Wired Conference: como os limites da nossa memória influenciam as eleições – GQ

4

“A memória é seu simulador pessoal, toda ela é falsa de alguma maneira”, disse a Dra. Julia Shaw para a plateia do Wired Conference na quinta-feira (23). Julia é especialista em Memory Hacking, nome pomposo para um processo que ocorre o tempo todo: como memórias são passíveis de erros, como editamos e remixamos nossas experiências passadas na cabeça o tempo todo (afinal quem conta uma história sempre aumenta um ponto). Mais importante: Julia estuda a forma que esse processo ocorre – e como ele pode ser influenciado por terceiros.

A pesquisadora, nascida na Alemanha e criada no Canadá, é especialista formada em ciência criminal, o que a fez inclusive dar conselhos para centrais de inteligência europeias – “Espiões em campo costumavam se reunir no final de um dia com outros colegas para reportar as suas descobertas. Esse é o pior jeito de contar uma história”, brinca Julia. Mesmo as memórias mais recentes, diz a doutora, não sobrevivem bem quando a primeira coisa que você faz é narrá-la para alguém. As reações de tédio, confusão ou surpresa do interlocutor podem fazer o narrador alterar o relato, mesmo que não se dê conta disso, explica.

Julia também ajudou a fundar a Spot, empresa de tecnologia responsável por um chat bot que ajuda pessoas que passaram por abuso em ambientes de trabalho a relatarem suas experiências de forma anônima. O ‘robô’ ajuda em um processo fundamental para a pesquisadora: criar um ambiente informativo para a vítima, mas também gerar ferramentas que ajudam ela a entender o ocorrido sozinha antes de conversar sobre o assunto com outra pessoa.

Em tempo de eleições, a doutora sentou com a GQ Brasil para falar como memórias, falhas por natureza, podem alterar a maneira como votamos, e o que fazer a respeito. Confira abaixo:

GQ Brasil: Você chegou a falar no Huxley Summit em 2017 sobre falsas memórias sendo problemáticas para sistemas políticos. Você pode aprofundar um pouco mais sobre esse assunto?

Julia Shaw: Eu já tinha escrito e discursado sobre a potencial influência das memórias falsas em decisões políticas antes, sobre a ideia de que como lembramos do nosso passado pode mudar como votamos no presente. Em particular, estudei casos como o inglês e o americano. Os slogans Make America Great Again e Make Britain Great Again [usados pela campanha de Trump em 2016 e pelos apoiadores do Brexit no referendo do mesmo ano, respectivamente] jogam com nostalgia e memória sobre coisas que potencialmente nunca aconteceram. Aquela noção maravilhosa do ‘Americana’ não existiu da maneira que geralmente conversamos a respeito. Mesma coisa com o Reino Unido: houve uma série de problemas nos anos 60 e 70 que estão encondidos sob essa retórica do ‘passado era ótimo’, dos ‘bons e velhos tempos’.

E há duas coisas sob a perspectiva da memória que eu acho muito interessantes quando falamos sobre nossas decisões políticas. A primeira é que pessoas que falam dessa forma estão, muitas vezes intencionalmente, mudando o jeito que você lembra, essencialmente implantando falsas memórias falando sobre essas belas e incríveis experiências que talvez não fossem tão belas e incríveis para início de conversa.

Dra. Julia Shaw, especilista em memory hacking e confundadora do Spot (Foto: David Mazzo)

A segunda parte é a que opera sobre algo que todos nós temos, especialmente pessoas acima dos 40 anos. Há um viés da memória em que, depois dos 40, lembramos de nossa juventude, dos 20 aos 25, de forma mais vívida e detalhada do que qualquer outra época de nossas vidas. É algo que chamamos em inglês de rosy retrospection bias [algo como ‘falácia da memória enviesada’]: você observa sua vida até então e, conforme sua idade se distancia desses anos de formação fundamentais quando era adolescente – a primeira vez que voltou, seu primeiro trabalho – eles se tornam mais românticos e melhor preservados do que memórias mais recentes.

Votar não é um processo estritamente racional, há um lado passional. Você já falou sobre como usamos eventos dramáticos, grandiosos ou estranhos para nos ajudar a lembrar de coisas. Você acha que isso pesa na hora do voto? Que coisas ruins ou faraônicas ditam mais nossas decisões do que assuntos rotineiros, mesmo quando são positivos?
 

Julia Shaw: Acredito que sim. Há essa habilidade nossa de nos focarmos e lembrarmos melhor de eventos extremos ou altamente emocionais, e isso pode ser bom ou ruim. Como um candidato reage a uma guerra prestes a acontecer, por exemplo, pode consolidar como pensamos nele. E de repente não pensamos nas outras partes de sua plataforma, ou quem essa pessoa é, nos fixamos nesse exemplo.

