Ser pai e DJ ao mesmo tempo me fez ficar 7 anos longe do meu filho – GQ

11

Quem curte as festas eletrônicas de São Paulo conhece bem George Actv. Desde os anos 90 ele troca o dia pela noite se apresentando em casas noturnas e festivais de música. Nesta conversa emotiva, George conta como dividiu seu tempo como artista da noite com a vida de pai, além de relembrar as dores do divórcio que culminou na distância de um continente entre ele e seu filho Fernando, hoje com 21 anos.

+ 5 artistas brasileiros que você pensou que fossem gringos
+ A história de Duncan Jones, o filho de David Bowie

Embalado pelas batidas

George sempre foi atraído pela música e cresceu ouvindo trilhas de desenhos animados, filmes, novelas, programas musicais e, claro, discos. “Lembro de ver minhas primas mais velhas colocando os discos na vitrola e ouvindo Michael Jackson, Madonna, Prince, etc. e em como nos divertíamos dançando e ensaiando as coreografias dos clipes. A outra parte da família, que escutava MPB, Caetano, Gilberto Gil, Djavan, Rita Lee, Ney Matogrosso, Jorge Bem e Tim Maia, cantava e tocava violão. Tudo ficou registrado em minha memória e no coração”, lembra ele, que na adolescência migrou pro heavy metal até começar a pegar gosto pela música eletrônica no comecinho dos anos 90.

Em 1991, foi para a Espanha e conheceu Alejandra Alvarez, com quem veio morar no Brasil três anos depois – cheio de boas referências musicais na bagagem. Depois de seis anos juntos, eles tiveram o Fernando, em 1997, e a vida de DJ se misturou com a de pai. “Alejandra era minha parceira para tudo: linda, divertida e alto astral. Trabalhávamos no que surgia pra ir sobrevivendo, saíamos muito e eu desejava me tornar DJ profissional. Comecei a trabalhar de segurança na porta de um bar/restaurante bem legal que frequentávamos chamado The Cube, na Consolação, quando um dia a gerente me chamou pra tocar no bar. Na época, o Oscar Bueno, que também trabalhava lá, organizava um after hour chamado Paradise, no clube Lov.e, e me chamou pra ser DJ residente. Ficamos lá durante quatro anos, até o projeto se mudar para a D-Edge. Mau Mau e Pil Marques me convidaram para tocar no Hell’s Club, no Columbia, e minha carreira de DJ deslanchou”.

Entre vinis e fraldas

“A gente se organizava para ficar com Fernando, dividindo o tempo para que os dois pudessem ter uma vida social. Então Alejandra começou a trabalhar de dia, enquanto eu ficava com o Fernando, e ela ficava com ele de noite para eu ir trabalhar. Muito fácil na teoria, mas na prática…”, conta George, que na época começou a tocar muito em São Paulo e também a viajar para outros estados. “Os problemas vieram quando eu comecei a misturar trabalho, diversão e responsabilidade. Estava minando nossa relação, mas eu estava cego e fui egoísta, não conseguindo administrar meu trabalho com minha vida pessoal. Foi o começo do fim”, lamenta.

Depois de tentarem inúmeras vezes acertar a relação, a separação foi inevitável. “Alejandra voltou para Espanha em 2004 junto com nosso filho, que na época tinha sete anos. Foi muito difícil, porque nos conhecemos aos 16 anos e éramos muito unidos, mas com o passar do tempo fomos nos distanciando cada vez mais. Não conseguimos nos comunicar. Nos tornamos pessoas totalmente estranhas. Lembro que no dia que me despedi do meu filho eu tinha que ir tocar num casarão/antiquário ali na Consolação. Estava me sentindo muito mal, com uma sensação horrível, mas falava para mim mesmo: ‘Calma que tudo vai dar certo’. Fiquei meio sem rumo, tocando muito e deixando a vida me levar. Na época eu também estava cuidando da minha mãe que estava se recuperando de um AVC, e foi bem complicado”, lembra.

Por coincidências da vida, os pais de George se divorciaram quando ele tinha três anos e, como seu pai era espanhol, ele mesmo viveu entre os dois países.

Paternidade à distância

“Meu filho e eu nos falávamos por telefone e ele vinha de férias quando dava, uma vez por ano. Foram sete longos anos longe dele. Em 2011, por motivos de saúde da minha mãe, fomos pra Espanha para meu irmão me ajudar a cuidar dela, para a mesma cidade que morava a Alejandra. Lembro bem que no dia que reencontrei meu filho foi como se o tempo não tivesse passado. A sensação era como a de dois amigos que acabam de se encontrar para sair e se divertem juntos, sem perguntas, sem forçar nada, tudo fluindo de forma natural. Fiquei muito aliviado em ver que estávamos bem juntos. Sou grato a Alejandra por ter cuidado bem dele”, reflete.

“Mais uma vez comecei minha vida do zero na Espanha, agora ao lado do meu filho. Comecei a trabalhar de ajudante de cozinha num restaurante e a tocar nos finais de semana. Meu filho melhorou na escola e minha família voltava a estar unida. Dois anos depois, infelizmente, nossa querida mãe faleceu dormindo. A Espanha estava em crise e recebi um convite de uma amiga/anjo para ir trabalhar de cozinheiro na Suíça. Lá fui eu para começar tudo de novo, mas combinei com meu filho que ele iria pra lá comigo quando me instalasse”, continua George.

O último capítulo dessa história é que, em 2014, quando Alejandra encontrava-se novamente casada e com um segundo filho recém-nascido, eles concordaram que era hora de Fernando morar com o pai na Suíça. “Agora ele tem 21 anos e mora com sua namorada. Está cursando o 2° ano da escola de cozinha, a mesma que eu me formei no ano passado. E, sim, ele gosta de musica, mas não ao ponto de se dedicar profissionalmente – e olha que tentei incentiva-lo e fiz de tudo pra mostrar, de maneira fácil e prática, que poderia ser uma outra fonte de renda. Mas logo ficou claro pra mim que ser DJ é algo que tem que partir de você naturalmente, sem forçar nada.”

Para ouvir

Uma playlist de George Actv com músicas de pista que as crianças tendem a curtir, sem distinção de idade.

Kraftwerk, Das Modell

Afrika Bambaataa, Planet Rock

Depeche Mode, Just Can’t Enough

Tom Tom Club, Genious Of Love

Daft Punk, Around The World

Fonte oficial: GQ

​Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Sixth Sense.

Comentários