Rael usa a música como escudo contra as ‘bad vibes’ – GQ

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Rael (Foto: João Wainer)

Rael precisava de um tempo para tomar um chá e deixar o tempo passar. Enfrentando um período depressivo, o músico buscou refúgio nas plantas para superar um período depressivo e voltar a compor. Do ato de regar e mexer com a terra, surgiu a inspiração para Capim-Cidreira, quarto álbum de estúdio do rapper, já presente em todas as plataformas de streaming. Uma dose de calmaria em tempos amargos.

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“Não tinha como o disco ter outro nome”, diz Rael em papo com a GQ.  “E acho que ele reflete na sonoridade dele. É um álbum solar, da natureza. Bem good vibes”, completa o músico, orgulhoso da mistura que promoveu no disco: algo que transita entre o rap, o reggae, o pagode, o pop e ritmos africanos, como o afrofusion.

“Eu tenho percebido, sabe, que está rolando muito trap. Esses dias eu vi sertanejo com som de trap. Muito artista repetindo o mesmo timbre. Eu pensei: “mano, se fulano fizer trap, sicrano fizer trap e eu também fizer trap, vai ficar todo mundo trepado” (risos). Eu preferi me apegar a outros ritmos”, brinca.

A leveza de espírito do músico ao responder às perguntas também é ouvida no álbum, repleto de beats suaves. Rael está em paz – e por causa da música. “Eu tive só um pequeno traço de depressão, mas sinto que eu precisava passar por isso para aprender. E precisava até para concluir o processo de produção deste disco. As palavras curam”, reflete.

Confira abaixo a conversa na íntegra:

GQ Brasil: Rael, eu queria começar a nossa conversa pelo título do disco. Assim como o chá, Capim-Cidreira é um álbum de sonoridadade bem suave, agradável. A sua intenção desde o início era fazer um disco mais leve?

Rael: Bom, vamos lá. Preciso voltar desde o comecinho da ideia. Esse trabalho seria dirigido pelo (Carlos Eduardo) Miranda. Como ele veio a falecer (em 2018), eu me vi na responsa de produzir o disco. Aí eu pensei: “mano, para produzir o disco, eu preciso turbinar o meu estúdio”. Nisso, eu comecei a pensar num nome para ele. E aí a gente vê o poder da palavra. Comecei pensando em dar o título de “horta”, por ser o lugar onde eu semeio as minhas ideias. Nessa ideia de “horta music”, “estúdio horta”, eu acabei me animando com o conceito e fazendo a minha própria hortinha num pedacinho de terra em frente ao estúdio. Isso me conectou à natureza e ao universo das plantas. E me fez ir lá atrás e resgatar uma memória da infância. Lembrei que minha vó me dava chá de cidreira quando eu era pequeno. Ela fazia isso quando a criançada ficava muito agitada  – eu tomava e ficava na moralzinha. Como passei por esse período de luto e de depressão, acho que era isso que eu precisava na época. Até pesquisei na internet e vi que o capim-cidreira tem propriedades antidepressivas, além de antioxidantes e relaxantes. Não tinha como o disco ter outro nome. E acho que ele reflete na sonoridade dele. É um álbum solar, da natureza. Bem good vibes.

GQ Brasil: Você falou que o disco te ajudou a superar a depressão. Você acredita no poder de cura da música?

Rael: Acredito, sim, cara. E acredito no poder de cura da palavra. Eu até falo em Sempre que “as palavras podem te curar”. Um exemplo: antes de ouvir Racionais, eu tinha oito anos e já estava conformado com a minha falta de autoestima. Se um cara me chamava de “neguinho do pastoreio” (lenda afro-cristã, importante no folcore brasileiro) eu não sabia como respondê-lo. Eu aprendi com Racionais Mc’s a gostar de mim. A música deles me curou. Tento fazer o mesmo com a minha música. Já recebi depoimento de uma menina que apanhava do pai alcoólatra e ouviu a minha música Ser Feliz, tomou coragem, e convenceu a mãe a procurar uma casa em outro estado. Hoje, a menina tá trabalhando num lugar legal e a mãe voltou a estudar. Eu realmente acredito que o amor funciona muito através da música.


Rael (Foto: João Wainer)

GQ Brasil: Um estudo recente do Ministério da Saúde apontou que o índice de suicídio entre jovens e adolescentes negros está crescendo no Brasil e hoje é 45% maior do que entre os brancos. Dentro desse cenário, você acredita que é importante um artista como você falar sobre bad vibes?

Rael: Eu sei da minha responsabilidade. Decidi falar abertamente sobre o assunto (depressão). A gente tem que desmitificar o assunto. É um problema que sempre existiu, mas as pessoas evitavam chamar pelo nome. Acho importante a gente falar sobre depressão para não dá achar que remédio e terapia vão fazer milagre. A gente tem que cuidar de todas as partes da vida. A questão social leva as pessoas à depressão. Se as pessoas não tiverem acesso ao básico, fica difícil.

GQ Brasil: Você acredita que, sendo solar e para cima, o disco pode ajudar pessoas que estão sofrendo com as bad vibes?

