Por que nós ficamos com medo ao ouvir um grito de terror – GQ

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Nenhum grito é igual ao outro. Eles podem ser graves, estridentes ou bizarros, assim como as vozes de seus donos, mas poucas vocalizações são tão específicas quanto um grito de medo – e você sempre reconhece quando ouve um.

Mas de onde vem essa característica inconfundível? “Se você perguntar a alguém na rua, eles dirão que um grito é alto e agudo”, diz David Poeppel, neurocientista da Universidade de Nova York e do Instituto Max Planck, em Frankfurt. “Acontece que também não sempre.”

Poeppel sabe o que fala. Em 2015, ele e seus colegas se propuseram a diferenciar os gritos de medo de outros ruídos. Começaram pela compilação de um banco de dados de gritos. “Passamos muitas horas divertidas vasculhando a internet para achar as coisas mais estranhas no YouTube”, diz Poeppel, “mas também trouxemos pessoas para o laboratório e as fizemos gritar”.

Então veio a hora de analisar as amostras. Em primeiro lugar, Poeppel suspeitava que o volume e o tom eram o que fazia de um grito um grito. Mas quando ele e seus pesquisadores analisaram as propriedades auditivas dos sons em sua base de dados, eles descobriram que o que os gritos realmente compartilhavam era uma qualidade acústica chamada aspereza, uma medida da taxa em que um som varia em diferentes volumes.

A fala humana normal, por exemplo (que os pesquisadores também analisaram), varia em volume de quatro a cinco vezes por segundo. Já os gritos, entretanto, vacilam entre 30 e 150 vezes por segundo. Isso significa que eles ocupam um lugar único no panorama sonoro das vocalizações humanas, e pode ser por isso que eles são tão chamativos.

Com essa informação na mão, Poeppel foi classificando uma série de sons de acordo com o quão alarmantes eles eram – e quanto mais áspero era um som, mais as pessoas o consideravam perturbador. Os pesquisadores descobriram o mesmo com alarmes de carro, de casas e ambulâncias, que compartilham a qualidade acústica áspera dos gritos. “Há algo compartilhado por esses sons que sequestra seu cérebro e diz: ‘Ei, algo está acontecendo'”, diz Poeppel.

Nó na garganta

Para investigar como esse “sequestro” funciona, os pesquisadores acompanharam a atividade dos cérebros das pessoas enquanto escutavam ruídos bruscos e neutros dentro de um scanner funcional de ressonância magnética. Para a surpresa de ninguém, todos os sons fizeram com que o sangue fluisse para o córtex auditivo. Mas os sons ásperos também enviaram sangue para as amígdalas (aquelas duas bolinhas na garganta associadas ao processamento de reações emocionais como o medo). “Isso já era intriguante”, diz Poeppel, “mas ficou mais estranho. A resposta das amígdalas não era direta, foi uma resposta graduada”. Em outras palavras: quanto mais áspero o som, mais atividade produziu na região. As amígdalas por sí só se comportaram como pequenos medidores de som sensíveis aos gritos.

O próximo passo da pesquisa é analisar outros tipos de gritos – de gritos irados a gritos de êxtase – e como eles afetam a percepção e a atividade cerebral. “Estou comparando três ações de reação positivase três negativas”, diz Natalie Holz, pesquisadora do Instituto Planck, responsável por esta nova investigação. “Para as negativas, claro, incluímos o medo novamente, mas também estamos comparando isso com gritos de raiva e dor. Para o positivo, estamos olhando os gritos de felicidade, surpresa e prazer sexual”.

Até que os resultados saiam, você pode treinar seus gritos de terror e ver a reação deles nos amigos – mas sem deixar de cuidar da voz.

*Originalmente publicada em Wired.com

Fonte Oficial: http://gq.globo.com/Corpo/Saude/noticia/2017/10/por-que-nos-ficamos-com-medo-ao-ouvir-um-grito-de-terror.html.

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