“Traduzi em música a necessidade de me descobrir”, diz Laura Lavieri – GQ

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Laura Lavieri agora ocupa o centro do palco. Após ficar conhecida como a segunda voz que iluminava os discos de Marcelo Jeneci, a cantora lançou neste ano um disco solo, Desastre Solar, cujo título revela toda a poesia e certo pessimismo em torno do projeto. Como um novo início, o álbum se assemelha com uma versão pessoal de um big bang.

“Eu sei que estou vivendo o momento. Achei uma banda que soa como nova, formei novos amigos. Ainda não sei o quanto eu vou carregar da história que eu construí com o Jeneci e o que vai me surpreender. Sei que o cenário com o Jeneci já não estava me alimentando como artista”, admitiu a cantora em entrevista à GQ.

Aventurando-se em diferentes gêneros – desde o rock setentista à uma versão introspectiva de Deixa Acontecer, do grupo de pagode Revelação- , a cantora se apresenta no próximo final de semana, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo. Quem prestigiar a apresentação terá um bom panorama de toda a diversidade que Laura abraça em fase solo.

“Eu acho que o disco traduz a minha relação com a música. Eu gosto de música e ponto. Curto de músicas de gêneros variados. Amo as nuances entre eles. Acho que era essa a minha intenção: mostrar logo no primeiro disco todas as minhas facetas, o meu jeito de contar histórias como intérprete”, afirmou.

Confira o papo na íntegra abaixo:

GQ: Laura, quando você decidiu que era o momento para gravar um disco solo?

Laura Lavieri: Foi um processo longo até me decidir (risos). Durante todo o tempo de trabalho com o Jeneci, eu ouvia muita gente perguntando: “e o seu disco? quando sai?’. Só que eu me via muito presente no trabalho da banda. Eu sempre vi o trabalho do Jeneci como meu, também. De toda a banda, na verdade. Porém, em determinado momento, ele começou a procurar um processo mais individual de composições, afastando-se naturalmente da banda. Esse momento coincidiu com um momento muito esquisito da minha vida. Eu fiquei doente, tive depressão, surgiram alguns problemas de pele sem diagnóstico… Neste momento, eu percebi que precisava cuidar de mim.

GQ: Quando isso aconteceu?

Laura Lavieri: Foi durante a turnê do segundo disco (De Graça, de 2013). Foi isso que me levou a pensar  num disco só meu. Como você pode ver, faz um tempo…Às vezes, os álbuns nascem de uma inspiração, de algum momento específico da sua vida. Muitas vezes a gente consegue traduzir esse sentimento. Comigo foi diferente. Eu tive, na verdade, que entender o que estava sentindo. Caçar o disco dentro de mim. Só depois eu consegui traduzir em música a necessidade de me descobrir.

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GQ: Quanto tempo levou até você começar a gravar?

Laura Lavieri: O processo todo de descobrir o disco durou, ao todo, uns três anos. Como eu não tinha ideia do que eu queria, eu fiz muita pesquisa. Comecei a me encontrar com amigos músicos, jornalistas e pesquisadores e, principalmente, escutar mais música e experimentar novos repertórios durante os shows solos que eu fiz nos últimos anos. Assim, as músicas do disco foram surgindo – a maioria de última hora (risos).

GQ: Você falou sobre se descobrir como artista.  Logo de cara, a gente é surpreendido por uma música instrumental, com toque eletrônico. Só que o disco não fica só nisso: tem rock setentista, versão de pagode. O Desastre Solar seria  um grande experimento seu como artista?

Laura Lavieri: Tem alguns jornalistas falando disso (risos). Eu não sei se ele é tão experimental. Eu acho que ele traduz a minha relação com a música. Eu gosto de música e ponto. Curto de músicas de gêneros variados. Amo as nuances entre eles. Acho que era essa a minha intenção: mostrar logo no primeiro disco todas as minhas facetas, o meu jeito de contar histórias como intérprete. Eu tenho tantas ambições como cantora, sabe? Gravar um disco acústico de samba e pagode, fazer um disco punk em fita K7… Após a ansiedade do primeiro disco, acredito que eu consiga me lançar em projetos mais focados. A intenção do “Desastre Solar” foi mostrar todos os universos com a mesma força.

Laura Lavieri  (Foto: Karin Santa Rosa)

GQ: Por falar nessa diversidade do disco, a versão de Deixa Acontecer, do grupo Revelação, chama muito a atenção. Qual é a sua relação com o pagode? Como a música entrou no disco?

