Qual a real da vida em startups? – GQ

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Entrou em cartaz no Instagram o documentário “Emprego dos Sonhos. Ou não!”. Em seis episódios de um minuto cada, a produtora Smarty Talks, especializada em “micro movies” para celular, conta uma das histórias polêmicas do ano na bolha das startups brasileiras.
Cinco meses atrás, na primeira sexta-feira de maio, a pessoa (anônima) por trás do perfil @startupdareal criou uma planilha no Google Docs com o título “Como é trabalhar em startup?” e convidou seus 17 mil seguidores no Twitter a responder. O que vem em seguida é a enxurrada de queixas (anônimas) mais virulentas contra certo tipo descolado de companhia desde que o primeiro hipster empunhou uma raquete de pingue-pongue em um espaço de coworking.

Ícones do novo empreendedorismo receberam críticas desconcertantes. Samba Tech: “CEO egocêntrico, não se preocupa com a empresa, somente com sua própria imagem. Por vaidade, cria um ambiente hostil. Pessoas têm medo”; “CEO e diretores machistas. Não dão espaço para mulheres na liderança (…) Assediam as funcionárias sem o menor pudor.” Singu: “CEO participa de mais evento e dá mais palestra do que trabalha”; “O ambiente é ruim em um coworking meio ruidoso. A ideia de trabalhar com um CEO que teve sucesso vai por água abaixo quando o discurso é de ‘arrancar o couro’ dos funcionários, ao mesmo tempo [em] que você vê dinheiro de investimento sendo usado para alugar carrão nos Estados Unidos, com foto no Instagram”.

O “CEO que teve sucesso” chama-se Tallis Gomes e, antes da Singu, fundou a Easy Taxi. Sua empresa atual criou um aplicativo que leva profissionais de beleza até as pessoas.
Gomes conta que participa de um grupo de WhatsApp com outros CEOs, cuja reação inicial à planilha foi de gozações mútuas – até que a repercussão escalou. Desde então, sua política é levar a sério e responder às críticas feitas ali. “Se eu fosse alugar carro, alugaria com meu dinheiro. Tenho grana suficiente para alugar um carrinho nos Estados Unidos”, diz. Lembre que a Easy Taxi chegou a ser avaliada em R$ 1 bilhão e foi vendida para a Cabify por R$ 600 milhões. Gomes acrescenta o fato de que não dirige. Teve a habilitação cassada anos atrás e decidiu não renová-la, já que trabalha perto de casa e vai para o escritório de bicicleta.

Sobre ambiente de trabalho, ele informa que a Singu não opera de um cowork, e sim de uma casa em Pinheiros. Quanto à acusação de que não trabalha, sugere uma checagem em seu Instagram. “Abro um pouco do meu dia a dia, chegando cedo no escritório e saindo tarde, até para mostrar a quem quer empreender que não existe essa vida glamourosa”, diz. “Palestra, eu faço sim. As últimas três pessoas que recrutei, engenheiros da Poli, foi através de palestras.”

A Samba Tech não comentou as críticas.

No post “Tudo o que você precisa saber sobre a planilha”, @startupdareal admite problemas. “A planilha nem de longe é a melhor forma de validar feedbacks sobre empresas”, diz. “Alguém mal-intencionado, funcionários de RH e pessoas tentando danificar a credibilidade da lista podiam fazer várias entradas para fortalecer seus pontos (…) Um espaço anônimo e convidativo para expor os problemas sempre vai trazer o viés negativo”. É essa a principal objeção de quem foi alvo de críticas.

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“O fato de você não precisar se identificar ajuda as pessoas a ter coragem de revelar certas coisas, mas, ao mesmo tempo, elas criticam de um jeito muito raso”, opina Camila Achutti, fundadora e CEO da plataforma de educação em tecnologia Mastertech. Mais direto, Gomes afirma: “Não gosto de anonimato. Abre um campo fértil para os covardes”.

