SP-Arte/Foto chega a sua 12ª edição – GQ

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“A fotografia é uma língua estrangeira que todo mundo acha que sabe falar”. Essa afirmação contundente foi um dos pontos altos da conversa da então curadora de fotografia do MoMA, Sarah Meister, na 9a edição da SP Arte Foto, a maior feira de foto da América Latina. O seu discurso tratava do fenômeno da fotografia digital, selfies e a difusão por redes sociais, como grande elemento sociológico contemporâneo. Nesse período, trabalhos de lendas da fotografia como Man Ray e Robert Frank (que recentemente teve mostra retrospectiva no IMS em São Paulo) chegaram a bater a casa de 1 milhão de dólares em leilões do Hemisfério Norte. A pauta era entender como a banalização da imagem fotográfica atual iria refletir na produção artística e principalmente no mercado de arte.

Bem, passaram-se três anos e chegamos agora à 12ª edição da SP-Arte/Foto – Feira de Fotografia de São Paulo e o que podemos dizer é que essa bolha de valores astronômicos não se manteve – o que é positivo. A fotografia solidificou seu espaço de forma definitiva no mapa das artes e mostrou que essa “língua estrangeira” de fato, não é falada por todos. Essa edição da feira é pautada pela qualidade dos trabalhos apresentados e a seriedade dos artistas no uso da linguagem fotográfica.

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Nesse ponto gostaria de destacar o trabalho de dois artistas que terão trabalhos expostos na feira, que tem uma característica em comum: o uso da fotografia como documentação de performance artística. A primeira é Berna Reale, artista paraense que é um dos grandes expoentes da arte contemporânea nacional e será apresentada pela galeria Nara Roesler. Sua produção concentra-se em especial na prática da performance como forma de denúncia das situações de injustiça social, procurando funcionar como um ruído questionador. As performances de Reale, que se desdobram em séries fotográficas e vídeos a partir de registros da ação, também se destacam por geralmente apresentar a artista como protagonista, no que seu próprio corpo se configura como mais um elemento estético na construção da imagem.

Sem título (Performance com bandagem cirúrgica) #26, de Ivens Machado (Foto: Ivens Machado - Fortes D’Aloia & Gabriel)

O outro artista é Ivens Machado, artista Catarinense representado pela Fortes D’aloia e Gabriel. O artista, que tem na escultura sua linguagem principal, cria na década de 1970 uma performance chamada “Performance com Bandagem Cirúrgica”, que é documentada por meio de fotografia analógica. Nela o artista também é o sujeito da imagem, onde seu corpo tem partes revestidas por bandagens brancas e interage com a câmera de forma quase contestadora. O ato pode ser entendido como um grito de dor e privação, o que se converte também numa forte analogia a repressão militar vivida no Brasil na época. O resultado é uma imagem forte, autoral e extremamente sofisticada.

A SP-Arte Foto acontece de 22 a 26 de agosto no JK Iguatemi com a participação de 34 expositores. É com certeza um programa imperdível para os amantes da fotografia ou pelo menos para aqueles que querem entender um pouco mais dessa língua estrangeira.

Fonte oficial: GQ

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