Rael: Eu sei que cada pessoa é uma pessoa. O que eu posso dizer é que eu precisava me acalmar. Minha vida estava muito acelerada. Por isso, o capim-cidreira. Às vezes a gente tá muito ligado nas coisas que deixam a gente para baixo e perde a conexão com o que nos faz bem. A natureza, com certeza, é uma delas. Mexer com planta me deixou bem menos ansioso. Não adianta querer acelerar o processo. Com a planta, é um dia de cada vez. Assim como ela tem o tempo dela, eu também tenho que ter o meu. Para lidar com a vida e com as minhas próprias questões.

GQ Brasil: Você diria que superou a depressão?

Rael: Sim, graças a Deus. Mas me mostrou que eu não sou de ferro. Que eu preciso cuidar de mim, que só trabalhar não faz bem. Eu tive só um pequeno traço de depressão, mas sinto que eu precisava passar por isso para aprender. E até para concluir o processo de produção deste disco. As palavras curam. 


Rael (Foto: João Wainer)

GQ Brasil: Flor de Aruanda, primeiro single do álbum, tem tocado bastante em algumas rádios de São Paulo. Era um objetivo seu tocar na FM? Para você, o quão importante é o rap ocupar esse espaço?

Rael: Acho importante para mostrar que existe todo tipo de música no Brasil. Acho legal ter a parada do rap, da rima, da voz da rua. Eu nem imaginava que poderia tocar um dia na rádio. Mas todo mundo sonha, né? A partir de Envolvidão, eu tive certeza que eu ocuparia esse espaço.

GQ Brasil: Você chega a compor pensando no público radiofônico? Seu som é bem palátavel.

Rael: Não, eu vou simplesmente fazendo, cara. Geralmente, eu começo pensando na batida. Depois que tá pronta a batida, você tenta entender o que ela tá querendo dizer. Depois de todo o processo, é que você pensa: pô, talvez essa possa funcionar no dial

GQ Brasil: Por falar em rádio, você repete em Beijo B uma parceria com o Thiaguinho que a gente já tinha visto no Rael Convida. Como essa troca com outros artistas num canal de Youtube tem influenciado a sua música?

Rael: No caso do Thiaguinho, eu acho que foi natural. Eu cantei com ele na Tardezinha. Eu vejo como uma conversa entre dois ritmos. Eu acredito que Beijo B ficou uma parada que nem é a do Thiaguinho e nem a minha. Nós criamos, juntos, uma coisa nova e é isso que eu curto. Com o Melim (presente em Só Ficou o Cheiro), foi a mesma coisa. Eu conheci os caras e achei eles bem good vibes. Como o disco também é, acabou rolando o convite. Eu não gosto de colocar música em caixinhas. Nunca fui de segregar ninguém. Sempre gostei de misturar ritmos no meus discos.


Rael (Foto: João Wainer)

GQ Brasil: Você já tinha gravado Oya com o Péricles e o Emicida. Qual a importância do pagode na sua formação musical?

Rael: Foi o pagode que me mostrou que eu sabia cantar. Cantando com os meus amigos, na brincadeira, eu percebi que tinha uma aptidão para encaixar a minha voz nas notas. A partir daí, eu comecei a cantar Racionais e Sampa Crew na escola e a minha história se desenvolveu. Já são 20 anos. Mas foi cantando a música Bonança, do grupo Malícia, que eu descobri o meu dom. (Cantarola o verso: “mágoa curtida sempre traz a dor…”).

GQ Brasil: Ainda sobre as influências, você visitou Angola, Zimbábue e Tanzânia antes de gravar o álbum. O que você trouxe dessas viagens para a sua música?

Rael: Eu trouxe Beijo B, Bença Mãe, Sempre… Todas essas músicas vieram da viagem. Elas bebem da batida africana, afro-fusion, aquela coisa Fela Kuti. Eu tenho percebido, sabe, que está rolando muito trap. Esses dias eu vi sertanejo com som de trap. Muito artista repetindo o mesmo timbre. Eu pensei: “mano, se fulano fizer trap, sicrano fizer trap e eu também fizer trap, vai ficar todo mundo trepado” (risos). Eu preferi me apegar a outros ritmos. Na África, tem muita diversidade de sons e de dança. Quando você viaja, acaba se conectando com a música, né? Vai num lugar e vê um grupo de dança. Eu senti uma energia muito forte da percussão africana no ar. Aquilo vai ficar na minha cabeça para sempre.

GQ Brasil: E, para finalizar, eu preciso te perguntar: Greenga conta a história de um flerte real?

Rael: Em 2008, eu fiz a minha primeira turnê internacional na França. Eu e os moleques, cheios de hormônios e coragem, chegávamos nas minas durante a viagem e elas não entendiam nada. Às vezes, o bagulho dava certo (risos). Mas era isso. Não cheguei a pensar numa pessoa em especial. Só na situação do imigrante, perdidão, sem saber o que fazer. É assim o que eu funciono: às vezes só uma referência, uma história que eu ouvi falar, me inspira a escrever. E aí vai.

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Fonte oficial: GQ

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