Rainer Cadete reflete sobre paternidade e fala sobre racismo: “sentir através do meu filho me ensinou que a luta continua” – GQ

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Nome: Rainer Cadete
Profissão: Ator
Rede social: @rainercadete
Nomes do filho: Pietro, 12 anos.

“Meu filho é um menino muito bem-humorado que encara a diversidade como oportunidade de superação”, diz Rainer, pai de Pietro, 12 anos. Todos vestem Hugo Boss. (Foto: Demian Jacob e acervo pessoal (polaroide))

O que é ser pai hoje?

Esse pergunta é muito interessante, pois nos remete à temporalidade e ser pai é algo para sempre. Creio que é uma metamorfose extraordinária. Acompanhar o crescimento dos filhos neste tempo é uma construção diária. Ao assumir a paternidade, a meu ver, não adianta se obrigar a cumprir um padrão, uma conduta que não corresponda à sua realidade interior, suas próprias crenças e valores. Afinal, filhos necessitam de uma referência, do exemplo dos pais. Assim, é necessária uma boa dose de autoconhecimento, pois bons exemplos provêm de boas atitudes. Não adianta apontar um caminho ou impor um limite se não agirmos de forma coerente. Aquela história do “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” é um desastre. Ninguém suporta incoerência e ambiguidade. Para ser pai é preciso, no mínimo, ser autêntico.

O que a paternidade mudou em você e na sua vida?

Muita coisa. Costumo dizer que sempre fui uma alma livre, mas o Pietro é a minha raiz. Eu adoro voar, mas amo pousar ao seu lado. Acho que a maior mudança é a de valores. A chegada do meu filho me trouxe uma visão de que nada é mais importante do que a família. E quando digo família não falo apenas do modelo tradicional, com mãe, pai e filhos. Eu falo sobre todos os arranjos familiares possíveis.

Rainer Cadete (Foto: Demian Jacob)

O que aprendeu com o seu pai?

Na verdade, eu me aproximei do meu pai já adulto. Minha mãe sempre foi a minha referência. Ela se separou e fomos viver fora do Brasil, onde mantive uma relação distante com o meu padrasto, mas sempre muito forte com a minha mãe. Com o passar dos anos, eu fui me aproximando do meu pai, um dos primeiros médicos do Distrito Federal, e este encontro tem sido bastante importante para conhecer o âmago da minha coexistência. Sinto a admiração do meu pai pelo homem que eu me tornei. E isso é impactante para mim.

O que aprendeu com seu filho?

Pietro é um menino muito bem humorado, alegre e que encara a diversidade como oportunidade de superação. O meu filho é um príncipe negro. Eu sempre soube da existência do racismo, mas sentir de perto através do meu filho me ensinou que a luta continua de fato. Eu e muitos brasileiros fomos criados por uma cultura extremamente racista. Nos ensinaram que o negro foi escravo, sendo que foram escravizados; tirados de seu país de origem. Falávamos até pouquíssimo tempo palavras racistas como ‘denegrir’ e ‘mulata’. Isso tudo eu aprendi mais velho e não na escola. Aprendi com os 6 anos de relacionamento que tive com a mãe dele, que é uma mulher negra. Agora, eu continuo estudando e aprendendo junto com o meu filho. Racismo tem que ser estudado porque precisa acabar. Através do meu filho, eu concluí que a escravidão é o maior crime da humanidade. E, como pai, eu me inspiro nas palavras da poeta Cora Coralina: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

O que você faz hoje como pai que o seu pai não fazia antigamente?

Como disse, comecei a conviver com meu pai mais na fase adulta, mas é óbvio que as relações mudaram. Não só pelos avanços tecnológicos, mas também pela evolução comportamental, muitos paradigmas foram superados. Uma coisa que faço questão é dar as primícias de meu tempo para o meu filho. Quando estou com ele, só ele importa.

Você acha que pai e mãe têm funções diferentes? Por quê?

Eu nem digo funções, mas comportamentos. São complementares. Hoje aquela divisão tradicional de responsabilidades determinadas não existe mais. Precisamos estabelecer uma dinâmica de compromisso com nossos filhos. Orientando-os conjuntamente com a visão e os valores que cada um possui. É fundamental darmos um sentido de acolhimento e pertencimento aos nossos filhos.

Além do seu pai, quem mais te inspirou para ser o pai que é hoje?

Minha mãe Ronalda. Uma guerreira, mulher extremamente determinada a não permitir que ficássemos à margem do que sonhávamos. É um grande exemplo de superação e dedicação à família.

Do que você mais se orgulha na criação do seu filho?

Da cumplicidade que nós temos. Tento mostrar para ele que nada é apenas o que parece ser e que precisamos compreender que a finalidade da nossa existência não está restrita a nós mesmos. Essa diversidade na vida do Pietro é algo que me dá muito orgulho. Ele já tem noção de algumas diversidades, auxílio nas ferramentas necessárias para ele se proteger.  Na infância, ele perguntou sobre a diferença em nossa pele e respondi: “Todos nós somos iguais e diferentes”. Pietro não ficará imune à esta luta cruel que é o preconceito racial. Eu luto e desejo, do fundo meu coração, que meu filho cresça num país mais igual e digno.

Na sua opinião, que tipo de pai você diria que é?

Sou um pai presente, que traz o diálogo como base da construção, explico ao invés de impor, tento vivenciar genuinamente o que acredito na educação de meu filho. Também sou um pai coruja, me orgulho muito da evolução de meu filho em toda sua essência pessoal e coletiva.

Um conselho para um pai de primeira viagem:

É claro que o adulto tem mais experiência e compreende melhor aspectos ainda não acessíveis a uma criança ou adolescente. Mas quem faz questão de tornar evidente esta diferença, discriminando a capacidade do próprio filho em crescer e desenvolver-se, sustentará uma relação de insegurança. Precisamos ser menos ansiosos nas etapas de crescimento de nossos filhos. Óbvio que a aplicação de limites é necessária, mas da mesma forma que atenção, amor e incentivo são atitudes também vitais para o desenvolvimento da personalidade. A noção de limite é o complemento para o equilíbrio.

Fotos: Demian Jacob | Styling: José Camarano
Rainer veste BOSS

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Fonte oficial: GQ

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