“Vale tudo, mas tem limite” – Poder – Glamurama

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TV, série, cinema, o celebrado Porta dos Fundos e três filmes no gatilho para Netflix. Onde quer que esteja Fábio Porchat, o comediante mais famoso do país, vai te fazer dar risada. O segredo? Liberdade autoral, crítica ácida e boas doses de empatia

por dado abreu fotos maurício nahas styling cuca ellias (od mgt)

É preciso estar atento e forte. A citação de “Divino Maravilhoso”, de Caetano Veloso, serve de norte para Fábio Porchat explicar a liberdade do humor. Longe da TV aberta desde que deixou a Record, no fim do ano passado, o comediante mais famoso do país tem se vigiado para não passar da conta, algo que, é bom que se diga, não costuma fazer. A propósito, é um dos poucos humoristas da sua geração que não coleciona polêmicas e piadas de mau gosto. “A sociedade está mudando e o humor, obviamente, também. Por que então eu vou querer fazer uma piada que os Trapalhões faziam em 1970?”, questiona.

Respeitar a fronteira da liberdade cômica, mas sem perder a acidez política, tem sido o sucesso do Porta dos Fundos, canal que Porchat ajudou a fundar em 2011 e hoje, com quase 16 milhões de inscritos no YouTube e em fase de internacionalização, é referência no gênero – e no mercado publicitário – com esquetes impensáveis em outra mídia. “É bom poder falar o que quer. Temos pontos de vista diferentes entre os roteiristas, o que é ótimo porque conseguimos mexer com questões que, supostamente, seriam mais delicadas.”

Por questões delicadas entenda-se, entre outras coisas, o momento político e social do Brasil. Há quem diga que tais tempos esquisitos seriam, para um comediante antenado como Porchat, um prato cheio, algo que, com bom humor, ele contradiz. “Um prato cheio para o desespero, para a tristeza, para a depressão”, brinca, antes de lembrar um encontro com um de seus mestres. “Certa vez perguntei para o Chico Anysio se o politicamente correto atrapalharia a criatividade. Ele disse: ‘Meu filho, difícil era fazer piada na ditadura, quando precisava aprovar o texto com quatro censores’.”

Atento e forte, Porchat está ligado em tudo. No Twitter, onde dialoga com mais de 8 milhões de seguidores, segue a família Bolsonaro, Olavo de Carvalho, mas também Marcelo Freixo. Refuta qualquer direção política, ainda que se diga inclinado para a esquerda. “Enquanto eu estiver sendo processado por [Marco] Feliciano, [Silas] Malafaia e [Anthony] Garotinho significa que estou no caminho certo.”

Seu lugar de fala, gosta de repetir, é o do homem branco e hétero. Foi com ele que protagonizou Homens?, o mais recente campeão de audiência de Fábio Porchat. A interrogação no título, explica, é uma provocação. “É uma série que fala sobre o machismo e como ele repercute para o homem”, conta. “Até outro dia eu não tinha ouvido falar de manterrupting, mansplaining [termos criados para sinalizar o machismo nas relações]. Se as mulheres estão dizendo que é assim, elas têm razão. Agora é o momento de ouvir o outro.”

Com empatia Fábio Porchat vai ganhando cada vez mais espaço. TV, série, cinema, Porta dos Fundos e três filmes engatilhados para a Netflix – um por ano até 2022. Sinal de que ouvir e se colocar no lugar do outro faz rir. E muito. “Todo tipo de piada é permitido. O segredo é parar pra pensar se ela é boa, o que quer dizer e onde está atingindo. Vale tudo, mas tem limite.”