Laura Lavieri: Eu tenho uma relação muito forte com o samba dos anos 40, com a Era do Rádio. Com o pagode, é algo mais novo, mas o fascínio é parecido, principalmente pelo apelo popular das músicas. Com Deixa Acontecer, aconteceu algo mágico. Certo dia, eu estava chorando em casa, sofrendo por um amor impossível. De repente, a pessoa que eu amava bate na minha porta, e diz: “Olha, eu te amo, mas não vai rolar. Um dia a gente se encontra…”. Enfim, essas coisas de término. Quando a pessoa foi embora e eu voltei a chorar, a vizinha começou a cantar em loop infinito o refrão “deixa acontecer… naturalmente…”. Eu parei de chorar na hora. Fiquei pensando: “Caralho, acho que é um recado divino para eu não sofrer” (risos). Depois disso, eu comecei a pesquisar mais sobre o pagode e a música entrou no disco.

GQ: O disco ainda tem outras duas regravações importantes: Radical, dos Novos Baianos, e Tira a Mão, de Marcos Valle. São referências que não poderiam faltar no seu disco?

Laura Lavieri: Na verdade, não. Quer dizer, os Novos Baianos sempre foram. Já o Marcos Valle foi uma grande surpresa. Eu fui morar no Rio, para gravar o disco, e um amigo me apresentou o álbum dele (Previsão do Tempo, 1973), que é 100% carioca. Quando eu ouvi Tira a Mão, fiquei muito tocada e pensei que ela ganharia um significado novo, sendo cantada por uma mulher, nos dias de hoje. E o mais legal é que a gente conseguiu fazer um samba-reggae, um estilo que eu amo e queria muito no álbum.

GQ: O interessante é que Tira a Mão é logo seguida por Me dê a Mão. Essa dualidade foi pensada? Tem alguma relação com as discussões sobre machismo na sociedade?

Laura Lavieri: Tem, totalmente. Na hora de decidir a ordem do disco, a única certeza que eu tinha era que elas precisavam ficar juntas. A gente tá vivendo um momento político mais “radical”, não sei se é a palavra, muito necessário. Nós precisamos mesmo romper mesmo com coisas erradas que vão se mantendo e não fazem bem para ninguém. Mas eu também vejo um outro lado. Cabe a nós, mulheres, aqui, do lado oprimido, não ter tanta pressa e tanta raiva neste momento. Eu vejo muitas mulheres se afastando de um aspecto muito importante da energia feminina: o acolhimento. Essa capacidade de compreender, de demonstrar carinho, de estender a mão ao outro, é muito nossa. Então, eu acho, sim, que a gente tem que gritar para tirar a mão. Só que a gente precisa encontrar, também, um lugar de convívio com o masculino.

Laura Lavieri  (Foto: Karin Santa Rosa)

GQ: Nesta sua fase solo, ser lembrada como antiga parceira do Marcelo Jeneci mais ajuda ou atrapalha? Com o Marcelo Jeneci, você chegou ao mainstream, cantou em programas da TV Globo, um espaço que nem todo artista independente ocupa…

Laura Lavieri: Eu não sei. Estou tentando descobrir. Em alguma entrevista, me perguntaram qual era a minha expectativa para esse momento solo e eu respondi: “nenhuma”. Baita mentira, né? Claro que eu tenho alguma expectativa. Mas acho que eu ainda estou tentando o momento. Tudo é muito novo. Agora eu estou na frente de um projeto: todas as decisões são minhas, o projeto é todo meu. Mas acho que eu realmente não espero muito. Até por isso o nome do disco é Desastre Solar. Eu já estava esperando um fracasso (risos).

GQ: Mas por que tanto pessimismo?

Laura Lavieri: Eu não sei. É sério (risos). É muito louco. Acho que Freud dizia que toda expectativa é acompanhada por uma frustração. A realidade não comporta tudo o que sonha. Eu sei que estou vivendo o momento. Achei uma banda que soa como nova, formei novos amigos. Ainda não sei o quanto eu vou carregar da história que eu construí com o Jeneci e o que vai me surpreender. Sei que o cenário com o Jeneci já não estava me alimentando como artista.

GQ: Como foi a “separação” entre você e o Jeneci, aliás? Vocês decidiram dar um tempo juntos?

Laura Lavieri: O Jeneci tem dificuldade com definições. Como a nossa relação é de irmão, eu posso dizer que ele demorou um tempo para sentir a necessidade de “se ver sozinho”. Demorou até mais do que eu. Acho que ele precisava disso. No segundo álbum, a banda toda estava ali e ele não deixava ninguém contribuir muito. Foi quando eu percebi que não havia mais espaço para mim. No começo desse ano, a gente se encontrou e definiu que era o momento da gente seguir caminhos diferentes. Mas a gente ainda tem mesmo esse sentimento de irmão, sabe? Se a vida nos aproximar de novo, vai ser ótimo. Eu vou até ele ou ele vem até mim. Não houve nenhuma ruptura drástica.

Laura Lavieri no Auditório Ibirapuera -SP
Domingo (14/10) – 19h
Avenida Pedro Álvares Cabral, 0, Parque do Ibirapuera – Portão 2, São Paulo/SP

Fonte oficial: GQ

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