“Saio de casa para trabalhar como quem vai para uma festa”, diz Luis Lobianco – GQ

9

Luis Lobianco é cria dos palcos. Bem jovem, aos 11 anos, ele conheceu a emoção de se apresentar ao público do teatro. “Acho que foi a coisa mais intensa e prazerosa que fiz na vida. Vivo para reproduzir aquele momento”, conta à GQ. O ator, que chegou a caminhar durante 4 horas todos os dias para se apresentar, hoje é um astro da televisão e da internet (Lobianco é ex-Porta dos Fundos). Com 36 anos, atualmente ele interpreta um dos personagens mais engraçados da novela das 21h e carrega a responsabilidade de arrancar risos do telespectador depois de um dia cansativo no trabalho. “Só não abro mão de que o meu humor seja engraçado!”, confessa.

+ Chay Suede sobre redes sociais: “Tento ser espontâneo, posto o que me dá vontade”
+ Para Marcos Pasquim, hoje em dia o galã não precisa mais ser perfeito
+ Marco Pigossi sobre novos desafios: “O glamour para mim é a parte chata”

Além de fazer parto elenco de ‘Segundo Sol’ junto de Emilio Dantas, Lobianco também entrará em cartaz este mês com sua peça Gisberta na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, rodou o filme Carlinhos e Carlão, de Pedro Amorim, com previsão de estreia para 2019, e logo depois vai engatar na nova série da Globo, Shippados. Exausto? Essa palavra não existe no vocabulário do ator. “Saio de casa para trabalhar como quem vai para uma festa”, brinca.

Batemos um papo com Lobianco sobre carreira, desafios e intimidade. Abaixo, você lê a entrevista completa:

GQ: A sua homenagem no Instagram feita com imagens de Lulu Santos, Nanda Costa e Daniela Mercury foi notícia em vários portais. O que sentiu ao fazer a postagem?

Luis Lobianco: Antes de fazer a homenagem naquele dia, eu já aparecia como notícia em vários portais. As reportagens diziam que eu “saí do armário” encorajado por Lulu Santos, mas só depois disso fiz a postagem para dizer que não “saí do armário” porque nunca estive dentro dele (risos). Nunca fiz da minha orientação um assunto, não por ter algo a esconder sobre minha sexualidade, mas porque gosto de ser discreto com relação à minha vida pessoal.

Acredito que, na arte, a obra deve aparecer mais que o artista. Minha vida amorosa nunca dependeu do consentimento de ninguém. Ao mesmo tempo reconheço que em tempo de intolerância é importante que pessoas LGBTQI+ se sintam representadas por quem tem destaque nas artes. Me juntei a Daniela, Nanda e Lulu como forma de reafirmação. Ali eu digo que, talvez, um dia nossa orientação e amores não importem tanto. Só que, até lá, é importante que o público LGBTQI+ se veja. Isso enche de esperança o coração de pessoas que a vida inteira foram apontadas como “anormais” e são colocadas à margem da sociedade.

GQ: Você recebe comentários homofóbicos nas redes sociais? Como você lida com isso?

Luis Lobianco: Poucos, mas recebo. Tenho ao meu lado pessoas que acompanham o meu trabalho com carinho. Alguns estiveram na minha primeira peça de teatro há 24 anos. Nos últimos anos realizei projetos no teatro e cinema com a temática LGBTQI+ e quem está nas minhas redes segue com empatia. Como não tive uma carreira meteórica (que atrai um público curioso por fama) e não respondo haters, o ódio não ecoa.

GQ: Antigamente, os atores tinham receio de se assumir gay por medo de perder o papel em alguma novela ou por perder a imagem de “machão” na novela. Por que você acha que isso acontecia?

Luis Lobianco: Porque o Brasil é um país homofóbico e só agora estamos lidando com isso. O mercado não acolhe o ator galã gay porque entende que esse arquétipo de virilidade não pode ser vivido por um “traidor do gênero”, por melhor que seja a atuação desse artista. Um contrassenso, já que a arte do ator é justamente ser o que não é. Nas condições que trabalhamos, atores omitem suas orientações sexuais para não deixarem de trabalhar ou para não ficarem expostos a um tipo de imprensa que se interessa por revirar as gavetas alheias. Isso tem mudado porque há expansão do mercado audiovisual para várias plataformas e os debates sobre gênero e orientação estão avançando. A temática LGBTQI+, que não explora só esteriótipos, é cada vez mais lucrativa e há um público empático em formação. As séries Sense8, Rupaul’s Drag Race, Nannette e o programa Amor & Sexo são exemplo disso.

Minha vida amorosa nunca dependeu do consentimento de ninguém”

Luis Lobianco

GQ: Mudando para carreira, como foi dar um tempo no Porta dos Fundos para se dedicar à novela? Sente saudade da internet?

Luis Lobianco: O Porta [dos Fundos] mudou a minha vida. Até então eu só fazia teatro trabalhando nas condições precárias que o segmento é tratado pela política. Quando completei 30 anos, eu já fazia teatro há 19 anos e não tinha dinheiro para pagar a passagem de ônibus até o ensaio. Cheguei a caminhar durante 4 horas para ir e voltar (da Lapa à Lagoa) e poder trabalhar. Com o Porta o meu trabalho ganhou maior alcance e passei a ser chamado para o cinema e TV.

Desde o primeiro vídeo que gravei, antes do canal estrear e estourar,  ganhei um cachê justo pelo meu trabalho. Depois fui contratado e lá fiz vídeos, séries, filmes com gente extremamente talentosa e competente e, sobretudo, fiz amigos pra vida inteira! Por eles fui valorizado, respeitado e dignificado como artista. Sinto saudades da convivência diária e sei que tenho ali uma porta aberta. Sempre que dá, estamos juntos. 

