Viagem à vácuo: o que você precisa saber sobre primeira cápsula comercial da Hyperloop – GQ

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O veículo acima, que parece um trem bala com ares minimalistas, é marco importante para a tecnologia do Hyperloop: o Quintero One, da americana HTT, é o primeiro modelo comercial para passageiros, um conceito do que levará pessoas para lá e para cá na velocidade do som em túneis à vácuo do futuro. Revelado no último dia 2 em Santa Maria, Espanha, o veículo levará 30 pessoas deve estar otimizado e pronto para viagens-teste em alguma altura 2019.

Abaixo trazemos um guia rápido para você entender a notícia. A começar pelo começo, claro:

Basicamente, um sistema de transporte que oferece uma solução barata, rápida e eficiente para viagens em longa distância (o menor Hyperloop planejado rodaria por 600 km). O nome se refere ao conceito geral, desenvolvido por Elon Musk e engenheiros da SpaceX em 2013, compartilhado posteriormente na forma de um documento de 57 páginas, que lista informações e sugestões para empresas interessadas em tocar sua própria versão da ideia. Basicamente, trata-se do mais ambicioso projeto de ‘código aberto’ no ramo de construção e transporte já feito.

A meta são altas velocidades, entre 900 a 1200 km/h. Para tanto, o príncipio básico é adaptar o que acontece num vôo comercial ao nível do solo. Aviões precisam trafegar em grandes altitudes porque o efeito da resistência do ar, que lá é mais rarefeito, é menor. Da mesma forma, o Hyperloop precisa retirar a atmosfera da equação para alcançar seu objetivo. A solução é um tubo despressurizado, com um ambiente próximo do vácuo, capaz de transmitir o mínimo atrito possível. Resultado? Um Hyperloop entre Rio e São Paulo, digamos, significaria uma viagem de 20 minutos.

Hyperloop (Foto: Divulgação)

Isso está próximo da realidade?

Sem chance! Cada empresa vêm conduzindo testes distintos. A Hyperloop One, por exemplo, vem se focando em criar tubos que servirão como a base da infraestrutura, a HTT tenta acertar em ambos os lados, incluindo a cápsula. Mas mesmo um teste em longa distância ainda deve demorar para acontecer. O primeiro circuito teste para um sistema de tripulantes foi anunciado em abril e só deve começar a rodar em 2019 – trata-se do mais longo trajeto da HTT, em Abu Dhabi, cruzando 10 quilômetros de deserto. Uma unidade de transporte de carga ainda está em construção em Toulouse. E nenhum passageiro deve ser colocado dentro de um Hyperloop tão cedo assim.

Até mesmo as imagens que você vê espalhadas aqui escondem o fato que a cápsula é oca, sem nenhuma cadeira na parte de dentro. Não há motores, nem sequer imãs. Além do mais, por ora nenhum teste que seja ultrapassou os 400 km/h, muito menos alcançou os 800 km/h – o contra argumento aqui é que essa limitação não é importante. É comum especialistas que trabalham com a tecnologia rechaçar a ideia de transportar pessoas na velocidade do som – não é seguro e confortável o bastante para virar parte da rotina de ninguém.

Então o que é o Quintero One?

O primeiro modelo tripulado em escala traz um detalhe curioso: não há janelas, nem algo que lembre um cockpit. Um Hyperloop precisa de um abimente selado e altamente controlado para rodar, então não espere curtir vistas incríveis na viagem. Além disso, como muitos outros sistemas em trilhos já existentes, o Quintero é um veículo autônomo, sem espaço para um motorista de carne e osso.

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Esta simplificação ajuda a gerar um desenho altamente aerodinâmico importante para fazê-lo funcionar. O corpo de 5 toneladas, desenhado pela firma inglesa PriestmanGoode e fabricado na Espanha, precisa lidar com pressão equivalente à que um avião enfrenta 9 km acima do nível do mar. Não à toa, a HTT contratou talentos envolvidos em projetos da Boeing e do Airbus para tirar sua cápsula do papel.

Hyperloop (Foto: Divulgação)

E como o Quintero One se move? Aqui vale lembrar de uma velha mesa de air hockey: uma cápsula, como é regra nos Hyperloops, é projetada para nunca tocar as paredes do túnel durante a viagem. Alguns projetos são, trocando em miúdos, um disco de air hockey ao avesso: na metáfora, ao invés de ser a mesa que joga ar para mantê-lo ‘flutuando’ acima da superfície, é o disco quem faz esse trabalho. O Quintero, diferente do plano original, usa magnetismo para se manter flutuando – uma solução mais cara, mas mais silenciosa e viável. A parte inferior da cápsula é coberta de imãs, dispostos de forma alternada, que criam um ‘colchão’ magnético centímetros sobre os trilhos quando a cápsula está em movimento. É parecido com a tecnologia usada por trens bala no Japão.

O Quintero One deixa claro uma realidade sobre o Hyperloop: é uma ideia menos futurística na prática. É mais um grupo de tecnologias existentes – algumas centenárias – reunidas em um formato novo. 

O líder de operações tem a maior vibe Tony Stark (com suas ressalvas, claro)

Hyperloop (Foto: Divulgação)

Ok, você não precisa necessariamente saber disso, mas não é que parece?! Bibop Gresta é investidor com um ar de showman, já teve uma passagem pelos palcos como rapper e foi apresentador da MTV italiana por alguns anos. Ele ajudou a fundar o HTT e é seu atual chairman, sendo líder de uma das poucas iniciativas financeiramente viáveis trabalhando no já velho documento de Elon Musk.

A Hyperloop TT tem pegada em 57 países – incluindo o Brasil, onde a empresa mantém um polo de inovação em Contagem, Minas Gerais, desde maio. Mas não é bem uma empresa no modelo tradicional: trata-se de um grupo formado de mais de 800 voluntários vindos da NASA, Space X e Boeing, a maioria trabalhando em projetos, pesquisa e testes de materiais da própria casa. Não há salários, mas cada colaborador tem direitos a opções de ações.

A cápsula é feita de Vibrânio

Não, não estamos falando do metal mágico de Wakanda, aquela dos quadrinhos da Marvel. No caso do Quintero One, ‘Vibranium’ se remete a um revestimento de fibra de carbono ‘inteligente’ em camada dupla, que conta com um conjunto de 72 sensores responsáveis por manter registrado  e transmitir dados de danos e desgaste.

Parece luxo, mas como o Quintero vai viajar em velocidades próximas de mil km/h, um sistema de resposta rápida é fundamental para viagens seguras – sob o risco de lançar passageiros no que é basicamente um ambiente hostil comparável ao espaço, ou lançá-los à merce de uma golfada fatal de ar caso o acidente crie uma ruptura no túnel.

Fonte oficial: GQ

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