Por que funcionários de empresas tech ouvindo seus áudios não é coisa incomum? – GQ

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Facebook Messenger (Foto: Derick Anies / Unsplash)

O Facebook anunciou esta semana que havia parado de recrutar pessoas de carne e osso para ouvir e transcrever áudios de usuários em seu app de mensagens (o Messenger). Mais importante são os contornos deste anúncio: trocando em miúdos, o Facebook recrutava pessoas de carne e osso para ouvir e transcrever áudios de usuários em seu app de mensagens (o Messenger).

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O serviço alvo, chamado speech-to-text, é uma função disponível em locais seletos – excluindo, por exemplo, o Brasil. Através dele, o que você grava para enviar a um amigo pelo Messenger é automaticamente transformado em texto – assim, elimina-se a inconveniência de ter que parar para ouvir áudios longos ou desnecessários.

Desta vez, no entanto, o Facebook não está sozinho na treta. Google e Apple também eram adeptas à prática. Pelo menos até fevereiro deste ano, quando anunciaram o desligamento de seus setores de análise humana – responsáveis por ouvir conversas gravadas através de seus assistentes pessoais, o Siri e o Google Assistente. O caso do Google é particularmente traumático: ele envolveu uma investigação na Alemanha em julho, motivada pelo vazamento de mais de mil gravações antes estocadas pela gigante das buscas. Os áudios incluem gente que nem falou um ‘Ok Google’, comando de voz que geralmente ‘ativa’ o Assistente.

E não pára apenas nestas três empresas: Amazon e Microsoft também empregaram prática similar.

Tanto o speech-to-text do Messenger quando assistentes pessoais empregam inteligência artificial de ponta, capaz de reconhecer sons ou partículas de palavras e transformá-las em texto – ou vice-versa. Estas IAs oferecem transcrições super ágeis, além da capacidade de estar a qualquer momento em qualquer canto. É uma tecnologia que vem melhorando com o tempo. Em conversa com a GQ Brasil no começo deste ano, Dan Aharon, líder de produto Speech-to-Text , o Google é hoje capaz de transformar 20 segundos de aúdio/segundo em texto, quando há um punhado de anos não era capaz de sintetizar 0,01 seg de fala no mesmo tempo. E não é por mera conveniência: este jogo de ouvir, escrever, entender, responder é chave para muitas das tecnologias que integram soluções como o lar inteligente.

Mas estas máquinas exigem muita informação para aprender e funcionar de acordo, além de análise humana, capaz de comparar resultados e checar erros frequentes com profundidade – e com o inestimável fator humano, claro. Ocorre que a melhor maneira de testá-las é checar como ela se comporta em situações reais, que é quando o robô tem acesso a um largo banco de dados criado pela própria interação com os usuários.

O Facebook nota que exige um opt-in de clientes do Messenger. A Apple faz o mesmo. E num geral, estas companhias usam apenas uma fração do que os robôs ouvem, e filtram informações para evitar saberem quem está na conversa e de onde ela veio. Mas o vazamento recente envolvendo o Google mostram que rombos de segurança não são impossíveis – e que dispositivos podem coletar áudio sem que a pessoa saiba que algo está sendo gravado.

Inteligências artificiais e assistentes estão tornando nossa vida mais fácil: sem botões ou telas, apenas pela voz, você pode saber da previsão do tempo ou do resultado do último jogo. Mas eles não são perfeitos, e dependem de escrutínio humano. Ao Buzzfeed News, Jeremy Gillula, diretor de políticas tecnológicas da ONG Electronic Frontier Foundation (EFF), disse não se surpreender com as notícias, mas crava: “companhias deveriam tornar a análise humama uma questão mais explícita – nas informações que vêm no pacote de seus produtos, nas suas páginas de ajuda, basicamente em qualquer lugar em que falam sobre um dado dispositivo.  Elas deveriam dizer ‘sim, humanos de carne e osso podem ouvir ao que você está falando'”.

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Fonte oficial: GQ

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