GQ: Você acha que o humor sempre vai estar dentro de tvocê e nos seus personagens?

Luis Lobianco: O humor é inerente ao meu trabalho, mas tenho buscado humanizar cada vez mais meus personagens. Me interessa mais o humor que causa empatia e até emociona do que a piada que não conta história nenhuma. Só não abro mão que o humor que busco seja engraçado!

GQ: Você se sente mais livre para criar na internet, na TV ou no teatro?

Luis Lobianco: Sempre achei que o teatro era o território mais livre do mundo e ouvia que a TV impunha limites ao artista. As experiências que tive no último ano me mostraram o contrário. Com o meu monólogo, Gisberta, tive uma forte reação contrária ao projeto. A peça é um sucesso de público, mas havia um ruidoso grupo que protestava contra as temporadas na porta dos teatros e na internet, pedindo que eu encerrasse as apresentações. Fiquei abalado fisicamente e emocionalmente com a violência dirigida a mim e ao público.

Foi com o início dos trabalhos na novela que me reergui. Encontrei uma equipe forte em Segundo Sol, fui acolhido e abraçado por muitos novos colegas. Recuperei minha saúde, emagreci 25 quilos e acho que a popularidade do meu personagem é reflexo da gratidão que tenho por esse encontro. Saio de casa para trabalhar como quem vai para uma festa e me sinto plenamente reestabelecido para retomar o monólogo. Na internet, o cuidado é em como lidar com tanta liberdade. O que passei com a peça mostra que tem quem use o mundo virtual para debates vazios e cheios de ódio. Isso é o avesso do exercício de liberdade. Mas há quem aproveite a plataforma para agir e criar. O Porta dos Fundos, por exemplo, é um grande momento de ação conjunta entre artistas.

Luis Lobianco ao lado de José de Abreu em "Segundo Sol" (Foto: reprodução)

GQ: Você sente uma responsabilidade social como ator que levanta a bandeira gay?

Luis Lobianco: Tenho responsabilidades por ter tido a chance de conquistar um espaço onde pouquíssimos tem a oportunidade de sequer sonhar em estar. Mesmo com as dificuldades que enfrentei por não ser o padrão hétero-magro-galã e não pertencer a uma família da elite intelectual ou social, ainda assim, sou um privilegiado se pensamos nas estruturas sociais injustas que se perpetuam no Brasil. Mas tenho a consciência que minha responsabilidade é na arte.

Não sou acadêmico e nem tenho aspirações políticas. Meu papel é me comunicar com o público e defender os projetos que acredito. Falar sobre diversidade nos meus trabalhos é inerente a mim. Minha bandeira está mais no que produzo como arte e menos em falas de debate e textões. Hoje há muita dificuldade em separar o que é faz de conta e realidade. Parece que as pessoas estão perdendo a capacidade de entender que o artista não pensa como o personagem e que o ator é um corpo neutro. Tudo precisa vir com manual de instruções. É uma época perigosa para artistas.

+ “Sou tímido com as mulheres”, diz Pablo Morais, o sedutor de ‘Segundo Sol’
+ Emilio Dantas não se vê como galã
+ Troye Sivan: o cara que usa música e moda para falar sobre amor

GQ: Qual mensagem você está tentando passar com o Clovis para o público?

Luis Lobianco: Clóvis é um personagem cômico inserido em contexto familiar extremamente dramático. Meu desafio é torná-lo o mais humano possível, dar a sensação de que ele é real. O melhor caminho é sempre estudo é concentração. Eu me preparo muito para chegar inteiro no estúdio. Chorar muito quando o Clovinho é enganado e colocar toda energia que posso quando ele está pleno de alegria e humor. É uma daquelas pessoas extremamente íntegras, transparentes e positivas que muitas vezes são usadas por quem não tem escrúpulos. Um prato cheio para o ator já que vibra no trágico e no cômico.

GQ: Sobre o seu novo filme Carlinhos e Carlão, como é estar do outro lado, na pele do preconceituoso e homofóbico?

Luis Lobianco: É uma forma de exorcizar esses fantasmas. Já fui vítima de preconceito e se vestir da intolerância para deixá-la exposta é libertador! Esse cara que interpreto no filme já apareceu algumas vezes na minha vida com muitas faces diferentes. Exercia um poder de intimidação que me paralisava. Hoje eu, literalmente, estou na posição de protagonista dessa narrativa e faço questão de apresentar esse homofóbico como um babaca. Esse é o poder que a arte me deu para reverter uma dor. E nisso, muita gente vai lavar a alma comigo!

GQ: Ser protagonista de um filme pela primeira vez dá o mesmo nervosismo do que subir no palco pela primeira vez?

Luis Lobianco: São desafios diferentes. O teatro é tudo ou nada, um pulo de paraquedas. Pisei no palco pela primeira vez aos 11 anos de idade e lembro até hoje. Acho que foi a coisa mais intensa e prazerosa que fiz na vida. Vivo para reproduzir aquele momento. No cinema há um tempo de preparação e a gente pode fazer muitas vezes. A responsabilidade está no fato de que o protagonista dita o ritmo de uma equipe enorme. É preciso estar sempre disponível, atento a todos e preparado fisicamente pra uma jornada intensa de trabalho. Você é um agente de motivação. Há também as expectativas de bilheteria e repercussão, obviamente torcemos pelo melhor, mas procuro me concentrar na demanda artística.

Luis Lobianco durante as gravações de "Carlinhos e Carlão" (Foto: Divulgação / Downtown Filmes)

Fonte oficial: GQ

​Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Sixth Sense.

Comentários