“Talvez não fosse a melhor pessoa”, diz Armando Babaioff sobre doação de sêmen de Ionan em ‘Segundo Sol’ – GQ

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O policial Ionan, da novela Segundo Sol, da TV Globo, é um personagem típico de João Emanuel Carneiro. Interpretado por Armando Babaioff, o policial passa ao largo dos esteriotipos da sua profissão, revelando-se um homem afetivo e, claro, como todo ser humano, repleto de contradições. O tipo perfeito para se envolver em uma das polêmicas centrais da trama: a doação de sêmen.

Na novela, por motivos ainda não muito esclarecidos, Ionan aceita ser o doador de gametas do filho de Maura (Nanda Costa), a sua colega de profissão. Com problemas no casamento, o policial, contudo, parece confuso quanto aos seus sentimentos em relação à amiga. E o mais conflitante: deixa claro que não aceita ser apenas “pai biológico” da criança que está por vir.

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“Eu cheguei à conclusão de que ele talvez não fosse a melhor pessoa para ser apenas o doador para esse filho da Maura. Um ser humano como ele, extremamente fraternal, paternal”, reflete Armando sobre o conflito do personagem. Pesssoalmente, o ator tem uma opinião parecida com Ionan sobre o envolvimento de um doador de sêmen.

“Eu doaria em caráter de anonimato. Com pessoas próximas a mim, não veria problema nenhum em ser doador, também. Mas, pela proximidade da relação e do grau de amizade, eu diria que, assim como Ionan, acho que gostaria de estar por perto e conviver com essa criança”, revelou o ator.

Na conversa com a GQ, entre outros assuntos, o ator recifense falou de como uma novela ambientada no Nordeste reforça a identidadade da região e a construção do núcleo da família Falcão, encabeçada por Emílio Dantas, uma das estrelas de capa da GQ em setembro, durante uma conversa regada a cerveja em uma pousada da Bahia. Confira abaixo:

Armando, em “Segundo Sol”, a gente tem visto o Ionan bastante confuso quanto à questão da doação de sêmen para o filho de Maura (Nanda Costa) em Segundo Sol. Você acha que existe algum sentimento entre os dois ou ele ainda não aceitou o fato de ser apenas o pai biológico?

Tentando entender o Ionan pelo texto da novela, eu cheguei à conclusão de que ele talvez não fosse a melhor pessoa para ser apenas o doador para esse filho da Maura. Um ser humano como ele, extremamente fraternal, paternal… Ele tem uma relação com família muito forte e não seria diferente com esse filho. É justamente essa a história que a novela quer abordar. Um homem que acreditou que seria possível doar sêmen para uma amiga sem se envolver.

Você acha que existe algum sentimento entre os dois ou ele ainda não aceitou o fato de ser apenas o pai biológico?

A relação que nasce entre Ionan e Maura após a inseminação não muda de figura por causa dessa gravidez. Ambos estão frustrados em seus relacionamentos. Maura completa Ionan de uma maneira que ele nunca teve. E o que eu acho mais interessante nesse roteiro é que neste momento estamos falando de indivíduos, e não de um grupo ou rótulos. Como ator, eu não sei dar um nome para o que ele está sentindo. Não sei mesmo, deixei em aberto essa opção. Amor? Desejo? Confusão? Não sei responder. A história está sendo contada da mesma forma para mim e para o público. Mas o mais importante é que estamos falando de algo muito específico. Ionan se interessa por esta mulher. Não é qualquer mulher, é a Maura. E o mesmo acontece com ela. Maura não sente atração por um homem qualquer. É pelo Ionan. A discussão vai um pouco mais além.

Enquanto isso, Doralice (Débora Rodrigues) parece cada vez mais com ciúmes. Estaria o Ionan procurando uma outra família?

Não acredito. Mas que ele está traindo Doralice, isso está.

De acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), toda doação de gametas deve ser anônima e sem nenhum tipo de envolvimento financeiro no Brasil. Ou seja, doar sêmen é um ato de pura generosidade. Falando como Armando, você consegue se imaginar em algum cenário da vida parecido com o de Ionan – aceitando ser pai biológico de uma criança e dispensando o convívio?

