“Talvez sejamos muito boas para sermos ignoradas”, diz a nigeriana Ayòbámi Adébáyò sobre “boom” de escritoras – GQ

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Ayòbámi Adébáyò (Foto: Divulgação)

“Algumas vezes amor não é o bastante”, diz a nigeriana Ayòbámi Adébáyò para resumir a mensagem do livro que a tornou famosa no mundo inteiro – e que a trouxe ao Brasil para a Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece até o próximo domingo (14).

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Fique Comigo, lançado em 2017, narra a história de um casal que tenta sobreviver à instável sociedade nigeriana dos anos 1980. Para ela, amor, costumes e política se misturam. “Há um conflito entre o pessoal e o político, onde você pensa que uma linha pode ser traçada”, reflete a escritora que teve como professoras a compatriota Chimamanda Ngozi Adichie (Meio sol amarelo, Hibisco roxo) e a canadense Margaret Atwood (O Conto da Aia). “Mas não importa o quanto você tente se proteger, algum momento de ruptura vai chegar”, afirma.

Veja como foi nossa conversa.

GQ – Ler Fique Comigo proporciona tantos sentimentos diferentes que torna até difícil descrever o livro. Como você o descreve?

Ayòbámi Adébáyò – Penso nele como uma conversa entre duas pessoas que, em um ponto, amam muito uma à outra e depois enfrentam problemas que vão aparecendo: eles não podem ter filhos, a família se envolve, a poligamia acontece e 15 anos depois do fim da relação eles tentam entender o que deu errado. Algumas vezes amor não é o bastante.

GQ – No livro você traça um paralelo entre a relação do casal e a política nigeriana, os dois igualmente instáveis. De onde se tira amor em épocas politicamente desafiadoras?

Ayòbámi Adébáyò – Há um conflito entre o pessoal e o político, onde você pensa que uma linha pode ser traçada. Isso acontece com o casal no romance, eles continuam a viver suas vidas, mesmo enquanto o país desmorona ao redor deles. Eles tentam proteger a si mesmos, mas não importa o quanto você tente, algum momento de ruptura vai chegar. E nele todas as coisas que você fez de escudo para proteger você e sua família caem. É quase impossível transcender totalmente a realidade política.

GQ – Politicamente, então, como é para você estar no Brasil agora?

Ayòbámi Adébáyò – É excitante e interessante porque acho que partes importantes da história negra estão aqui no Brasil. Estou muito interessada em aprender mais sobre isso enquanto estou aqui. Entender a tragédia dos últimos séculos, as conexões que ainda existem entre pessoas negras enviadas para cá como escravos e os negros africanos.

Ayòbámi Adébáyò (Foto: Divulgação)

GQ – Você vem como parte de um grupo de escritoras que tem feito sucesso na última década, como Elena Ferrante, Chimamanda Ngozi Adichie, Svetlana Aleksiévitch. Há um movimento de uma nova narrativa feminina no mundo ou é algo que sempre existiu e apenas estamos olhando agora?

Ayòbámi Adébáyò – Também penso nisso porque estamos nesse momento na Nigéria e alguns dos livros que mais atraíram atenções e foram melhores recebidos pela crítica foram escritos por mulheres nos últimos cinco anos. Não acho necessariamente que seja só porque mais mulheres estejam escrevendo. Acho que por alguma razão as pessoas estão mais atentas a eles. Sempre houve grandes trabalhos de mulheres que foram ignorados ou que não receberam os devidos créditos, então é bom que isso esteja mudando – ou aparentemente mudando. Minha única preocupação é quanto tempo vai durar. Mas talvez eu seja uma pessimista [risos].

GQ – E de onde veio essa mudança? Por que estamos lendo mais mulheres?

Ayòbámi Adébáyò – Talvez muitos dos trabalhos que estão aparecendo sejam apenas muito bons para serem ignorados. Estava lendo uma matéria sobre a Serena Williams uns dias atrás e ela disse algo que ficou comigo: “Minha família acabou sendo aceita no tênis não porque ela era bem-vinda, mas porque ela não parava de vencer”. Então acho que esses livros ficaram tão bons que o sistema se beneficia de dar atenção a eles. Porque são bons livros e as pessoas gostam. Mas eu também acho que ter conversas necessárias sobre mudanças na sociedade, em termos de comunidades mais abertas, influencia isso. Mais pessoas estão lendo esses livros porque alguns deles oferecem alternativas, alguns fazem questões e acho até que as redes sociais têm um papel nisso. Mas movimentos como esse só podem ser realmente interpretados em retrospecto. Talvez em 20 anos você possa olhar para trás e ter uma visão mais holística de todos esses fatores.

GQ – Nesse mundo diferente, como é ser uma escritora negra africana em 2019?

Ayòbámi Adébáyò  – Não penso em mim mesma nesses termos [risos], embora descreva o que eu obviamente sou. Mas gosto dessa coisa de ter um pouco de liberdade, primeiro porque muito do trabalho importante foi feito por escritoras que vieram antes de mim e que não necessariamente tiveram a atenção que meu trabalho teve, e segundo porque o tipo de trabalho que elas fizeram foi em condições mais difíceis do que as que eu tenho para trabalhar. Então me sinto livre para buscar o que me atrai como artista enquanto também sou grata ao que veio antes.

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Fonte oficial: GQ

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