Viajar dá barato: um rolê pelos altiplanos andinos – GQ

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Iluminação express: Os terraços de Moray são vestígios das avançadas técnicas agrícolas incas (Foto: divulgação)

Há dois tipos de viajantes vagando pelo peruano Valle Sagrado: o mochileiro aventureiro e o bon-vivant. Com o advento do Explora Valle Sagrado, é possível unir o que há de melhor dos dois clichês e desbravar esse espetacular destino latino-americano que combina aventura à boa vida, rumo à mais perfeita transcendência. Um detox mental, para aliviar a pressão. E de um jeito luxuosamente sustentável. Porque dá pra ter tudo, sim.

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Iluminação express: Todos os verdes do mundo no trekking pelas Cinco Lagunas; o roxo exótico do maíz morado e a psicodelia dos trajes tradicionais (Foto: Jeff Ares)

Seguindo a filosofia dos demais hotéis da rede (especialistas em explorações pela América do Sul), o Explora é um lodge de muito bom gosto e pequenos luxos essenciais. Sem grandes alardes arquitetônicos, mais nórdico do que típico. Ainda assim, um elemento singular no católico povoado de Urquillos. O hotel levou muitos anos para ser construído porque está em um sítio arqueológico e, a cada escavação, obedeceu a critérios rígidos. Diz-se que era ali a casa de campo de um rei inca, com um grande jardim ornamental – os caras eram estetas. Mas, ao contrário do império, nada no hotel é ostensivo ou pomposo. Não tem paletó no jantar. O dress code é roupa de aventura – se for com uma marca eco friendly, como a Patagonia, você faz bonito. Tem na loja do hotel, aliás. Calce seus melhores trekking shoes (tênis de fitness nunca, você escorrega barranco abaixo) e vá fazer o que o nome do hotel explicita: explorar. Faça chuva ou faça sol (mas evite os meses molhados, de dezembro a abril). Eles têm prazer em te receber no fim do dia, cansado, exausto. Mas realizado. Para, então, aproveitar ao máximo a casa de banhos, uma piscina com vista para o vale, a jacuzzi caliente que apazigua os músculos, um pisco sour clássico, uma bela refeição – o cardápio, atenção, é assinado pelo estrelado Virgilio Martínez, do Central – harmonizada com um bom Carménère. Aí é se entregar a uma cama dessas de se afundar. Melatonina dispensável.


Iluminação express: Depois da aventura, a recompensa de voltar para o Explora, refúgio elegante, com cama de se afundar e menu de Virgilio Martínez.(Foto: divulgação)

O sol vai raiando: é hora de explorar. O room with a view te convida a levantar com as cinematográficas montanhas Sawasiray e Pitusiray te observando. Segundo a lenda, personificam dois amantes, cujo amor era proibido pelas famílias. Ela, prometida, fugiu com o moço. Descobertos, foram petrificados. Durante as explorações, você vai ouvir lendas como essa; a memória oral é celebrada pelos guias, peritos em geologia, história e OVNIs – há quem diga que o marrento império inca se manteve imbatível por um século com uma ajudinha extraterrestre. Com o advento da sangrenta colonização espanhola, não sobrou ninguém para atestar a veracidade dos fatos.

Tome um belo café da manhã e siga para uma das mais de trinta possibilidades de aventuras. Todas com happy end: um brunch, um almoço, um carro que te traz de volta são e salvo. Para quem está na região pela primeira vez, é imperdível conhecer Machu Picchu, o mais importante e extasiante sítio arqueológico da América do Sul. Uma vez lá, você vai se sentir tentado a fazer a trilha que te leva ao cume de Huayna Picchu, aquele pico do cartão postal. É uma experiência de tirar o fôlego – literalmente. Antes dos extremos, porém, o Explora recomenda um primeiro rolê aclimatador, para acostumar os pulmões ao ar rarefeito. Uma boa opção é caminhar até as Salineras de Maras. Paisagem bonita e uma compra certa: sais de vários tipos e cores, para aquele raio gourmetizador em sua cozinha. Também vale conhecer Moray. O ponto alto é avistar os terraços circulares, um centro de pesquisas agrícolas – imagine um aeroporto de OVNIs. Fica ali o Mil Centro, o mais novo restaurante do casal de chefs Virgilio Martínez (ele de novo) e Pía Leon, tudo farm to table, reverência às heranças gastronômicas locais.


Iluminação express: Ollantaytambo, a última cidade inca ainda habitada. (Foto: Jeff Ares)

Outra boa alternativa é um trekking pela cidade de Ollantaytambo, “a última cidade dos incas ainda habitada”, Ali você visita uma típica casa dos povos originais, sem janelas e com crânios dos antepassados ornamentando a sala de estar. Abundam lojas de artesanato. Aposte nos têxteis manuais: tapetes, xales, ponchos de lã e de alpaca. O Explora te leva nas associações de artesãos – negócios sociais que oferecem produtos legítimos, feitos com tingimento natural, a preços convidativos. Compre de quem faz. Antes do shopping, suba ao Templo do Sol para uma visão bucólica do vale, onde as lendas pipocam: pirâmides feitas por ETs, túneis que levam a São Tomé das Letras (juro) e toda sorte de alucinações. Alucinar, aliás, é ali mesmo: você vai encontrar com facilidade experiências com o San Pedro e rituais de Ayuhuasca – muitos são pega-turista, então pesquise bem…


Iluminação express: Longas caminhadas com paisagens delirantes. (Foto: Jeff Ares)

No dia seguinte, você já pode começar a subir para os altiplanos. Recomendo vivamente encarar as Cinco Lagunas, um trekking de um dia inteiro cortando montanhas. Indescritível caminhar por lugares tão ermos e encontrar quem vive ali plantando e cuidando dos rebanhos. Alpacas e lhamas pastam livres, o vento cortando seus ossos. Num certo ponto, lá no alto, encontrei uma senhora em roupas lisérgicas. Falava quéchua, a língua ancestral, herança que ainda mantém viva a cultura andina. Comprei dela umas pulseiras de lã e miçangas, compra mais legal da vida, na pop up shop mais improvável. Dividimos um chá de coca oferecido pelo nosso guia, Francisco, um cara espiritualizado que fez um pequeno ritual de agradecimento à Pachamama, reverenciando a Mãe Terra, divindade suprema que nos dá a vida, símbolo da fertilidade, da nossa própria existência. Respira fundo, sente o barato, que o ar é puro.

Não, não tinha San Pedro no chá, não. É que cada exploração dá uma onda. Uma grande meditação, que dá uma quebrada na correria dos dias e coloca as coisas sob uma nova perspectiva. Te faz não pensar em nada. Aí vêm uns flashes de vida real, você reflete sobre umas paradas, resgata umas vontades perdidas. Olha para dentro, saca? Ilumina tudo. Mais que um porre de pisco. Aí você entende o sentido: viajar é para voltar para dentro. Abrir espaço para o insight. Melhorar sua performance – no trabalho e na vida. Faz parte da rotina sair dela. Num Vale desses, deveras sagrado, iluminação é cortesia da casa.

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Fonte oficial: GQ

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