Saída de “depressão debilitante” ajudou A. J. Finn a escrever o best seller “A Mulher na Janela” – GQ

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Quando o editor e crítico literário Daniel Mallory resolveu escrever o seu primeiro romance sob o pseudônimo de A. J. Finn, não imaginava que este já seria um best seller, “Eu estava, e continuo, muito chocado”.

O suspense A Mulher na Janela narra a história de Anna Fox, uma psicóloga que se vê presa em casa com agorafobia depois de um grande trauma. O livro é uma homenagem explícita a Alfred Hitchcock e o seu Janela Indiscreta, Anna espia os vizinhos pela janela e, é claro, algo de muito estranho acontece.

O sucesso foi tanto que os direitos do livro já foram vendidos para a Fox e o filme já toma forma com Amy Adams como protagonista, “primeira e única escolha” do autor para o longa, que ainda terá Julianne Moore e Gary Oldman no elenco.

Capa do livro A Mulher na Janela, de A.J. Finn (Foto: AJ Stetson )

Confira a entrevista exclusiva com o escritor Daniel Mallory, ou A.J. Finn, para a GQ.

GQ: Como foi sua transformação de editor e crítico literário em autor? Você consegue perceber aspectos da arte de escrever que não via antes? Quais?
Daniel Mallory: Eu não me envolvia com ficção desde os tempos de escola, mas escrevia inúmeros artigos acadêmicos e resenhas de livros, além de textos editoriais. Então, acreditei, ao desenvolver a história de A Mulher na Janela, que os detalhes da composição das frases – a escrita propriamente dita – não representariam nenhum problema; era a caracterização e a trama que me assustavam. Para minha surpresa, Anna tomou forma muito rapidamente, como uma figura surgindo da névoa, trazendo com ela sua história praticamente intacta. E foi a escrita que se mostrou desafiadora! Acontece que simplesmente levar um personagem do sofá para a janela pode, na verdade, ser um negócio bem complicado.

Além disso, minha vida mudou significativamente em alguns aspectos: não trabalho mais como editor, então é minha responsabilidade estruturar meus dias. Agora também passo a maior parte do tempo viajando. Sinto falta dos meus colegas e da segurança de uma rotina do meu trabalho diário, mas esta é uma emocionante nova aventura.

GQ: Você esperava tanto sucesso com o livro? Como é ter seu primeiro romance virando um best-seller?
Daniel Mallory: Eu estava, e continuo, muito chocado. Eu esperava que os leitores descobrissem A Mulher na Janela, mas nunca imaginei que eles a abraçariam tão generosa e apaixonadamente. Como ex-editor, sei que poucos livros desfrutam desse tipo de recepção, então, me sinto profundamente grato aos meus leitores.

GQ: Você acredita que sua experiência com edição e crítica o ajudou a escrever um best-seller?
Daniel Mallory: Certamente, minha experiência tanto como editor quanto crítico literário me ajudou a refinar o livro enquanto o escrevia – mas o que se mostrou especialmente útil foi ter passado tanto tempo lendo: quando criança, como estudante de pós-graduação e como editor e crítico profissional. Eu sempre aconselho aspirantes a escritores a lerem o máximo possível. Fazer isso expõe você a uma variedade de vozes, técnicas e ideias, e eu me beneficiei enormemente disso.

O escritor A.J. Finn, ou Dan Mallory (Foto: AJ Stetson )

GQ: O livro é uma homenagem a Alfred Hitchcock?
Daniel Mallory: Definitivamente, sim. Durante minha adolescência, havia um cinema de arte na minha rua, e eu acampava lá todo final de semana. Os gerentes organizavam noites de filmes antigos, retrospectivas de filmes noir, maratonas de Hitchcock… e eu me deliciava com tudo aquilo! Eu adoro o visual, o tom e o ritmo dos filmes mais antigos, incluindo os de Hitchcock: eles são estilosos, sofisticados; eles passam muito tempo só estabelecendo os personagens e construindo o suspense. Por outro lado, os filmes modernos avançam em um ritmo rápido demais e parecem ter sido filmados e editados sem muito cuidado ou habilidade.

O trabalho de Hitchcock, em particular, afirma para mim o valor e o impacto da contenção, da sugestão. Ele e seus colegas reconheceram que a mente é um playground muito mais dramático e sinistro para nossos medos do que qualquer coisa que pudessem projetar na tela. Espero que A Mulher na Janela – que evita conteúdo gráfico e violência explícita – seja um livro que Hitchcock gostaria de adaptar para as telas.

