Teresa Cristina solta a voz: “Sinto falta do samba no Rock in Rio” – GQ

5

Gal Costa, Tim Maia, Candeia e Diana Ross. Essas são algumas das vozes que conquistaram o coração de Teresa Cristina e a transformaram em sambista. Aos 50 anos, ela impõe a sua voz e conquista o lugar da mulher no samba como protagonista. “O lugar que a mulher está ocupando hoje no samba é um caminho sem volta”, afirmou em conversa exclusiva com a GQ Brasil.  

Apadrinhada por Caetano Veloso, Teresa luta contra o racismo e o machismo. “A gente não pode achar que a época medieval tem que voltar. Não podemos perder os direitos que ganhamos com muita luta e muita paixão”, disse. 

Teresa está se preparando para subir ao palco no dia 15 deste mês para o show Um sorriso negro com o grupo Samba Que Elas Querem, de repertório exclusivo de compositores negros como Dona Ivone Lara, Lecy Brandão, Candeia e outros. “A mulher precisa resgatar esse protagonismo e deixar esse posto de coadjuvante entregue pela história”, disse. Leia abaixo a conversa completa que tivemos com a cantora, que diz sentir falta do samba no Rock in Rio, o line up final do festival ainda não foi divulgado

LORO Bardot responde quem estaria em sua plateia VIP
Natália Matos conta que Marisa Monte embalou sua infância
+ #GQporElas: “Feminismo não é o contrário de machismo”, diz Louie Ponto

GQ: Como era a Teresa Cristina quando criança? 

Teresa Cristina: Eu era uma garota tímida, mas que gostava muito de ler. Minha tia era professora e eu estava sempre próxima dos livros. Minha infância foi muito na rua da Vila da Penha. Brinquei  muito na rua e jogava bola com os meninos. Teve a parte mais difícil no colégio, onde as crianças faziam bullying comigo pelo fato de eu ser negra. Isso foi o que mais de incomodou. Tirando isso, a minha infância foi muito alegre.

GQ: E o que você costumava ouvir?

Teresa Cristina: Eu ouvia muito disco music. Todos os cantores americanos negros. Diana Ross, Donna Summer e outros.

GQ: Alguém da família a influenciou em relação à música?

Teresa Cristina: Eu tive influência direta da minha mãe e do meu pai. Ouvia muito Roberto Carlos e Tim Maia. Meu pai ouvia Candeia e Gal Costa. Acredito que a minha procura tardia pelo Candeia me levou a ser sambista. Devo isso ao meu pai.

GQ: Então como a paixão pelo samba surgiu?

Teresa Cristina: Ela surgiu nos anos 1990, quando encontrei o disco do Candeia do meu pai chamado Samba de Roda. Quando ouvi esse disco novamente, aos 24/25 anos, comecei a pesquisar sobre a obra dele e, com isso, me aproximei da velha guarda da Portela e das pessoas que me influenciam até hoje.

GQ: Qual sentimento você teve ao compor sua primeira música? O que passou pela sua cabeça naquele momento?

Teresa Cristina: Pensei: “E se essa música já existir? Será que vou conseguir escrever outras letras além dessa?”. Mas foi uma sensação de realização e felicidade que nunca senti na minha vida.

GQ: O número de rodas de samba apenas de mulheres está crescendo cada vez mais. O que você acha disso?

Teresa Cristina: Isso é o futuro! A mulher sempre esteve presente no samba como tema. As pastoras fazendo sempre a voz oitavada, dando suporte pra a voz mais grave dos homens. Mas já passou da hora da mulher assumir os instrumentos. Ela já tem a voz ativa e eu acho que dois movimentos serão muito importantes: a mulher assumir a instrumentação e mudar os temas dos sambas. 

GQ: O samba ainda é machista?

Teresa Cristina: A sociedade é machista e o samba reflete a nossa sociedade. Por isso, ele mostra o machismo de forma direta ou velada.

GQ: Quais mulheres estão mudando essa visão dentro do samba e que você aplaude?

Teresa Cristina: Eu aplaudo a Elza. Ela também é cantora de samba e muito importante pra gente. A Marina Iris é uma cantora e compositora que me interessa muito e tenho admiração por ela. As músicas da Manu da Cuíca é nova, ativa e incrível. Estamos até tentando fazer uma parceria. O lugar que a mulher está ocupando hoje no samba é um caminho sem volta. A gente tem que falar do que nos interessa, assuntos pertinentes a nós. Isso é um movimento que está crescendo.

GQ: Você acredita que o artista deve se posicionar politicamente?

Teresa Cristina: Eu acredito que sim e acho que isso faz parte, principalmente porque eu sou sambista. O samba sempre questionou e se posicionou nas letras, no ambiente e com pessoas que ele agrega. As obras do Paulo Duarte, Mauro César Pinheiro falam por si só. A gente não pode achar que a época medieval tem que voltar. Não podemos perder os direitos que ganhamos com muita luta e paixão. Por isso eu acho que o samba é político. Não consigo separar a política da arte. Ela existe pra isso!

GQ: Já sofreu preconceito por ser sambista? Como lidou (ou ainda lida) com isso?

Teresa Cristina: Eu sofro toda vez que o contratante tenta diminuir meu cachê de forma desrespeitosa, quando acham que eu tenho que cantar sem preparo, quando as pessoas acham que a gente não precisa ter o cuidado que outros ritmos têm. Eu sinto falta do samba no Rock in Rio, por exemplo,que já deixou de ser um festival de rock, aliás.

GQ: Quais os seus planos pro futuro?

Teresa Cristina: Os meus planos pro futuro são sempre compor mais e cantar mais o que eu gosto. Eu tenho muito orgulho das músicas que gravei e do meu repertório. A minha intenção é essa. Não costumo planejar muito lá na frente. Gosto de fazer planos pra amanhã.

Fonte oficial: GQ

​Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Sixth Sense.

Comentários