Por dentro da cidade que está mudando a ideia do ‘Made in China’ – GQ

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Algo em torno de 10 anos atrás, chineses adotavam um hábito de consumo de smartphones não muito distante do nosso: marcas estrangeiras, como as americanas Apple e Motorola, e a coreana Samsung, dominavam com folga o mercado, jogando nas prateleiras e mãos dos consumidores dispositivos premium, senão quase isso. Hoje em dia o panorama é outro: chineses adquirem boa parte de seus smarts através de fabricantes criadas no seio de seu país. 

Você já deve conhecer a história da Xiaomi, selo chinês que se expandiu pelo mundo através de aparelhos acessíveis que competem no campo dos dispositivos de baixo e médio desempenho. Ou da Huawei, gigante tecnológica que se encontra em um cabo de guerra com o governo americano. Mas há muito mais do que um punhado de empresas modificando o que significa o ‘Made in China’. “No mercado global de smartphones, as cinco marcas no topo são Samsung, Huawei, Apple… e duas outras chamadas Vivo e Oppo“, explica o pesquisador taiwanês David Li em conversa com a GQ Brasil. “Estas últimas duas, se você nunca saiu do ocidente, nunca deve ter ouvido falar, mas elas são enormes na China e no sudoeste asiático”.

Ambas devem seu sucesso ao bom desempenho em uma das regiões mais populosas do mundo, mas também por sua raiz em comum: as ruas elétricas de Shenzhen, cidade no sul da China. 

Shenzhen é uma cidade única: em 30 anos, o que era um aglomerado de vilarejos de pescadores virou um centro de tecnologia sem igual. Há projeções que dizem que a ‘fábrica do mundo’ – como Shenzhen vira e mexe é conhecida – seria responsável por montar 90% a 95% dos eletrônicos vendidos ao redor do mundo. E este não é nem de longe o único número maluco. Mais de 20% dos PhDs do país estão vivendo na cidade, que produz mais bilionários que todo o resto da China. “Hoje Shenzhen tem algo de 20 milhões de habitantes com talvez um milhão de companhias registradas”. diz David. “Então em média é uma empresa a cada 20 habitantes.” 

David Li chefia desde 2015 o Shenzhen Open Innovation Lab, primeiro laboratório maker da cidade, e estuda o fenômeno de seu crescimento desde 2011. E se tem algo que ele evita no decorrer de nossa conversa é chamá-la de ‘Vale do Silício chinês’. Para ele, entender Shenzhen é, ao invés disso, mergulhar no conceito do cyberpunk. Pense nos backgrounds de Akira, Robocop e Blade Runner, ou nas páginas de Neuromancer: cidades que vivem sob as sombras de grandes corporações, mas onde você pode encontrar tecnologia de ponta até nas vielas mais obscuras. Em resumo: “A força da resistência vinda das ruas, só que auxiliada pela tecnologia”, descreve David.

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Neste sentido, o metro quadrado mais cyberpunk do mundo talvez seja o mercado Huaqiangbei, instalado em um velho galpão no distrito de Futian. É o coração tech de Shenzhen, uma rede informal de mais de 20 comércios eletrônicos, onde se vendem cases, telas, componentes, até caixinhas vazias que imitam as embalagens da Apple. Quer um celular tipo iPhone? Ou um invento completamente diferente, montado na hora? Você encontra em Huaqiangbei, onde um exército de engenheiros recicla e se apropria de componentes para criar novas ideias e negócios.

“Há uma narrativa que compara Shenzhen a algo como o Vale do Silício, mas não faz sentido”, diz David Li. “Essa filosofia, de transformar tecnologia em commodity, isso é o que significa Shenzhen”.