GQ: Quando o escreveu, você tinha ideia de que o livro poderia se transformar em um bom filme?
Daniel Mallory: Eu não tinha ambições para mim ou para o livro, além de escrever FIM na conclusão do último capítulo. Tudo o que aconteceu desde então – ofertas de livros em 41 idiomas, encabeçando listas de best-sellers ao redor do mundo, o filme entrando em produção – tem sido uma surpresa agradável atrás da outra. Dito isso, sinto que o livro se presta muito bem ao cinema: ele é sustentado pelo diálogo e a ação é organizada como uma série de cenas, muito parecida com um filme mesmo.

GQ: Você participou das decisões sobre o filme (atores, diretor e tudo mais)?
Daniel Mallory: Os executivos da Fox – o estúdio por trás do filme – se esforçaram para me incluir e me envolver, sempre me levando para Los Angeles para que eu pudesse me reunir com a equipe e, várias vezes, trazendo a equipe para Nova York para nos encontrarmos. Mas eu não estou escrevendo o roteiro – a roteirista de cinema é Tracy Letts, que ganhou um Pulitzer pela peça Um Quente Agosto, que virou o filme estrelado por Meryl Streep e Julia Roberts.

A Fox me perguntou quem eu queria ver no elenco principal. “Amy Adams”, eu respondi imediatamente. E então o estúdio fez um acordo com ela.

Eu estou entusiasmado com todo o talento envolvido no filme, desde o diretor, Joe Wright (A Hora Mais Negra, Expiação, Orgulho e Preconceito); passando pelo elenco de apoio, incluindo os vencedores do Oscar Julianne Moore e Gary Oldman; pelo produtor, Scott Rudin (A Rede Social, Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, Este País Não É para Velhos); ao diretor de fotografia, um lendário francês chamado Bruno Delbonnel (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain).

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GQ: E por que Amy Adams para interpretar Anna Fox?
Daniel Mallory: Amy Adams foi minha primeira e única escolha para o papel. Mais do que qualquer outra protagonista do cinema de língua inglesa, Amy é reconhecidamente humana e sensível. Ela é uma Sandra Bullock, no sentido de ser instantaneamente simpática; ela é uma Meryl Streep, na sua diversidade e talento. Acho que ela vai trazer certo fervor, garra e vulnerabilidade para Anna.

Também estou muito satisfeito que uma atriz com idade apropriada a interprete. Eu definitivamente não queria ver uma mulher com menos de quarenta anos no papel.

O escritor A.J. Finn, ou Dan Mallory (Foto: AJ Stetson )

GQ: Sua personagem vive uma grande tragédia e seu sofrimento está além da imaginação de quase todos. Você sentiu todo esse sofrimento escrevendo o livro?
Daniel Mallory: De certo modo, sim. Eu lutava contra uma depressão debilitante desde os meus 21 anos (fiz 39 há algumas semanas); embora as circunstâncias da dor da Anna sejam muito diferentes das minhas, elas se comparam em intensidade.

Meu diagnóstico não foi corrigido até o verão de 2015, quando eu soube que sofria de uma forma de transtorno bipolar – bipolar 2.0, para ser exato, que se parece muito com a depressão clássica, mas não responde ao mesmo tratamento. Assim que a medicação foi ajustada, senti uma melhora significativa… e foi aí que comecei a escrever o livro. Eu queria contar a história de uma pessoa alquebrada por uma doença mental; eu também queria mostrar que as pessoas que lutam com questões de saúde mental também merecem nossa empatia e cuidado, e ainda podem contribuir de maneira útil para a sociedade.

Então, escrever A Mulher na Janela foi, em muitos aspectos, uma experiência terapêutica para mim. Eu sinto que Anna e eu andamos de mãos dadas em direção a um futuro melhor para nós dois.

GQ: Por que agorafobia? Como você escolheu especificamente essa doença?
Daniel Mallory: Muitos leitores não têm experiência direta com a depressão, então pode ser difícil para eles se relacionarem com uma pessoa que está lutando contra essa doença. (Durante toda a minha vida adulta, fui aconselhado por amigos bem-intencionados, mas desinformados, de que eu deveria simplesmente “sair dessa”, o que indica como é difícil entender a vida interior de uma pessoa com um transtorno de humor.) No entanto, a maioria das pessoas provavelmente pode imaginar como é ficar preso dentro de si mesmo. Portanto, a agorafobia dá ao leitor uma forma de acessar a Anna.

E também porque me pareceu um desafio técnico interessante – não li muitos livros que acontecem quase inteiramente em um único cenário. Por outro lado, há muitos filmes em apenas um local, e Hitchcock se especializou em filmes como: Janela Indiscreta, A Corda, Disque M Para Matar, Um Barco e Nove Destinos… Ao prestar essa homenagem a Hitchcock, achei que poderia seguir seus passos.

Fonte oficial: GQ

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