Eu doaria em caráter de anonimato. Com pessoas próximas a mim, não veria problema nenhum em ser doador, também. Mas, pela proximidade da relação e do grau de amizade, eu diria que, assim como Ionan, acho que gostaria de estar por perto e conviver com essa criança.

Armando Babaioff  (Foto: Vinicius Mochizuki)

Um ponto que se destaca em novelas de José Emanuel Carneiro é a criação de núcleos marcantes. Como você, José de Abreu, Arlete Salles, Luis Lobianco adquiriram tanta química? Vocês passaram por alguma preparação antes de começar as filmagens?

Antes de começar as gravações, todo elenco participou de uma preparação durante pouco mais de um mês. O (diretor) Dennis Carvalho investe muito tempo na preparação e isso realmente é muito importante, pois vamos desde o momento inicial, que é conhecer os colegas, ganhando entrosamento como grupo, até realizar exercícios, que nos permitam descobrir as relações dos personagens para aprofundar e conhecer melhor o universo de cada um. Fizemos vários exercícios e jogos para nos entendermos enquanto família, descobrir as reações de cada um, cada temperatura, ritmo. Isso foi de extrema importância. Por exemplo, Ionan tem uma relação de cumplicidade muito forte com o irmão Beto (Emílio Dantas). Quando Emílio começou a apontar o personagem de Beto Falcão, ainda na sala de ensaio, eu passei a tê-lo como referência. Ele ditou muito de como seria a construção do Ionan, até porque somos uma família e precisávamos de uma unidade. Mas teve um fato que, para mim, foi muito marcante. Quando embarcamos para Porto Seguro, onde começamos a gravar, tivemos um dia de folga assim que chegamos. Nesse dia, ficamos todos na piscina de uma pousada, tomando cerveja e conversando sobre diversos assuntos por horas. Nesse dia, ali, naquele lugar, naquele instante, nascia a família Falcão.

Como nordestino, como é para você atuar em uma novela ambientada na Bahia? Você acredita que Segundo Sol contribui para reforçar a identidade do povo da região?

Eu sou nordestino, mas não sou baiano (nota da GQ: o ator nasceu em Recife, Pernambuco). Estive poucas vezes na Bahia. Na maioria das vezes, viajei de férias para as praias do sul do estado, que são verdadeiros paraísos: Corumbau, Cumuruxatiba, Santo André. Fui pouquíssimas vezes a Salvador. Uma novela como essa dá uma visibilidade a mais e isso fortalece, antes de mais nada, o turismo, e isso é uma grande verdade. Quem não teve vontade de se esquecer por um tempo na fictícia Boiporã? (risos) É uma grata surpresa ver uma novela ambientada na Bahia, uma novela que foge um pouco do eixo no qual estamos acostumados, Rio de Janeiro e São Paulo. A Bahia retratada em “Segundo Sol” foi pensada com muito carinho. Existe uma preocupação da direção, de todos os outros departamentos (cenografia, direção de arte, figurino…) e elenco em retratar esse “país” que é o estado da Bahia. Até porque são várias dentro de um estado só. Tentamos fugir dos estereótipos e falamos muito deles para não cair na tentação de cometê-los, tanto no que diz respeito ao sotaque até à imagem que se tem da Bahia. Ouvi de muitos baianos que essa foi uma das novelas em que mais existiu uma preocupação e cuidado com o sotaque baiano. Houve também uma atenção em tentar trazer uma Salvador moderna, a trilha sonora da novela retrata bastante isso e a edição da novela também, ritmo. É a Bahia de João Emanuel. Tenho certeza de que os baianos, e estou falando principalmente daqueles que não estão em seu estado natal, estão matando um pouco da saudade de casa vendo essa novela. São tantos os pontos turísticos, tantas ruas, tanta música e gíria. E o que dizer do sul da Bahia, com aquele mar de tons de verde e azul? (risos) Eu tenho muito orgulho de fazer parte desse trabalho. Como ator, absorvi muita coisa, mas, como cidadão brasileiro, talvez tenha aprendido muito mais sobre o que é a identidade baiana. Nunca chegarei aos pés de um soteropolitano, mas vou tentar “brocar” (gíria baiana que significa “mandar muito bem”, arrasar).

Fonte oficial: GQ

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