Quem é o brasileiro que pretende escalar as 14 montanhas mais altas do mundo até 2021 – GQ

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O montanhista brasileiro Moeses Fiamoncini em uma selfie com o cume do Everest ao fundo (Foto: Reprodução/Instagram)

Na quinta-feira da semana passada (25), tivemos alguns problemas para conseguir falar com o alpinista paranaense Moeses Fiamoncini. Compreensível, já que ele estava descendo o K2, a segunda maior montanha do mundo, no Paquistão. O brasileiro havia atingido o cume de 8.614 metros naquela manhã, apenas dois meses depois de fazer o mesmo com o Everest, de 8.848 metros de altura – essa sim a montanha mais alta do planeta. Além delas, Fiamoncini subiu também o Manaslu (8.156 metros), no Nepal, e o Nanga Parbat (8.125 metros), no Paquistão. Tudo parte de um grande projeto em que ele pretende escalar as 14 montanhas acima de 8 mil metros existentes no mundo.

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“Encontrei um desafio do tamanho do meu sonho”, reflete o brasileiro ao falar da inspiração para o projeto, inédito para o montanhismo do Brasil. “A cada montanha que escalo, me torno mais forte mentalmente e o corpo já acostumado com a altitude se adapta melhor às próximas escaladas”, explica.

Veja como foi nosso papo sobre o projeto, as escaladas e as preparações física e psicológica para encarar desafios como lidar com a morte de companheiros durante uma subida.

GQ – De onde veio esse desafio?

Moeses Fiamoncini – A ideia de subir montanhas era um sonho de criança. Sempre fui apaixonado por estar onde outras pessoas não conseguem chegar e pela sensação de conexão com a natureza e comigo mesmo. O projeto de subir as 14 maiores montanhas do mundo, todas acima de 8 mil metros de altitude, foi uma ideia que tive ao ver meu desempenho em outras montanhas. Tenho vivido os últimos anos me dedicando ao montanhismo e notei que tinha boa capacidade física e mental para isso. Então, por que não fazer? Encontrei então um desafio do tamanho do meu sonho.

GQ – Como é para seu corpo encarar um cume logo após o outro em sequência?

Moeses Fiamoncini – É bastante puxado e complexo. Normalmente perco bastante peso e o desgaste das longas ascensões é grande. Por outro lado, a cada montanha que escalo, me torno mais forte mentalmente e o corpo já acostumado com a altitude se adapta melhor às próximas escaladas. Apesar de parecer desafiador, é muito gratificante!

Moeses Fiamoncini no Nanga Parbat, no Paquistão. Ele foi o primeiro brasileiro a chegar ao cume da nona montanha mais alta do mundo (Foto: Reprodução/Instagram)

GQ – O que é mais difícil, a preparação física ou a psicológica?

Moeses Fiamoncini – Sem dúvida a preparação psicológica. Para subir qualquer montanha é necessário os dois. Mas todos os montanhistas são bem preparados fisicamente, então o diferencial que irá determinar se você alcançará o cume ou não é o preparo psicológico. Há uma necessidade de lidar com as expectativas, a ansiedade e os receios de cada novo desafio.

GQ – Que tipo de treinamento físico você faz regularmente? Fez algum especial nos meses anteriores à temporada de escalada?

Moeses Fiamoncini – Costumo correr. Isso melhora muito minha capacidade respiratória e cardiovascular. O meu treinamento pré-temporada foi na montanha. Nada se compara a subir montanhas para treinar para novas montanhas.

GQ – Qual a sensação de estar quase no topo e, ao mesmo tempo, na zona mais perigosa de todas?

Moeses Fiamoncini – A melhor sensação do mundo. É o momento tênue entre o sucesso e a derrota onde estou usando toda minha capacidade física e mental e ao mesmo tempo forçando meus limites para chegar. Quando estou perto do cume, uma grande sensação de paz, conquista e realização me toma. Fico eufórico com a realização e imaginando que poucos brasileiros tenham conseguido tais feitos. Ao mesmo tempo, tenho que ficar alerta quanto ao meu corpo, às condições meteorológicas e ao trajeto. O cume é apenas metade do caminho e a grande quantidade de acidentes acontece na descida.

GQ – Essa temporada de subida ao Everest teve o maior número de licenças de escalada emitidas pelo governo nepalês (381) e consequentemente o maior número de mortes de alpinistas por conta do engarrafamento no pico em muito tempo (11). Em um relato à revista Época, você contou como foi perder dois companheiros. É possível se preparar para essas situações?

Moeses Fiamoncini – Não há uma preparação certa a não ser se conscientizar que tudo pode acontecer. Na montanha nos apegamos àquelas pessoas que estão conosco, do nosso lado, subindo, se dedicando e até nos ajudando. Ter a possibilidade de ver essa pessoa morrer é um choque grande, mas todos lá estão sujeitos a isso.

A tempestade de neve que pegou Moeses Fiamoncini e o chileno Juan Pablo Mohr quando desciam do cume do Everest – com ventos de 65 km/h (Foto: Reprodução/Instagram)

GQ – Foram os momentos mais difíceis até agora?

Moeses Fiamoncini – Foram diversos momentos, entre eles a tempestade que pegamos ao caminho do cume do Lotse, que nos forçou a voltar. Também foi difícil ter meu companheiro morto do lado de fora da barraca durante a tempestade no Everest. Esse é um momento com o qual a gente só sabe lidar quando acontece. Alcançar o cume do K2 sem oxigênio que foi um esforço físico muito grande também, ter os pés congelando…

GQ – O que te mantém motivado nessas horas?

Moeses Fiamoncini – O meu sonho. Desde o princípio sabia que grandes esforços seriam necessários para alcançar meus objetivos, então me concentro no que quero e penso que logo tudo de ruim irá passar. Pensamento positivo, tentando tirar o máximo dessa grande experiência.

GQ – Sua história deve inspirar algumas pessoas a começarem a escalar no Brasil. Mas você mesmo passa por dificuldades para conseguir um patrocínio, apesar de ser um dos melhores do país…

Moeses Fiamoncini – Escalar montanhas ainda é um esporte que engatinha no Brasil. É uma prática que não é barata e exige um investimento não só de equipamentos, mas também das licenças para escaladas e todo um preparo físico para conseguir os feitos. No país do futebol, escalar montanhas nevadas é algo quase esquecido. Mas estou aqui para colocar o Brasil no ranking dos melhores montanhistas do mundo. Para isso procuro patrocínios que viabilizem quebrar esses paradigmas.

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GQ – Que dica de ouro você daria para quem quer começar a escalar para encarar uma aventura dessas, então? Além de estar preparado para as adversidades da falta de investimentos.

Moeses Fiamoncini – Eu diria para não desistir dos sonhos. Foque no que quer e não deixe que nada atrapalhe seus objetivos. Comece fazendo um curso de escalada, trilha, faça uma travessia, passe alguns perrengues para se calejar. Depois disso comece na alta montanha. O mais importante para quem quer começar é se conhecer. Conhecer seu corpo e como ele reage a situações extremas. No final, tudo é possível!

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Fonte oficial: GQ

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