só que a sensação de dever cumprido e o consequente descanso do guerreiro podem ir água abaixo com um simples “scroll” no Instagram ou no Twitter e a constatação de que existe alguma situação, na verdade existem algumas situações muito interessantes rolando do lado de fora. Ou seja, acontecendo bem longe daquele sofá. Essa sensação incômoda, que acontece reiteradamente com milhares ou milhões de pessoas pelo mundo todo, vem sendo chamada de “medo de estar perdendo algo”, tradução livre para o português do acrônimo FOMO – Fear of Missing Out. O termo foi criado em 2000 pelo estrategista de marketing americano Dan Herman no âmbito da psicologia do consumidor. Posteriormente, o assunto ganhou espaço em análises de grandes especialistas do comportamento humano. Sofrer com eventuais possibilidades não aproveitadas não é novidade – o que são, afinal, a inveja e a cobiça? Apesar das facilidades que a internet trouxe para o dia a dia, como a agilidade na busca por informações e o maior contato com as pessoas, ela também potencializa a incômoda sensação de que são os outros, e não você, que estão se dando bem. Eis um efeito colateral de tanta conexão digital: a vontade de aproveitar ao máximo as possibilidades apresentadas pelo mundo, entre eles a oferta de relacionamentos e as opções de lazer – ver um filme dentre os milhares disponíveis nos serviços de streaming, por exemplo. O problema é que junto com essa vontade vem a pungente necessidade de saciá-la. “O mundo tem infinitas possibilidades. Sem determinar qual é o limite, a pessoa vai sofrer, fragilizar-se e pode adoecer”, afirma a psiquiatra e psicanalista Leda Spessoto, da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Certamente o leitor já deve ter enfrentado essa encruzilhada de escolhas. A publicitária Juliana Gouvêa, que trabalha com insights na área de marketing digital, viveu na pele essa situação no festival South by Southwest, o SXSW (veja reportagem sobre a edição de 2019 na página 28), um dos locais de maior densidade de vítimas dessa síndrome de que se tem notícia. “Ali tudo acontece ao mesmo tempo e você precisa saber escolher. Tem até a história do ‘Fear of Making Terrible Choices’ [Medo de Fazer Escolhas Terríveis, em tradução livre]. Quando se escolhe algo, abre-se mão de outras coisas”, conta. Se o desconhecimento dos limites das próprias possibilidades tem o condão de abrir a porta para doenças, no universo corporativo a disponibilidade online também é um dos fatores que podem desencadear quadros de ansiedade e depressão.

Pedro Alvarenga, doutor em psiquiatria pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e pesquisador do Instituto Nacional de Psiquiatria do Desenvolvimento para Crianças e Adolescentes, alerta para outro problema: “O abuso de eletrônicos e fenômenos como FOMO estão fazendo com que os jovens fiquem mais dispersos e menos produtivos. Um pouco de eletrônico estimula o cérebro, muito o estraga”. Esse processo leva a cobiça e a inveja para outros patamares, fazendo com que as novas experiências sejam vividas com menos profundidade. “Como a maior parte das vivências ansiosas, o FOMO projeta o indivíduo para o futuro. Isso faz com que o momento presente possa não ser curtido com a profundidade e com a calma necessárias. É um adiantar-se no tempo que resulta na perda do tempo realmente vivido”, explica Alvarenga. O psiquiatra também cita como agravante a confusão do sujeito entre ser querido ou amado com ser popular ou famoso; além disso, há o ambiente narcísico das redes sociais, que não reflete, necessariamente, a realidade última, já que as postagens são via de regra escolhidas para mostrar apenas o que há de melhor. A persistência na busca dessa realidade paralela e edulcorada tem o potencial de levar a comportamentos agressivos.

Porém, nem tudo está perdido. A análise minuciosa das múltiplas possibilidades pode levar a experiências mais ricas e um conforto maior na hora de encarar as próprias renúncias. Passar a adotar um uso mais consciente de equipamentos eletrônicos pode levar ao entendimento de que a vida é composta também por momentos de dor. A mudança de foco pode libertar as pessoas da prisão da aprovação alheia, além de aguçar a curiosidade, tornar os indivíduos mais interessantes, facultar o desenvolvimento de um número maior de habilidades e permitir a vivência de experiências mais gratificantes. Nem sempre o que se perde é imperdível.

“O FOMO projeta para o futuro. É um adiantar-se no tempo que resulta na perda do tempo realmente vivido”, Pedro Alvarenga, doutor em psiquiatria pela USP e pesquisador do instituto nacional de psiquiatria do desenvolvimento para crianças e adolescentes.

Fonte oficial: Glamurama

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