Em seu post, @startupdareal separa os relatos negativos em problemas comuns de gestão, graves e degradantes e individuais. E nota que há muita reclamação boba. “A melhor forma de definir uma startup é como uma empresa com recursos financeiros extremamente limitados, tentando alcançar objetivos ambiciosos”. Isso não justifica, porém, “camuflar salários baixos e horas extras não remuneradas como ambiente para quem gosta de trabalho, não tem medo de desafios e não fica de mimimi”.

Salários são a principal causa de reclamações, resumidas na frase “trabalhamos muito e não ganhamos para isso”. Gomes admite que, sobretudo no início do negócio, os salários são menores que em companhias maduras. Mas lembra que quatro pessoas que começaram ao seu lado na Easy Taxi tornaram-se milionárias quando a empresa foi vendida. “É difícil alguém que trabalha em empresa convencional ficar milionário em cinco anos”, diz.

startups (Foto: Guilherme Henrique)

Relatos de assédio moral e sexual aparecem em segundo lugar entre as, neste caso, denúncias, e aí entra-se no terreno dos “problemas graves e degradantes”. “Nunca presenciei um caso explícito de assédio sexual, mas sei que eles existem”, diz Camila. “Só [presenciei] assédio moral, que acontece por estarmos numa sociedade estruturalmente machista.”
Desorganização fica em terceiro lugar entre as queixas, o que soa como generalização. “O estilo de liderança varia muito, mas tende a ser uma liderança mais próxima”, observa Gomes. “Os funcionários participam mais das discussões estratégicas.”

Erros de gestão e tolerância com a cafajestagem à parte, predomina a percepção de que as melhores startups são, ao mesmo tempo, adoráveis e detestáveis. Depende de para quem.
Pense na Samba Tech. O site de carreiras Love Mondays a elegeu em janeiro uma das 30 pequenas e médias empresas mais amadas pelos funcionários, em pesquisa baseada nas avaliações postadas pelos próprios funcionários (de mais de 80 mil companhias) de maneira sigilosa. Quatro meses depois, a mesma empresa estava no olho do furacão da planilha.
Tudo indica que é um típico caso de ame ou odeie – o que no mundo do trabalho, acredite, pode ser um bom problema. Quando se trata de cultura organizacional, a paleta das empresas tende aos 50 tons de cinza.

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É difícil diferenciá-las, o que significa que (des)agradam quase qualquer um igualmente cinzento. Gente colorida, todavia, prefere companhias de cores vivas. Você é movido a competição, adora desafios e quer ficar milionário antes dos 30? Uma empresa vermelha como a Ambev vai saltar aos seus olhos. Sonha em usar a escala de um grande negócio para fazer deste planeta um lugar melhor? O verde de uma Natura deve chamar sua atenção. Do mesmo modo, o mosaico colorido que o Google, como símbolo do Vale do Silício, emprestou ao universo corporativo é um ímã para geeks, nerds, hipsters e techies.
Startups em toda parte operam com variações dessa cultura – pufes coloridos, salas de jogos, comida de graça, muito trabalho, muita pressão –, com níveis de sucesso bem variados.

Visto de fora, sobretudo por um par de olhos jovens, não há ambiente melhor. Por dentro, mesmo as melhores dessas empresas são um encanto para uns e zona para outros.
Outro levantamento feito pela Love Mondays comparou a satisfação nas startups com a observada em outras empresas. Numa escala de zero a cinco, a satisfação geral em todas as companhias na base de dados do site é de 3,5, enquanto nas startups ela chega a 4,1. O placar é favorável a estas últimas em todos os quesitos avaliados, inclusive remuneração.
“No geral, a cultura de startup não é para todo mundo”, conclui Luciana Caletti, CEO da Love Mondays. Exemplo de traço cultural de difícil assimilação: mudança permanente, ambiente dinâmico e flexibilidade. Em tese, é o que todos querem. Muita gente, contudo, precisa de uma estrutura ao seu redor para performar bem profissionalmente.

Fonte oficial: GQ

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