“Vivemos em uma sociedade que empurra a mãe para baixo”: Érico Brás reflete sobre papel do pai e da mãe na criação – GQ

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Nome: Érico Brás
Profissão: Ator e escritor.
Rede social: @ericobras
Nomes dos filhos (com idade): Érica, 16 anos.

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“Ter a noção de que a vida de mais um ser depende de você alterou a minha própria vida”, diz Érico, pai de Érica, 16 anos (Foto: Demian Jacob e acervo pessoal (polaroide))

O que é ser pai hoje?

Eu me considero um pai em desenvolvimento! Não sou um pai que começou agora, comecei lá em 2003. Hoje minha filha tem 16 anos e ela é fruto de uma série de transformações. E, se ela é fruto de transformações, eu também sou um pai em crescimento, em desenvolvimento e muito atento a todo tipo de aprendizado que vem junto com essas mudanças.

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O que a paternidade mudou em você e na sua vida?

Quando a minha filha nasceu, obviamente aumentou o meu senso de responsabilidade. Eu já era muito responsável por tudo que eu queria em relação ao trabalho, família, vida, mas quando ela nasceu essa responsabilidade aumentou. Ter a noção de que a vida de mais um ser depende de você alterou a minha própria vida. Comecei a prestar mais atenção em todas as transformações sociais e passei a ser alguém mais completo. Sem contar que passei também a ocupar o meu tempo com ela, pois ela precisa de mim. Foi uma transformação para melhor.

O que aprendeu com o seu pai?

Meu pai foi presente na medida do possível, pois como ele não teve pai e nem mãe, ele não aprendeu a ser pai. Por isso, ele não pode me ensinar muita coisa. Mas os poucos e bons momentos que tivemos passaram por cima das dificuldades e fases ruins. Eu preferi guardar as recordações dos momentos maravilhosos. E, um dos melhores foi quando jogamos juntos futebol! Naquele momento lúdico, de pai e filho jogando bola, eu aprendi a driblar algumas fases ruins da vida. Meu pai fazia parte de um time de bairro e eu era um torcedor fanático pelo futebol que ele jogava. E, olha que ele nem era tão bom jogador assim! Ele era quase um perna de pau, mas era um cara que entendia do jogo. Existia admiração de minha parte e ele foi me ensinando o que pode ao longo da vida.

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O que aprendeu com sua filha?

Aprendi com a minha filha que precisamos valorizar as coisas simples e que estão próximas da gente. Vivemos em um mundo capitalista e globalizado, no qual você sabe mais da vida de alguém do outro lado do mundo do que alguém da sua vizinhança. Eu aprendi com ela que é preciso olhar para as coisas pequenas que estão próximas da gente, porque elas podem ser muito maiores do que a gente imagina. A minha filha usa telefone, rede social, como outras jovens de sua idade, mas ela, ainda assim, consegue apreciar a natureza, por exemplo. Quantas vezes a gente está no carro e passa pela orla sem nem ao menos olhar para o mar? Eu a vejo prestando atenção em pequenas coisas, dando valor para natureza e isso é muito grandioso. Isso é maior do que qualquer contato universal que a internet ou as redes sociais conseguem proporcionar. 

Érico Brás (Foto: Demian Jacob | Styling: José Camarano)

O que você faz hoje como pai que o seu pai não fazia antigamente?

Muita coisa! A educação que eu dou a minha filha é mais livre, com liberdade de escolha. Eu apenas a guio no que ela ainda não sabe. A minha experiência serve para isso, mas a liberdade de poder escolher é dela. E eu prezo por isso! É daí que nasce um ser humano que sabe fazer escolhas com responsabilidade ao longo da vida. Com amor e dedicação em tudo o que escolhe fazer. Eu deixo ela à vontade para isso, enquanto que foi algo que meu pai não me deu. Meu pai sempre quis dizer o caminho. Ele queria que eu fosse médico, advogado, juiz, engenheiro, e, aos sete anos, eu comecei a fazer teatro e disse: quero pagar as minha contas com a minha arte! Foi um caminho totalmente diferente, escolhido por mim, mas sem apoio do meu pai, mesmo tendo o apoio da minha mãe. Então, hoje, eu deixo que a minha filha escolha. Eu a guio.

Você acha que pai e mãe têm funções diferentes? Por quê?

Vivemos em uma sociedade patriarcal, que empurra a mãe para baixo da pirâmide familiar. O pai fica em cima e os filhos ainda depois. Essa construção cristã da família instalou a ideia de que pais e mães têm funções diferentes, mas eu sempre entendi que podemos fazer tudo, tanto o homem quanto a mulher. Tirando a dádiva de que só a mulher pode gerar um filho, depois que o bebê está concebido, na minha opinião, os dois podem exercer a mesma função.

Além do seu pai, quem mais te inspirou para ser o pai que é hoje?

Eu tenho vários exemplos de pessoas que foram boas e com muito senso de paternidade. Acredito que pai não é só aquele que gera junto com a mãe. O pai é aquele que entende a força natural de ser pai, que tem a capacidade de liderança na vida de pessoas que precisam de auxílio, como são as crianças. Eu vi muitos exemplos nas casas religiosas de matriz africanas, porque elas cumprem muito essa função, fechando essa lacuna da falta do pai. E, por todos lugares que passei, dentro ou fora do país, vi exemplos de paternidade que me fortaleceram, me deixaram mais cientes e conscientes do que era ser pai na vida de minha filha e de outras pessoas.

Do que você mais se orgulha na criação do seu filho?

O senso de honestidade e de justiça. A minha filha vê isso em mim e se espelha. Eu prefiro ser justo com as coisas e com todos, porque acredito que honestidade abre portas. Além da alegria que ela tem de viver, satisfeita por ter o pai que tem, pela família e vida que leva! E eu me cobro, todos os dias, pela responsabilidade que tenho em manter isso vivo nela.

Érico Brás (Foto: Demian Jacob | Styling: José Camarano)

Na sua opinião, que tipo de pai você diria que é?

Eu sou um pai em construção e os tijolos dessa construção são resultado de tudo o que eu faço com ela. Quando vejo a alegria dela é mais um tijolo desse pai. Quando vejo uma realização, quando vejo ela brincar, quando vejo ela na escola se interessando por feminismo e assuntos sociais, sobre o Brasil, sobre a religiosidade e a ancestralidade ela. Tudo isso são tijolos que constroem esse pai que eu sou. São tijolos muito fortes e reluzentes porque eles refletem em mim o crescimento de uma jovem que, no futuro, vai ser uma líder também!

Um conselho para um pai de primeira viagem:

Aprenda, aprenda e aprenda, todos os dias, com o convívio com seu filho.

Fotos: Demian Jacob
Styling: José Camarano
Érico veste BOSS

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Fonte oficial: GQ

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