SHENZHEN, CHINA - OCTOBER 14: (CHINA OUT) A elevated view of the Huaqiangbei Seg Electronic Market is seen on October 14, 2007 in Shenzhen of Guangdong Province, China. Huaqiangbei area is the biggest electronic products market in Asia, with the official  (Foto: Getty Images)

Há um termo pejorativo que descreve o que Li quer dizer: trata-se da palavra ‘shanzhan’, chinês para ‘copiar’ ou ‘parodiar’ e que hoje é o termo adotado pela comunidade de criadores local para descrever seu trabalho. Pega mal pensar assim, não? Mas Li oferece outra abordagem: “O grão do café é commodity, certo? Em todo canto do mundo tem gente abrindo cafeterias que servem o café brasileiro. Se você conversar, digamos, com algum chinês que abriu uma loja destas, eles provavelmente não vão saber muito sobre o cultivo dele, o que é preciso para fazer para plantá-lo, mas eles compram esses grãos no mercado aberto. Daí a narrativa se altera: não é apenas sobre o café, o café é o começo. O que você cria a partir daí?”

Para entender o impacto amplo do shanzhan, David Li conta: “Todo mundo hoje fala sobre pagamento por celulares na China, mas o Quênia começou a usar essa tecnologia em 2002, para mobile banking, financiamento e crédito. É central para a vida daquelas pessoas. E para que isso fosse possível, precisou existirem empresas chinesas fazendo celulares de 10 dólares, mais acessíveis para famílias quenianas.”

“(Shenzhen) é onde a tecnologia vai para virar commodity, mas o valor desta commodity tem que ser ditada por um esforço global”, diz o pesquisador.

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Shenzhen foi uma das primeiras Zonas Econômicas Especiais, as famosas bolhas capitalistas instaladas na China então comunista entre os anos 70 e a década de 90. E o termo ‘bolha’ não é excesso. “Lá para 1980, Shenzhen era uma coleção de 15 vilarejos de pescadores, e o governo construi uma parede ao redor da região. Havia um paredão de verdade”, conta.

Entre 1980 e 89, o governo central manteve olhos atentos para Shenzhen e outras cinco cidades litorâneas escolhidas para o experimento, mas conforme o capital expandiu pelo país, a cidade ficou em segundo plano. Na virada do milênio, a posição do governo com Shenzhen ia na seguinte toada: “Pequena cidade rural no sul da China, você completou sua missão, provou que isso vai funcionar. Obrigado por contribuir para a grande terra mãe, tchau tchau!”, ri David. Mas em 2010, ao cabo de uma década dourada para a cidade, Shenzhen figurou logo atrás de Pequim, Xangai e Quanzhou como uma das cidades mais ricas da China. “Aprender com Shenzhen voltou a estar na moda”, ironiza David.

CHINA, SHENZHEN - OCTOBER 14 : Neighbourhood who live the workers in Shenzhen on October 14, 2016 in China. (Photo by Frédéric Soltan/Corbis via Getty Images) (Foto: Corbis via Getty Images)

Mas uma cidade que vai de 30 mil habitantes para quase 20 milhões em três décadas não está livre de pressões consideráveis. “Shenzhen está sofrendo uma expansão dolorida”, diz David. “Moradia é caríssima, e nossa infraestrutura não está bem aparelhada”. O pesquisador aponta que coisas como coleta de lixo e manutenção de vias e estradas é organizada por startups locais, com mínima participação governamental.

Além disso, Shenzhen está vendo só agora a primeira geração de moradores entrando no mercado de trabalho local. Antes disso, boa parte de seus profissionais vinham de outros lugares, com a meta de também chegar a outros lugares. “Muita gente vem para Shenzhen sem qualquer interesse de permanecer lá. Muitos contribuem uns 10 anos para a cidade. Eles querem ganhar dinheiro o suficiente para erguer seus próprios negócios”, diz David. 

“Na China realmente vemos essa promessa, a promessa original. Quando voltamos para o início da internet como a conhecemos, havia essa esperança sobre o que ela iria nos permitir fazer”, diz David Li, ele mesmo um sobrevivente do estouro da bolha ‘dot-com’ na década de 90. Mas sonhos e promessas têm o hábito de não correrem em paralelo com a realidade. Mesmo nas vielas de Shenzhen. “Por que Shenzhen tem uma única universidade? Por que uma cidade de quase 20 milhões de habitantes usufurem de uma única universidade?” David lamenta, mas logo se corrige: “a bem da verdade, esse ano dobramos esse número, abrimos uma segunda!” E não abre mão de uma última gracinha: “Um crescimento de 100% no ensino superior, veja só!”

Fonte oficial: GQ

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