+ Wired Conference: as cidades dificultam o desafio de envelhecer?
+ Wired Conference: um mergulho no que significa viver em um mundo mais idoso
+ “Como usar a tecnologia a serviço do bem é o maior desafio de nossos tempos, diz Sri Prem Baba

Mas acho que você está correto em dizer que o voto é geralmente uma experiência emocional, e eventos recentes têm um efeito desproporcional sobre como votamos – isso pode ser bem perigoso. Talvez agora, digamos, você esteja pensando negativamente sobre o partido que você teria votado porque algo aconteceu na semana passada – isso não é necessariamente representativo do partido como um todo, e pode levar a uma decisão ruim.

Nosso sistema político também é complexo, em termos de número de partidos e candidatos. Isso também tem um papel nessa relação dificultosa entre memória e política?

Julia Shaw: Acho que o Trump é um bom exemplo. Acho que parte da razão do porquê pessoas gostam do Trump e o colocaram no poder é porque é fácil lembrar dele. Quando você está lá olhando para todos esses nomes, se lembrando dos eventos e do noticiário – até mesmo as histórias negativas –, você sente como se conhecesse essa pessoa em particular.

Quando há muitos partidos políticos, como se destacar vira a questão, e apelar para emoções e nostalgia, as coisas que te fazem mais memorável, é importante. Não é saudável para a democracia, no entanto, é mais como se fosse uma campanha publicitária (risos).

 (Foto: Senado Federal)

Ser cidadão significa viver em um país com história longa, muito da qual você não viveu. Esse tipo de informação é mais ‘hackeável’?

Julia Shaw: Especialmente quando falamos da história do país, há essa máxima popular, que diz que os vencedores escrevem a história, e é importante lembrar isso, que quando olhamos para a história, é sob a lente de onde vivemos e quem detém o poder. E meios diversos, campanhas de relações públicas, propaganda, tudo isso pode mudar a maneira como você interpreta – mas também resgata – o passado de sua cultura e seu país.

Você acha que a questão dos limites da memória é um problema solucionável – ao menos no campo político?

Julia Shaw: Acho que precisamos educar nossas crianças e jovens a interpretar melhor a informação. Temos que ensiná-las a serem empíricas, a se basearem em evidência, o que informação significa de fato. Acho que precisamos ser mais críticos sobre a informação que consumimos, e procurar melhor evidência ao invés de assumir que tudo é verdade. Há muita gente fazendo isso nesse momento, mas também vemos surgir muita má informação.

Acho que a melhor maneira de combater notícias falsas é buscar isso. Fake news sempre existiu e vai continuar a existir. Seja fofoca naqueles círculos de amigos até má informação em sistemas políticos.

+ Melissa Barnes, do Twitter: “Não vamos permitir que grupos políticos façam propaganda no Twitter”
+ Entre “robôs” e várias telas, como ir às compras pode mudar nos próximos anos
+ Pesquisador aborda a mente humana para melhorar nossas refeições

Ao mesmo tempo, você está tentando mudar algo que não deixa de ser sócio-político, que é a questão do abuso no ambiente de trabalho. Fale um pouco sobre isso.

Julia Shaw: Abrimos a empresa no ano passado e lançamos o site em fevereiro. O Spot tem sido um projeto incrível, acho que podemos nos beneficiar da tecnologia para ajudar a trazer à tona a memória de eventos importantes. Diria até que precisamos dela, porque nossos cérebros são muito ruins para estocar todos os detalhes relevantes que poderiam fazer a diferença no futuro durante investigações, ou mesmo para se assegurar daquilo que nos lembramos.

Nós tivemos uma resposta incrível. Tivemos 50 a 60 mil pessoas acessando o Spot, entre homens e mulheres falando de todo tipo de abuso e descriminação. Acho que o que mais me impressionou é ver pessoas tão dispostas para falar com um chat bot movido por inteligência artificial sobre o tema. É porque parece privado e, acho que especialmente para gente mais nova, elas estão acostumadas a usar o celular e o computador, e falar com pessoas ou ligar para elas para falar de assédio é completamente estranho. Isso é diminuído quando você se sente no controle, está online e decide quando – e se – divide essa informação.

O chat bot grava o que aconteceu e os detalhes, permitindo criar um arquivo pdf que você pode enviar para os responsáveis da empresa. Acho que esse é nosso próximo passo. O primeiro é ver como as pessoas utilizam esse bot para registrar momentos emocionais. Depois é se reunir e trabalhar com organizações e empresas para agir. Porque uma coisa é ouvir, a outra é fazer algo a respeito. Estamos usando tecnologia e IA como mediadores, para ajudar pessoas e companhias a lidar com problemas, e se questionarem mais.

Fonte oficial: GQ

​Os textos, informações e opiniões publicados neste espaço são de total responsabilidade do(a) autor(a). Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Sixth Sense.

Comentários