Quanta floresta tem no seu chocolate?

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Nem tudo no chocolate é doce. Sua produção ainda é assombrada pela falta de transparência, qualidade, e, bem, vamos ter que passar a palavra aqui: "O cacau tem sido visto como uma das culturas que, junto da palmeira, são as maiores resposáveis pelo desmatamento". Isto é o que diz Sylvestre Awono, gerente do setor de cacau da Puratos e parte do programa Cacao-Trace, em conversa com a GQ Brasil.

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Considere países como Gana e Costa do Marfim, cujas economias dependem em boa parte do plantio do fruto: de acordo com a ONG World Cocoa Foundation (WCF), o cacau responde por uma diminuição na ordem de 13 a 17% da área verde em ambos os países no período entre 2001 e 2017. 2,3 milhões de hectares de mata tropical na parte norte da Guiné podem ter sidos derrubadas para o cultivo nas quase duas décadas entre 1988 e 2007. Estamos falando, vale dizer, da região que sozinha produz 65% do cacau consumido mundialmente.

(O Brasil vem seguindo em uma certa contramão já que aqui e ali o cacau, quase eliminado devido à praga da vassoura de bruxa nos anos 90, vem sendo reintroduzido pela ação de grupos conservacionistas e medidas que aliam agricultura e preservação)

 

O problema do desmatamento nestes países encontra mais um agravante na forma como a colheita geralmente se dá: calcula-se que 90% do cacau consumido no mundo vem de pequenos produtores, tanto na África quanto na América Latina. "Fazendas de pequeno porte significam quantidades limitadas de produção por fazendeiro a cada ano", explica Sylvestre. "Isto resulta em renda igualmente limitada e em aumento na pressão sobre o solo e as florestas", conclui.

O cacaueiro ainda é, a grosso modo, uma planta selvagem. Desde que ela foi domesticada há uns 1500 anos, ainda não dominamos sua genética (este campo de estudo começou a ganhar fôlego só em 2010) e nem a maneira mais eficiente de trabalhar com o cacaueiro. O plantio do cacau é uma atividade complexa, que exige monitoramento frequente de cada planta – não só pela sua fragilidade a pragas, mas também porque ela cresce em intervalos irregulares. Por ser praticamente selvagem, o cultivo da planta é geograficamente limitado – e, não à toa, ela também um alvo e tanto dos efeitos do aquecimento global.  

O conhecimento ainda limitado e a produção precária ajudam a dar contexto para algumas frustrações de Sylvestre – que vão bem além dos fazendeiros. "A qualidade é desmotivada [pelo mercado]", diz. O especialista aponta que há uma cultura ao redor do cacau em que inovação e o investimento em melhores ferramentas são desencorajados em detrimento da produção de grandes volumes. "O plantio, o cultivo e os processos posteriores ainda são, em grande parte, feitos à mão", explica. 

 

Sylvestre Awono e sua Cacao-Trace propoem uma abordagem direta: o dinheiro. O programa, organizado pela Puratos, oferece treinamento para boas práticas de cultivo e fermentação das sementes do cacau – processo essencial da produção do chocolate. A cada quilo do doce vendido sob o selo do programa, as comunidades produtoras recebem 10 centavos de euro de volta. De pouco em pouco, o resultado pode se tornar significativo. "Esse bônus pode representar um a dois meses de salários extras", nos diz Sylvestre.

A esperança é que, com mais grana no bolso e maior eficiência na produção, o foco dos produtores seja a qualidade. É uma aposta válida, até porque, caso contrário, "o mercado do cacau vai continuar a ser um mercado de commodities em que o volume produzido é o principal motor", sugere o especialista. 

"Em 2017, nós conseguimos distribuir mais de 178 mil euros para as comunidades com quem trabalhamos no Vietnã e nas Filipinas. Em 2018, esse número subiu para 388 mil euros", contabiliza Sylvestre. Em 2018, a iniciativa rendeu os primeiros frutos na Costa do Marfim, cuja história com o desmatamento é particularmente tensa (desde a independência nos anos 60, o país perdeu quase metade de suas florestas para toda sorte de práticas predatórias). Os ganhos extras obtidos pelos fazendeiros através da parceria com a Cacao-Trace permitiram a construção de uma escola na vila de Abdoulayekro, no sul do país. "Ela será inaugurada ainda este ano", comemora Sylvestre.

Governos africanos e grandes empresas do setor começaram a firmar compromissos para sanar os impactos da produção do fruto a partir de 2017. Em conferência das Nações Unidas na cidade alemã de Bonn, realizada em março do mesmo ano, um conjunto de companhias que representam 80% do setor prometeram eliminar o risco às matas causado pelo cacau. O governo da Costa do Marfim chegou até a apresentar recentemente um plano envolvendo agroflorestas.

Resultado? A WCF observou que mais de um ano da iniciativa Cocoa & Forests Initiative, lançada em março de 2017 durante a conferência da ONU e assinada por 35 empresas, já surte efeito. Imagens de satélite apontam, por exemplo, que o desmatamento em parques nacionais e reservas florestais na Costa do Marfim começou a cair ano-a-ano. A situação, no entanto, não é a mesma em todo lugar. Segundo relatório da ONG Mighty Earth, divulgado em dezembro, a região sudoeste do país, não muito longe da nova escola em Abdoulayekro, segue na contramão da tendência: ela perdeu mais de 13,7 mil hectares (algo como 15 mil campos de futebol) de mata em 2018 por causa do cacau, uns 700 hectares a mais que em 2016.  Em outras palavras, muito trabalho ainda está pela frente.

Fonte oficial: GQ

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