Por trás de uma icônica foto dos Beatles, por David Hurn – GQ

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Digamos que você foi escolhido como o cara que registraria os Beatles no ápice de sua carreira, acompanhando seus dias em estúdio e a primeira aparição do grupo no cinema. O que você lembraria? Que histórias contaria? O fotógrafo inglês David Hurn, ícone do fotojornalismo, nome prestigiado da agência Magnum e autor da foto acima, prefere responder a essa pergunta da forma mais pessoal e efêmera possível: “Eu me lembro bem de jogar Monopoly (Banco Imobiliário) com eles”, brinca Hurn em conversa por e-mail para a GQ Brasil.

David Hurn, claro, não estava lá pra brincadeira. Era 1964, e os Beatles estavam envolvidos na gravação de A Hard Day’s Night (conhecido no Brasil pelo título Os Reis do Ié-Ié-Ié), o primeiro longa estrelado pelo quarteto. O diretor, Dick Lester, pediu então para que Hurn, seu amigo, capturasse o processo – não para fins publicitários, mas para apresentar um olhar mais sociológico sobre o fenômeno. Não é a toa que esta foto – assim, com John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr debruçados sobre seus scripts, absortos em trabalho – se destacou como a mais icônica da visita de Hurn.

“Minhas ordens ao trabalhar no filme foi que eu não deveria dirigir ou montar nenhuma de minhas fotos”, explica David Hurn. “Eu estava interessado apenas na vida como ela era”. Para ele, o valor dessa fotografia é tão mundana quanto o teor de suas lembranças com o grupo. “Além das fotos promocionais, não é corriqueiro ver fotos de todos os Beatles juntos assim”, conta o fotógrafo.

Claro que o que Hurn encontrou no então EMI Recording Studios – hoje, o Abbey Road Studios – não foi qualquer banda. Entre 63 e 64, além do filme, os Beatles comemoravam o sucesso de Love me Do, primeiro single do grupo que varreu rádios britânicas, além de sua primeira aparição na televisão americana. Em três anos, eles gravariam o lendário Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Era o começo da ‘Beatlemania’. “Eles estavam no auge de sua fama”, lembra David Hurn, que apostava á época: “eu suspeito que, como indivíduos talentosos que eram, eles já estavam pensando em uma vida distante um dos outros”. A impressão se provou correta: dois anos depois do lançamento do filme, os Beatles fizeram seu último concerto.

Esta fotografia de Hurn é parte de uma venda especial organizada pela Magnum em parceria com a Aperture, que se inicia hoje e termina na meia-noite do próximo dia 2. Pelo website, é possível comprar cópias assinadas, 6×6, em qualidade de museu do trabalho de 100 artistas, sempre por US$ 100.

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David Hurn pegou o gosto pela fotografia durante seus anos no exército britânico, começando a fotografar profissionalmente movido por um espírito de curiosidade. Foi um golpe de sorte e bom timing que fizeram de Hurn correspondente fotográfico para grandes jornais durante a Revolução Húngara, em 1956. Desde então seu trabalho, tanto o profissional quanto o mais pessoal, mostrou sua predileção pelo humano, nu e cru. “Eu nunca estive muito certo da definição de ‘arte’. Me vejo herdeiro da tradição de Bill Brandt, Walker Evans, Manuel Bravo, Henri Cartier Bresson, todos aqueles que se consideravam fotógrafos, mas nunca tiveram receio de receberem por seus esforços”, conta David Hurn. “Sou de um grupo de fotógrafos que têm uma curiosidade apaixonado pelo mundo como ele é – sem qualquer desejo de produzí-lo”, conclui.

A abordagem pragmática do fotógrafo não evita que ele expresse a importância de seu ofício – “Estou sempre preocupado por países que querem cegar os observadores”. Assim como seu amor pela obra: “A fotografia é um excelente exercício para a memória. Olhar para velhos negativos traz lembranças já esquecidas – algo muito prazeroso conforme se envelhece”.

E sobre um registro da partida de Banco Imobiliário com os Beatles? Lamentamos informar: não tem nenhuma. “Eu sou muito competitivo e aparentemente estava mais preocupado em vencer do que em bater fotos”, lembra.

Fonte oficial: GQ

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